Investigação sobre corrupção aperta o cerco sobre Netanyahu

Isabel Kershner

Em Jerusalém (Israel)

  • Amir Cohen via AP

    O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu

    O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu

Charges políticas mostram chamas lambendo os alicerces da residência fortificada do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Comentaristas dizem que o laço está se apertando em seu pescoço.

Há meses Netanyahu é investigado em dois casos separados de suborno, cheios de vazamentos, que envolvem presentes ilícitos de amigos ricos e negócios nos bastidores com um magnata da imprensa local, na tentativa de obter cobertura favorável. O último golpe foi pouco antes do fim de semana, quando a polícia israelense assinou um acordo de delação com Ari Harow, ex-chefe de gabinete de Netanyahu e que foi um de seus mais próximos confidentes.

Na véspera, em um documento jurídico que faz parte das negociações com Harow, a polícia disse por escrito, pela primeira vez, que Netanyahu é suspeito de suborno, assim como fraude e quebra de confiança.

Diante desses avanços, parece provável, segundo analistas, que o primeiro-ministro de maior duração no cargo em Israel depois de David Ben-Gurion acabará enfrentando acusações, dando a seu quarto mandato um novo nível de turbulência e intriga. A pergunta agora, para seus críticos, é por quanto tempo ele conseguirá evitar o que eles consideram sua iminente demissão.

"Ari Harow assinou um acordo de delação porque ele tem algo a dizer", escreveu Sima Kadmon, uma importante colunista política, no jornal "Yedioth Ahronoth" no domingo. Se as autoridades aceitaram livrar Harow, que enfrentava um julgamento sobre seus interesses privados nos negócios, com apenas seis meses de serviço comunitário e uma multa, disse Kadmon, "então Netanyahu é um morto ambulante".

Qualquer acusação real ainda poderá demorar meses, e a maioria dos analistas, inclusive Kadmon, duvidam de que Netanyahu, um sobrevivente político que negou com veemência qualquer desvio, irá a algum lugar tão cedo.

Sob a lei israelense, um primeiro-ministro não precisa renunciar mesmo que condenado, disse o professor Barak Medina, um especialista em direito constitucional na Universidade Hebraica de Jerusalém. Se a polícia recomendar um processo, o Ministério Público e o procurador-geral ainda teriam de concordar, depois de conceder uma audiência ao primeiro-ministro. Não há precedente em Israel de acusação a um primeiro-ministro no poder.

Mas se a polícia recomendar acusações sérias, como suborno, contra Netanyahu, seria "difícil sobreviver", disse Medina, porque a pressão política e pública aumentaria.

Netanyahu vem projetando uma imagem de normalidade. Em uma saudação em vídeo no sabá publicada no Facebook, ele rejeitou os últimos fatos jurídicos como "ruído de fundo" e disse que continua dirigindo os negócios do Estado, inclusive a expansão dos assentamentos, em um sinal para sua base de direita.

Em comentários transmitidos antes da reunião semanal do gabinete, no domingo, Netanyahu falou sobre receber o presidente de Togo e uma próxima visita dele à África. Seu gabinete e seus seguidores denunciaram as investigações como uma caça às bruxas política destinada a derrubá-lo do poder.

"Nesta etapa, por lei, todo cidadão israelense, e certamente o primeiro-ministro, deve ter total presunção de inocência", disse na rádio israelense Tzachi Hanegbi, um ministro do partido de Netanyahu, o conservador Likud. "Assim, ele está conduzindo o Estado e em paralelo administra sua batalha jurídica."

O antecessor de Netanyahu, Ehud Olmert, foi libertado da prisão no mês passado depois de servir 16 meses de uma pena de 27 meses por crimes que incluem propina, fraude, obstrução de Justiça e quebra de confiança. Olmert foi obrigado a deixar o poder em 2008 sob o peso de investigações da polícia, mas continuou como primeiro-ministro temporário até a realização de eleições antecipadas, em 2009.

A polícia também está avançando em outras investigações criminais em que Netanyahu não foi citado como suspeito, mas que envolvem associados de seu círculo íntimo. Um escândalo envolve um acordo de US$ 2 bilhões para a compra de submarinos e navios lança-mísseis de um fornecedor alemão. Críticos descreveram o episódio como potencialmente o maior caso de corrupção da história de Israel, tocando profundos conflitos de interesses e de segurança nacional.

Michael Ganor, o agente israelense da companhia de navegação alemã, também assinou um acordo de delação com investigadores israelenses. Seu advogado, David Shimron, que também é o advogado pessoal de Netanyahu e seu primo em segundo grau, recentemente passou vários dias sob prisão domiciliar.

Ampliando os problemas de Netanyahu, a polícia interrogou a mulher dele, Sara, na semana passada pela quarta vez como parte de uma investigação sobre uso de verbas públicas nas residências de Netanyahu.

Em vez de manter um perfil discreto, o filho mais velho do casal, Yair Netanyahu, tem atraído a atenção pública por mau comportamento e por entrar em uma discussão nas redes sociais com um filho de Olmert.

Críticos dos Netanyahus há muito pintam Yair, 25, como um herdeiro mimado que ainda mora com os pais na residência oficial e vive luxuosamente às custas dos contribuintes. Quando ele saía com Kaya, o cão da família, no final do mês passado, uma mulher do bairro lhe pediu para recolher os dejetos do cachorro e ele respondeu, segundo a mulher e uma testemunha, com um gesto obsceno.

Dias depois, uma ONG de esquerda publicou uma dura crítica ao estilo de vida de Yair. O jovem respondeu com um ataque virulento publicado em sua página no Facebook. Ele perguntou por que não havia críticas aos filhos de outros primeiros-ministros, incluindo o de Ariel Sharon, que foi preso, ou o de Olmert e sua "relação interessante com um palestino e suas implicações para a segurança nacional". Ele assinou com emojis de um dedo médio erguido e um monte de excrementos.

Em uma resposta no Facebook em hebraico e árabe, Ariel Olmert acusou o jovem Netanyahu de espalhar mentiras sobre seu "amigo imaginário", de racismo e homofobia. Olmert filho acrescentou que vive com uma mulher e trabalha para se sustentar. Ele também tenta limpar a sujeira de seu cachorro, segundo disse.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos