Demissões de funcionários provocam guerra cultural no Vale do Silício

Nick Wingfield

  • Marcio Jose Sanchez/AP

    Sede da Google em Mountain View, na Califórnia

    Sede da Google em Mountain View, na Califórnia

As guerras culturais que consumiram a política nos Estados Unidos agora chegaram ao Vale do Silício.

Isso ficou claro esta semana, depois que o Google demitiu na última segunda-feira um engenheiro de softwares, James Damore, que havia escrito um memorando interno questionando os esforços em prol da diversidade por parte da empresa de internet. A demissão desencadeou um debate acirrado sobre a forma como o Google lidou com a situação, e alguns acusaram a empresa de silenciar o engenheiro por falar o que pensava. Defensores das mulheres na tecnologia elogiaram o Google. Mas para a direita isso se tornou um poderoso símbolo da intolerância da indústria da tecnologia para com uma diversidade ideológica.

Há muito tempo que as políticas do Vale do Silício se inclinaram para a esquerda, com uma filosofia de livre-mercado e um toque de libertarianismo. Mas não vai muito além disso. Episódios recentes colocaram a indústria da tecnologia sob escrutínio pela forma como ela tem punido as pessoas que expressam opiniões divergentes. A demissão de Damore mergulhou a capital da tecnologia do país em alguns dos mesmos debates que tomaram conta do resto do país.

Tais divisões vêm crescendo no Vale do Silício já há algum tempo, chegando até mesmo a seus mais altos escalões. As tensões se tornaram evidentes no ano passado com a vitória de Donald Trump, quando algumas pessoas da indústria que apoiaram publicamente o então candidato presidencial enfrentaram pressão por suas decisões políticas.

No Facebook, Peter Thiel, um investidor e membro da diretoria da rede social, ouviu de um colega, Reed Hastings, CEO da Netflix, que receberia uma avaliação negativa de seu desempenho na diretoria por apoiar Trump. E Palmer Luckey, um dos fundadores da Oculus VR, uma startup de realidade virtual do Facebook, foi pressionado a deixar a empresa depois que foi revelado que ele havia financiado secretamente uma organização pró-Trump.

Scott Galloway, um professor de marketing da Faculdade de Administração Stern da Universidade de Nova York, disse que os comentários de Damore carregavam um peso extra para as pessoas de ambos os lados do espectro político porque ele era um engenheiro do Google, uma das maiores empresas de tecnologia do mundo.

Juntamente com outros gigantes como o Facebook, a Amazon e a Apple, essas empresas "são vistas como pilares de nossa sociedade", disse Galloway. "Controvérsias e declarações que emanem desses funcionários assumem um peso diferente".

A indústria da tecnologia sempre andou em conformidade com questões como o apoio à imigração e à diversidade, ainda que suas empresas continuassem sendo essencialmente masculinas, brancas e asiáticas. Mas a eleição de Trump no ano passado—com seus ataques contra o politicamente correto, sua linguagem grosseira para com as mulheres e suas ações para restringir a imigração e negar o aquecimento global—parecia ameaçar muitos desses ideais.

Ao mesmo tempo, as palavras de Trump podem ter deixado os dissidentes na indústria da tecnologia mais confortáveis para falar livremente o que pensam.

"De certo modo, Trump autorizou as pessoas a expressarem o que alguns chamariam de pensamentos politicamente incorretos", disse Adam Galinsky, um professor da Faculdade de Administração da Universidade de Columbia. "E por outro lado existe essa ideia de que muitas das políticas de Trump vão contra os ideais inclusivos que essas empresas adotam".

No Google, seu CEO Sundar Pichai disse em um e-mail na segunda-feira que Damore foi demitido por violar o código de conduta da empresa, mais especificamente sua perpetuação de "estereótipos nocivos de gênero" no local de trabalho. Damore havia argumentado que razões biológicas poderiam explicar a sub-representação das mulheres na indústria da tecnologia, causando uma revolta geral dentro e fora do Google. Em sua defesa, Damore disse que ele tinha direito de se expressar e que estava considerando entrar na Justiça contra o Google por demiti-lo.

Amy Siskind, presidente da New Agenda, um grupo de defesa dos direitos das mulheres, tuitou que Damore representa "cada eleitor homem branco de Trump que se sente ameaçado" pelas mulheres e pessoas de cor que, "se dotadas de uma oportunidade, revelarão sua mediocridade".

O memorando e a demissão de Damore o transformaram em um herói em sites de notícias da direita como o Breibart, que há muito tempo critica as inclinações políticas da indústria da tecnologia.

Julian Assange, o fundador do WikiLeaks, disse no Twitter que "censura é para perdedores" e se ofereceu para contratar Damore. Steven Pinker, um cientista cognitivo da Universidade de Harvard, disse no Twitter que as ações do Google poderiam aumentar o apoio a Trump dentro da indústria da tecnologia.

"O Google está jogando um grande setor da tecnologia nos braços de Trump, ao demitir funcionário que escreveu um memorando sobre mulheres na indústria de tecnologia", escreveu Pinker.

Um dos defensores mais assumidos de Trump no Vale do Silício tem sido Thiel, um dos fundadores do PayPal, que desde então passou a enfrentar zombarias de outras pessoas que trabalham na indústria da tecnologia por sua posição política. Um sinal de quão profundas estão as animosidades foi o fato de Hastings da Netflix ter alertado Thiel em agosto passado, algumas semanas depois de Trump ter aceito a nomeação republicana para a eleição presidencial, que ele enfrentaria consequências por apoiar Trump.

Thiel, que também é um dos investidores originais do Facebook, fez um discurso em horário nobre apoiando Trump na convenção republicana. Já Hastings, um partidário de Hillary Clinton, disse no começo do ano passado que Trump, se eleito, "destruiria boa parte do que é grandioso a respeito dos Estados Unidos".

Hastings, que é presidente de um comitê que avalia os membros da diretoria do Facebook, disse a Thiel em um e-mail de 14 de agosto que sua militância refletiria mal para Thiel durante uma revisão de diretores do Facebook marcada para o dia seguinte.

"Eu vejo nosso conselho como algo que tenha de ter um ótimo discernimento, especialmente na desastrosa e improvável situação em que tenhamos de escolher novos líderes", escreveu Hastings no e-mail para Thiel, do qual o "The New York Times" obteve uma cópia. "Estou tão perplexo com seu apoio a Trump para nossa presidência, que para mim isso deixa de ser uma 'opinião diferente' para ser uma 'opinião ruim'. É saudável ter um pouco de diversidade nas visões, mas uma opinião catastroficamente ruim (na minha visão) não é algo que qualquer um queira ter em um colega de conselho".

Thiel e Hastings se negaram a comentar através de seus porta-vozes; nenhum dos dois contestou a autenticidade do e-mail. Uma porta-voz do Facebook se negou a comentar o e-mail. Os dois homens continuam no conselho do Facebook.

Outro proeminente defensor de Trump afiliado ao Facebook, Luckey, não durou na empresa. Em setembro, o "The Daily Beast" publicou uma matéria dizendo que Luckey vinha financiando secretamente uma organização política pró-Trump chamada Nimble America. Reportagens posteriores e postagens nas mídias sociais acusaram Luckey de financiar "memes" de internet machistas e racistas.

Luckey, cuja empresa foi comprada pelo Facebook por US$2 bilhões (mais de R$6 bilhões), disse em um post no Facebook que as matérias distorciam suas opiniões, embora ele tenha pedido desculpas pela cobertura negativa que trouxe à Oculus. (De fato, havia poucas provas de que as atividades da organização fossem além de um outdoor na região de Pittsburgh que mostrava uma caricatura de Hillary Clinton com a mensagem "Grande Demais para a Cadeia" por trás.)

Luckey, através de um acordo mútuo com seu empregador, se afastou dos escritórios da Oculus para deixar a poeira baixar, de acordo com três pessoas a par do episódio que pediram para permanecer anônimas por causa de termos de confidencialidade. Em dezembro, antes de voltar brevemente aos escritórios, ele contou a colegas que estava determinado a permanecer na empresa, de acordo com a cópia de uma mensagem que ele postou em um fórum interno de discussão, que foi analisada pelo "New York Times".

Mas, no final de março, a Oculus disse que ele não trabalhava mais lá.

Uma porta-voz do Facebook reiterou uma declaração anterior da empresa dizendo que a saída de Luckey não estava relacionada com suas visões políticas. Luckey não quis comentar sobre sua saída do Facebook.

Algumas figuras proeminentes do Vale do Silício estão preocupadas com o fato de haver excessiva homogeneidade política dentro da indústria da tecnologia. Em um podcast de maio, Marc Andreessen, o investidor de capital de risco, disse que só sabia de dois partidários de Trump no Vale do Silício, Thiel e Luckey.

"O que isso faz com uma pessoa, quando ela se sente que não pode se expressar?", disse Andreessen, um membro do conselho de diretores do Facebook que apoiou Hillary Clinton no ano passado.

* Com reportagem de Daisuke Wakabayashi.

Tradutor: UOL

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