Maduro tem generais nas mãos, mas militares de patente média começam a se rebelar

Nicholas Casey e Ana Vanessa Herrero

  • Santi Donaire/EFE

Soldados venezuelanos fugitivos declararam uma rebelião contra "a tirania homicida" do presidente. Oficiais dissidentes fugiram do país, buscando asilo. Granadas foram arremessadas contra a Suprema Corte e, neste fim de semana, rebeldes sob o comando de um capitão amotinado atacaram uma base do Exército, da qual levaram armas. 

Enquanto a Venezuela cambaleia devido a uma crise econômica debilitante e protestos de rua mortais, as forças armadas serviram com frequência como garantidoras da continuidade do poder do presidente Nicolás Maduro sobre o país. Mas desafios audaciosos a seu governo nas últimas semanas expuseram uma divisão dentro de suas forças armadas que pode vir a determinar o destino do país: um crescente número de oficiais está rompendo com o presidente e pegando em armas. 

"Eles falam de resistência, agora que acham que a solução é usar armas", diz Cliver Alcalá, um general venezuelano reformado e um crítico do governo, sobre aqueles que se rebelaram. 

A Venezuela tem uma história de golpes e tentativas de derrubada do governo em tempos de crise, e muitos no país agora se perguntam se este é um momento destes. 

Mas os líderes da nação estão altamente cientes disso também e, à medida que enfrentam sua maior turbulência em anos, parecem ter vindo preparados: o governo passou anos assegurando que os altos comandantes das forças armadas estejam profundamente ligados ao status quo. 

Em um único dia, Maduro promoveu 195 oficiais a generais. Os generais venezuelanos, mais de 2.000, desfrutam de uma série de privilégios, do controle lucrativo da oferta de alimentos a taxas cambiais favoráveis para compra e venda de dólares. 

Onze dos 23 governadores estaduais da Venezuela são atualmente generais reformados, juntamente com 11 chefes dos 30 ministérios, o que lhes dá um interesse extraordinário em preservar o controle do governo sobre o país. 

E ao ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, general do Exército, foi concedido um arranjo ainda mais lucrativo: poderes expandidos para controlar os portos do país, assim como partes dos setores de petróleo e mineração. 

"Maduro se certificou de dar muitas recompensas a altos oficiais militares em troca de lealdade", disse John Polga-Hacimovich, um cientista político que estuda a Venezuela na Academia Naval dos Estados Unidos. "Apesar de estar completamente dependente deles para permanecer no poder, eles têm muito a perder caso ele saia." 

A repressão de Maduro contra os protestos de rua está recebendo ampla condenação. Na terça-feira, a Organização das Nações Unidas disse que o governo tem usado força excessiva contra os manifestantes e que as forças de segurança e grupos armados pró-governo causaram mais da metade das 124 mortes que acompanharam os protestos deste ano. Oito membros das forças de segurança foram mortos, disse a ONU. 

Polga-Hecimovich apontou para os expurgos, promoções, política e lucro que mantiveram muitos líderes militares leais ao governo. Os expurgos e promoções começaram sob o presidente Hugo Chávez, que escolheu Maduro como seu sucessor antes de sua morte em 2013. 

Chávez participou de um levante malsucedido contra o governo quando era tenente do Exército em 1992. Uma década depois, ele também foi vítima de uma tentativa de golpe como presidente. Após retomar o controle, Chávez deu início a um grande esforço para remover das forças armadas qualquer um que pudesse contestá-lo de novo. Ele também instituiu um novo estilo de educação militar para doutrinar as forças armadas em seu movimento de inspiração socialista, até mesmo exigindo que os soldados assistissem a comícios. 

"Havia um filtro ideológico para se chegar às patentes mais altas", disse Harold Trinkunas, cientista político venezuelano e membro da Instituição Brookings. 

Entretanto, a maioria dos oficiais de patente média está distante dos altos escalões ou dos sistemas de favores políticos oferecidos pelo governo. Em vez disso, eles veem o aprofundamento da miséria causada pela escassez de alimentos e medicamentos que atormenta o país. 

"Suas famílias, amigos, conhecidos, todos estão sofrendo e eles estão começando a questionar se a situação está melhorando ou piorando", disse Salazar. "Todos têm a mesma voz que fala com eles todo dia, que é a de sua consciência." 

No domingo, um capitão do Exército fugitivo, chamado Juan Carlos Caguaripano, divulgou um vídeo no qual se encontrava à frente de um grupo de homens armados que ele declarou estarem em uma "rebelião legítima", exigindo um "governo de transição e eleições gerais livres". 

Ao mesmo tempo, um grupo de 20 pessoas lançou um ataque a uma base militar no Estado de Carabobo, perto da capital, Caracas, um ataque que o governo disse ter sido organizado pelo capitão rebelde. Soldados enfrentaram o grupo por três horas e pelo menos metade deles escapou levando armas, eles disseram. 

Antes mesmo do ataque, Caguaripano parecia estar conquistando seguidores. Em um vídeo de 26 de julho, um soldado rebelde chamado Javier Nieto Quintero jurou fidelidade a ele de um local não revelado na floresta, onde ele disse estar exilado. Nieto, que acredita-se ter vivido em Miami e na Colômbia, encorajou os venezuelanos a se erguerem contra o governo. 

"A única coisa que deveríamos negociar é para qual prisão Maduro será enviado", ele disse. 

Ainda assim, à medida que os ataques continuam sem o apoio de altos oficiais, a inquietação mais se parece com uma guerrilha do que com um golpe. Em 27 de junho, um piloto da polícia da Venezuela chamado Óscar Pérez tomou um helicóptero e lançou granadas contra a Suprema Corte. Pérez também divulgou um vídeo conclamando os venezuelanos a se rebelarem. 

Ataques por forças de segurança alinhadas com a oposição incomodam Trinkunas, o cientista político, que nota que o governo armou esquadrões civis, conhecidos como "colectivos", e milícias independentes que podem se ver em conflito com os soldados rebeldes ao tentarem defender Maduro. 

Para Alcalá, os ataques marcam um rompimento com a ordem militar que ele passou anos tentando defender. 

"Temos que rejeitar isso, todos os venezuelanos que acreditam que a solução deve vir da Constituição", ele disse.

A crise na Venezuela

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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