Preocupados com a Coreia do Norte, vizinhos cogitam investir em armas mais mortíferas

Jonathan Soble e Choe Sang Hun

Em Tóquio (Japão)

  • Força aérea dos EUA

    30.jul.2017 - Aviões das forças aéreas americana e sul-coreana seguem para a península da Coreia, em imagem divulgada no domingo (30)

    30.jul.2017 - Aviões das forças aéreas americana e sul-coreana seguem para a península da Coreia, em imagem divulgada no domingo (30)

O rápido progresso do programa nuclear da Coreia do Norte levou políticos do Japão e da Coreia do Sul a pedirem a adoção de armas mais potentes, no que poderia levar a uma corrida armamentista regional.

Algumas das novas capacidades que estão sendo consideradas em Tóquio e Seul, os mais próximos aliados de Washington na Ásia, são politicamente contenciosas. Sua adoção romperia décadas de precedentes e poderia exigir uma delicada negociação diplomática. Outras opções militares já estão sendo mobilizadas, ou o serão em breve.

Em uma análise de política militar publicada na terça-feira (8), o governo japonês enfocou a ameaça da Coreia do Norte, cujo líder, Kim Jong-un, ordenou mais de uma dúzia de testes de mísseis neste ano. Alguns desses mísseis caíram em águas próximas ao Japão.

"O desenvolvimento de mísseis balísticos pela Coreia do Norte e seu programa nuclear estão se tornando problemas cada vez mais reais e iminentes para a região Ásia-Pacífico, incluindo o Japão, assim como para o resto do mundo", disse o governo de Tóquio em seu relatório anual de defesa. "É possível que a Coreia do Norte já tenha alcançado a miniaturização de armas nucleares e adquirido ogivas nucleares."

Essa avaliação desanimadora provavelmente alimentará um debate crescente no Japão sobre se o país deve adquirir meios para lançar ataques militares preventivos, que poderiam destruir os mísseis norte-coreanos no solo, antes que sejam disparado contra o Japão ou outros alvos. Os legisladores já estão pressionando pela obtenção dessas capacidades; adquiri-las representaria uma profunda mudança para o Japão, cuja Constituição pós-Segunda Guerra Mundial renuncia à guerra.

O Japão há muito limitou suas forças militares a um papel estritamente defensivo. Embora governos sucessivos tenham afirmado que, na teoria, atacar um inimigo preventivamente para conter um ataque iminente seria um ato de autodefesa, e portanto constitucional, o país em geral evitou adquirir armamentos do tipo necessário para tanto. Eles incluem mísseis de cruzeiro de longo alcance, mísseis ar-terra e aeronaves de reabastecimento que ampliam o alcance dos jatos de combate.

Algumas autoridades graduadas agora afirmam que o Japão deveria adquirir tais armas.

"Os lançamentos de mísseis pela Coreia do Norte fizeram escalar as tensões, tanto em termos de qualidade como de quantidade", disse o novo ministro da Defesa do Japão, Itsunori Onodera, na sexta-feira (4), um dia depois que o primeiro-ministro Shinzo Abe o instalou no cargo em uma reformulação do gabinete. "Eu gostaria de estudar se nossa atual defesa antimísseis é suficiente."

Em março, Onodera liderou uma comissão legislativa do Partido Democrático Liberal para recomendar que o Japão considere a obtenção de capacidade para realizar ataques preventivos. Suas opiniões poderão se refletir em uma estratégia militar quinquenal atualizada que será publicada pelo Ministério da Defesa no próximo ano.

O Japão já se comprometeu a comprar caças a jato modernos F-35 e está procurando um sistema avançado de defesa antimísseis para melhorar suas chances de derrubar algum míssil norte-coreano que se aproxime.

A Coreia do Norte intensificou seu impasse com os EUA e outros países na terça-feira (8), ao advertir que tomaria "ações físicas" não especificadas em retaliação pelas novas sanções que o Conselho de Segurança da ONU aprovou durante o fim de semana.

Autoridades e analistas dizem que ainda duvidam que a Coreia do Norte tenha dominado todas as tecnologias necessárias para enviar uma ogiva nuclear em um míssil balístico intercontinental (ICBM na sigla em inglês). Mas o último teste de ICBM, realizado em 28 de julho, foi de todo modo assustador, demonstrando que seus mísseis hoje têm um alcance potencial que poderá incluir grande parte dos EUA continentais.

Ainda mais que o Japão, a Coreia do Sul está trabalhando para aumentar suas capacidades de monitorização e ataque, incluindo radares e aviões de reconhecimento por controle remoto para rastrear e neutralizar mísseis norte-coreanos em ataques preventivos.

Depois dos testes de ICBM da Coreia do Norte, o novo presidente sul-coreano, Moon Jae-in, reverteu sua decisão de suspender a implementação de um novo sistema americano de defesa de antimísseis. Ele também pediu que os EUA deixem o Sul construir mais mísseis balísticos potentes, medida que exigiria a aprovação de Washington, segundo os termos de um tratado bilateral.

Algumas pesquisas de opinião indicaram que a maioria dos sul-coreanos é favorável a que seu país desenvolva armas nucleares próprias, para enfrentar as do Norte, mas Moon se opõe à ideia.

Hideshi Takesada, um especialista em questões de defesa no Instituto de Estudos Mundiais na Universidade Takushoku, em Tóquio, disse que se a Coreia do Sul adquirir armas nucleares o Japão poderia reavaliar sua antiga rejeição a elas --apesar de suas experiências traumáticas no final da Segunda Guerra Mundial, quando bombas atômicas americanas devastaram as cidades de Hiroshima e Nagasaki.

"Se a Coreia do Sul se nuclearizar, essa discussão também acontecerá no Japão", disse Takesada.

O ministro afirmou que Abe teria de lidar cuidadosamente com essa questão. A oposição ao seu objetivo de cancelar as restrições constitucionais sobre as forças militares contribuiu para uma recente queda dos índices de aprovação do governo. E ampliar o alcance das forças japonesas poderia antagonizar não apenas a Coreia do Norte, mas também a do Sul, onde a desconfiança do Japão, ex-ocupante colonial da península da Coreia, continua forte.

Apesar desses riscos, segundo Takesada, o Japão deverá adquirir a capacidade de ataques preventivos, mesmo que só pelo efeito dissuasivo. Uma política indefinida sobre a Coreia do Norte em Washington sob o presidente Donald Trump, acrescentou ele, tornou mais urgente maximizar as capacidades do Japão.

"Em vez de obter armas nucleares, o que muito poucos japoneses apoiam, essa é a melhor maneira convencional de fazer Kim Jong-un pensar duas vezes antes de atacar", disse ele.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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