A ilha croata que não quer turistas mal-comportados

Rick Lyman

Em Hvar (Croácia)

  • Laura Boushnak/The New York Times

    Sinalização para turistas tenta orientar o comportamento público, em Hvar, Croácia

    Sinalização para turistas tenta orientar o comportamento público, em Hvar, Croácia

A bucólica ilha de Hvar tem uma mensagem nova e levemente ameaçadora para receber a multidão de turistas deste ano: Comportem-se, senão...

Homens, não tirem a camisa enquanto estiverem na cidade, alertam os pôsteres afixados com destaque por toda a cidade principal da ensolarada ilha --ou vocês podem ter de pagar uma multa de 500 euros (cerca de R$1.900). Nada de beber, comer ou dormir em espaços públicos (700 euros ou mais de R$2.600). Mensagens parecidas estão inseridas nos vídeos informativos que passam na balsa que sai do continente, e aparecem em folhetos distribuídos em todo o píer.

"Somos geneticamente propensos ao turismo", disse Riki Novak, prefeito da cidade principal da ilha, também chamada Hvar. "Mas esse turismo de farra não é algo que pedimos. Não é algo que queríamos".

A ilha, com uma população permanente de aproximadamente 11 mil habitantes, foi durante décadas um lugar onde donos de iates e celebridades internacionais adoravam badalar no verão. Depois de abandonar o trono britânico pela mulher que ele amava, o rei Edward 8º e sua amante pararam ali para nadar em 1936. Jacqueline Onassis fez uma visita, logo depois do assassinato do presidente John F. Kennedy, assim como Beyoncé e Jay-Z, Tom Cruise, Orson Welles, Bono e dezenas de outros ao longo dos anos.

Mas o prefeito e outros moradores dizem que esses clientes ilustres foram afastados recentemente por barcos de festas, casas noturnas e albergues cheios de mochileiros cambaleantes, mudando o perfil da ilha.

Laura Boushnak/The New York Times
Público participa de festival de música em Hvar, Croácia

Os turistas foram responsáveis por um número estimado de 700 mil pernoites em Hvar no ano passado, além de 200 mil excursões diurnas, injetando milhões na economia local em uma onda de turismo que cresceu de 7% a 10% em cada um dos últimos cinco anos. Os sete primeiros meses de 2017 mostraram um aumento de 20% em chegadas de visitantes em relação ao mesmo período no ano passado e um aumento de 10% em pernoites.

"Um problema que temos é que muitos dos nossos hóspedes antigos, que vinham com seus iates e alugavam as grandes mansões, não se veem mais frequentando aqui", disse Novak. "Eles estão encontrando outras versões de Hvar em outros lugares".

Embora ainda seja relativamente tranquila durante o dia, a cidade pode se transformar em um festival de embriaguez pública, nudez parcial e barulheira interminável até tarde da noite. Até oito anos atrás, não havia albergues da juventude na ilha, segundo Paul Bradbury, um expatriado britânico que fundou o "Total Croatia News", um site de notícias anglófono. Hoje, há mais de 30 deles.

"Costumava ter galerias de arte ao longo do píer", disse Bradbury. "Agora são só bares".

Ainda existe o turismo de luxo também. No ano que vem, três hotéis estão programados para serem inaugurados em Hvar, todos resorts cinco estrelas, os primeiros da ilha. Eventos como o Ultra Europe, um festival de música na vizinha Split que realiza suas "after parties" em Hvar, mantêm o arquipélago fervilhante nos meses de calor.

Esperando mantê-lo assim, o prefeito e donos de negócios locais bolaram a campanha deste verão para alertar visitantes de que a cidade passaria a adotar uma linha mais dura no cumprimento de suas regras de comportamento em público do que no passado.

Laura Boushnak/The New York Times
Grupo de turistas tomam banho de sol na praia de Hula Hula, em Hvar

Novak, 47, disse que a campanha, que foi apresentada aos poucos no final de junho, focaria primeiro em divulgar a nova postura, multando somente transgressores extremos que se recusem a obedecer às advertências da polícia. Até o momento, a polícia conseguiu manter a ordem com as advertências, disse George Buj, membro do Comitê de Turismo de Hvar, e ninguém foi multado.

"A polícia diz que eles têm feito menos intervenções e têm visto menos incidentes durante o dia", disse Buj. "Ainda há um e outro, especialmente à noite e de madrugada, mas no geral houve uma diferença notável".

Hvar não é a única meca das férias na Europa a mudar de ideia sobre a imensa onda de farristas hedonistas desencadeada pelas companhias aéreas de baixo custo. Veneza limitou o número de cruzeiros. Em Barcelona, a prefeita permitiu que o La Boquería, o famoso mercado da cidade, proibisse grandes grupos de turistas, que entopem seus estreitos corredores.

Mas as multidões continuam a crescer, talvez em parte por causa dos ataques terroristas que fizeram alguns turistas fugirem de resorts antes populares no Norte da África ou no Oriente Médio. Ondas recentes de refugiados também afugentaram alguns viajantes europeus de resorts na Grécia e na Itália.

Na concorrência moderna por turistas, a Croácia começou atrás de seus vizinhos mediterrâneos, por causa do colapso do comunismo e da violenta dissolução da ex-Iugoslávia. Mas em 1999, quando abriu o Carpe Diem, a primeira casa noturna de luxo de Hvar com sua própria praia particular, o turismo já estava começando a assumir um papel dominante na economia do país.

Laura Boushnak/The New York Times
Modelos gravam vídeo promocional para festival de música em Hvar

O Carpe Diem era "inicialmente de alto nível", disse Bradbury. Mas com a abertura de outras casas noturnas, que foram se espalhando pela cidade e transformando cafés tranquilos em estorvos pulsando techno, as multidões foram ficando cada vez mais jovens e mais bagunceiras.

Katia Zaninovic Dawnay, 57, trabalha para uma imobiliária e disse que tornou-se desagradável durante o verão andar pelo centro antigo da cidade e ter de passar por cima de gente deitada. "Ninguém quer acordar e descobrir que mijaram na entrada de sua casa, com o perdão do linguajar", disse Dawnay. "Ou até pior".

Hvar tem recebido turistas desde que a criação da Hygienic Association of Hvar em 1868 estimulou uma rápida multiplicação de hotéis, restaurantes e outras instalações turísticas. Mas levou mais de um século até a ilha reconhecer que talvez nem todas as formas de turismo sejam iguais.

"A ideia não é ter tanta gente", disse Dawnay. "A ideia é ter menos gente, que gaste mais dinheiro".

Muitos dos albergues e a maioria dos restaurantes e cafés se juntaram à cruzada para melhorar o comportamento na ilha.

Senka Halebic, 31, porta-voz do Hula Hula, um dos mais populares clubes de praia, disse ter visto uma melhora desde o início da campanha do prefeito.

"Essa nova geração que está chegando, que vem bagunçar, que vem consumir bebidas baratas, não queremos esse tipo de clientela", ela disse.

"Quando alguém vem para Hvar, eles esperam uma cidade culta, de qualidade", disse Halebic. "Esse pessoal dorme em albergues, bebe direto da garrafa no meio da rua. Um cliente especial em seu grande iate não vai querer ver jovens bêbados dormindo no píer de manhã".

Tradutor: UOL

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