Guam: um pequeno território apanhado em uma guerra dos mundos global

Nancy Borowick e Megan Specia

  • Força Aérea dos EUA via The New York Times

    B-1B Lancers da Força Aérea dos EUA na base de Guam

    B-1B Lancers da Força Aérea dos EUA na base de Guam

É um pequeno pedaço dos EUA, por acaso no meio do oceano Pacífico. E dentro do alcance dos mísseis norte-coreanos.

É por isso que a ilha de Guam foi colocada sob os holofotes na quarta-feira (9), depois que a Coreia do Norte ameaçou um ataque que criaria "um fogo envolvente" ao seu redor e disse que o ataque ocorreria neste mês.

Mas na ilha, onde fica uma base aérea estratégica dos EUA, a vida continuou normalmente. Os clientes lotavam os restaurantes, mal olhando para os televisores que traziam notícias da última ameaça de Pyongyang contra sua terra.

Os moradores do pequeno território --que tem apenas 20 km no ponto mais extenso e é cercado de lindas praias-- se veem apanhados novamente no meio de uma guerra dos mundos, enquanto uma saraivada de discursos hostis é desfechada entre a Coreia do Norte e os EUA, incluindo ameaças diretas de ação nuclear.

Nancy Borowick/The New York Times
Turistas tiram selfies na praia de Gun, em Guam

"Todo mundo está seguindo sua rotina, mas todos falam sobre a ameaça", disse em uma mensagem Josie Sokala, que vive na aldeia de Mangilao, na costa leste de Guam.
Como outros moradores da ilha, Sokala foi inundada de mensagens de texto de amigos que moram no continente, perguntando como ela está.

"Todo mundo está nervoso, mas eu acho que são nossas famílias lá no continente que estão mais nervosas por nós", disse Sokala.

Mas na madrugada de quinta-feira ela não conseguiu dormir.

Guam é um território dos EUA desde 1898, quando a Espanha o cedeu depois da Guerra Hispano-Americana. Sua população é de aproximadamente 163 mil, comparável à de uma cidade pequena no meio-oeste americano.

A ilha já foi alvo de ameaças da Coreia do Norte, por abrigar uma base de bombardeiros americanos com capacidade nuclear e de ataque ao país recluso. Testes do míssil norte-coreano sugerem que agora a ilha está ao alcance de Pyongyang.

Força Aérea dos EUA via The New York Times
Um B-1B Lancer da Força Aérea dos EUA levanta voo da base aérea em Guam

Guam fica a cerca de 3.300 km a sudeste de Pyongyang, a capital norte-coreana, e a 6.080 km a oeste de Honolulu, no Havaí. Mas é tão embebida da cultura americana quanto qualquer cidade pequena no continente --mesmo que os compradores no Walmart (o maior do mundo) possam olhar para fora e ver a natureza luxuriante de uma ilha do Pacífico.

A maioria dos ilhéus é da etnia chamorro, um grupo indígena que vive na ilha há milhares de anos, e sua cultura orienta todo o modo de vida da população.

A vida em Guam também é profundamente ligada às bases militares e aos soldados estacionados lá. A Base da Força Aérea Andersen e a Base Naval de Guam abrigam cerca de 13 mil militares e suas famílias. Um terço da ilha é propriedade das forças armadas dos EUA.

Na quarta-feira, autoridades de Guam se esforçaram para divulgar declarações pedindo calma, apesar de na véspera o presidente Donald Trump ter prometido desferir "fogo e fúria" contra a Coreia do Norte.

Nancy Borowick/The New York Times
Crianças brincam em trenzinho feito de tambor em região turística de Hagatna, capital de Guam

A igreja tem uma forte influência na ilha, onde a vasta maioria dos moradores é católica, e a Arquidiocese de Agana --a capital de Guam, também conhecida como Hagatna-- aconselhou os moradores a "recorrer a Deus nestes momentos difíceis, em que a paz mundial está ameaçada".

A arquidiocese também pediu que os católicos "rezem para que o Espírito Santo instile nos líderes de nosso país e de todas as nações as virtudes da sabedoria e da compreensão, para promover a paz, e não a guerra".

O governador de Guam, Eddie Baza Calvo, disse que não houve mudança no nível de ameaça sobre a ilha, apesar das palavras duras. Calvo salientou em um comunicado que não há ameaça iminente à segurança dos moradores ou visitantes. Além de ser uma base estratégica, Guam também é um destino turístico e recebeu um número recorde de visitantes em junho deste ano.

"Há muita retórica no ar", disse Calvo em uma entrevista coletiva na quarta-feira. "E é importante levar ao público de Guam a mensagem de que não é o momento para entrar em pânico."

Nancy Borowick/The New York Times
21.jul.2017 - Parada do Dia da Libertação em Guam, que comemora o dia em que os EUA retomaram a ilha dos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial

A congressista de Guam, Madeleine Bordallo, também entrou no debate. Ela chamou as ameaças recentes de ambos os lados de "perigosas" e disse que elas aumentaram a tensão na região. Bordallo comentou que ameaças semelhantes em 2013 levaram à instalação permanente na ilha de um sistema avançado de defesa de mísseis --conhecido como THAAD, sigla em inglês de Defesa Terminal de Área de Alta Altitude-- como elemento de dissuasão.

"O comportamento imprudente de Kim Jong-un não pode ser tolerado", disse ela. "E eu peço fortemente ao presidente que explore todos os meios para reagir pacificamente a isso e evitar uma escalada dessa situação."

Quaisquer que sejam suas dúvidas sobre os que atuam no palco mundial, alguns moradores de Guam parecem confiar mais em seus líderes locais.

"Nosso governador nos garante que essa ameaça não deve ser motivo para pânico, e nós confiamos nele", disse Sokala. "Estamos apenas tentando não pensar muito nisso."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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