'Senhor dos Espiões', ministro italiano assume papel de resolver crise de imigração

Jason Horowitz

Em Roma (Itália)

  • Massimo Berruti/The New York Times

Durante uma visita a Moscou em 1980, Marco Minniti, um jovem funcionário careca e ousado do Partido Comunista da Itália, mortificou seus camaradas ao perguntar a um general do Exército Vermelho por que os soviéticos ocuparam o Afeganistão. O general apontou para o sul em um mapa e explicou que aquela terra distante era importante para a segurança nacional de seu país. 

Agora, décadas depois, é Minniti, o poderoso ministro do Interior da Itália e um veterano determinado de seu aparato de inteligência, quem está olhando para o sul, mas para a África, que ele chama de "espelho da Europa". 

Uma migração em massa proveniente da África, passando pela Líbia e cruzando o Mediterrâneo (possibilitada por traficantes de seres humanos e explorada por políticos populistas) representa uma ameaça existencial ao seu governo de centro-esquerda, sem contar a seu país e continente. 

Para conter o fluxo de imigrantes, assim como uma infiltração potencial de terroristas, Minniti, um ex-comunista de 61 anos, está fazendo uso de sua vasta experiência no governo, seu brio calabrês e os relacionamentos secretos que desenvolveu como "Senhor dos Espiões" da Itália. 

"Digamos que eu sei de muitas coisas", disse Minniti com um sorriso astuto em uma entrevista nesta semana, em seu gabinete em Roma, cercado por estantes repletas de tomos sobre espionagem e fanatismo religioso. 

Segundo Nicola Latorre, um senador italiano e aliado do ministro, Minniti foi o "protagonista do avanço" na semana passada, quando o primeiro-ministro da Líbia, Fayez Serraj, requisitou apoio naval italiano para conter o tráfico humano. 

É um empreendimento arriscado, mas que a Itália busca há anos, desesperada em cortar o fluxo de imigrantes. Seu sucesso ou fracasso agora depende de Minniti, que as pesquisas mostram ser um membro popular de um governo com chances incertas na próxima eleição.

Alguns observadores políticos até mesmo sugerem que Minniti, com sua formação esquerdista e capacidade de agradar os conservadores com sua fala dura sobre segurança, poderia ser um bom candidato a primeiro-ministro. Ela já serviu a cinco governos italianos de centro-esquerda, apesar de ter enfatizado que nunca pediu por um cargo. "Sempre fui escolhido", ele disse. 

"Minniti poderia ser uma opção", disse Marco Damilano, um proeminente jornalista italiano que escreve com frequência sobre ele. 

Minniti rejeita essas conversas. Ele disse estar mais focado em combater o radicalismo islâmico fazendo pactos com imãs locais exigindo que preguem em italiano, construindo novos relacionamentos na África e trabalhando com os líbios para derrotar os traficantes de seres humanos. 

"Os relacionamentos humanos contam muito", disse o velho espião mestre. 

Mais de 95 mil imigrantes chegaram à Itália neste ano, e cerca de 2.000 se afogaram. É uma crise que desafiou quase todas as tentativas de resolvê-la. 

Apesar de uma mistura de apelos e ameaças por Minniti nas reuniões da União Europeia, os países vizinhos têm feito pouco para compartilhar o fardo esmagador da Itália. 

Em particular, as tensões cresceram com o presidente da França, Emmanuel Macron, que tem resistido em aceitar imigrantes e iniciou um processo de paz incerto com a Líbia que, dizem os críticos daqui, deixa a Itália em posição desfavorável e enfraquece suas chances de conter os traficantes, ao dar legitimidade a um rival de Serraj. 

Minniti disse que concordava em princípio com Macron na tentativa de se chegar à paz na Líbia, mas que uma meta de 2018 seria tarde demais para ele. "Não posso esperar", ele disse. 

Ele argumenta que esmagar as redes de tráfico humano e investir nos prefeitos líbios são as melhores formas de estabilizar a fronteira sul porosa da Líbia, que permite a passagem dos imigrantes dos países africanos tradicionalmente "francófonos". 

Enquanto Minniti mexia de forma impaciente em um relógio Casio prateado, representantes de organizações humanitárias se reuniam com funcionários no ministério para tentar chegar a um novo código de conduta para resgate dos imigrantes perto de águas líbias. 

Mais de 40% dos imigrantes no mar atualmente são resgatados por navios de ajuda particulares, e Minniti quer assegurar que esses navios não estejam em conluio com os traficantes, uma acusação popular entre políticos de direita, grupos nacionalistas brancos e um promotor siciliano. 

Ele também insiste que é apropriado que a polícia italiana possa subir a bordo desses navios, como fez na quarta-feira. 

"Meu dever é ficar perto das pessoas que estão com medo, tranquilizá-las e libertá-las do medo", disse Minniti, argumentando que a esquerda não pode mais ignorar ou desprezar as pessoas assustadas com a imigração ou com o terrorismo. 

"Eu acho que o medo é o elemento crucial dos próximos 10 anos na democracia", ele disse. "Na Itália e em todo o mundo." 

Essa conversa de lei e ordem tem sido demais para alguns dos antigos companheiros de Minniti na esquerda. (Um jornal de inclinação de esquerda sugeriu que Minniti acha que é o Batman.) Mas o ministro intenso e abstêmio disse que servir ao Estado está em seu sangue. 

Seu pai foi um de nove irmãos a fazer carreira nas forças armadas. No colégio na Calábria, ele desenvolveu um amor pelo poeta antigo Cátulo. 

Mas sua verdadeira paixão era pelos céus. Ele esperava seguir a tradição da família e se tornar um piloto da força aérea. Em vez disso, sua mãe bateu o pé, dizendo que a família já tinha contribuído demais. 

Minniti disse que não aceito bem a proibição. (As prateleiras de seu gabinete ainda exibem os modelos dos jatos que ele esperava pilotar.) 

Em um ato de rebelião, ele estudou filosofia na Universidade de Messina. Ele escreveu sua tese sobre as "Geórgicas" de Virgílio, e para ajudar a entender a exploração dos escravos nos campos da Roma antiga, ele disse, "eu usei Marx". 

Esses estudos ajudaram a aproximá-lo do Partido Comunista e, quando ele se formou, ele disse, seu pai mostrou quão orgulhoso estava de seu filho filósofo comunista "ao não comparecer". 

Mas essa oposição apenas alimentou a convicção de Minniti enquanto buscava defender os valores democráticos do país em áreas perigosas da Calábria, governadas por uma das máfias mais temidas da Itália, a 'Ndrangheta. 

Em 1980, Minniti, um entusiasta de mergulho, estava provando um traje de mergulho quando recebeu a notícia de que um amigo no Partido Comunista tinha sido morto a tiros por mafiosos. Coube a ele dar a notícia aos pais de seu companheiro. 

Nos anos 80, ele começou a trabalhar estreitamente com o astro em ascensão do Partido Comunista, Massimo D'Alema. No início dos anos 90, Minniti, na época casado com uma musicista, Mariangela, com quem tem duas filhas, se mudou com D'Alema para formar um novo partido político. 

Quando D'Alema se tornou primeiro-ministro em 1998, ele levou Minniti como seu braço direito. O jovem assessor trabalhava em uma mesa antes usada por Benito Mussolini, e passado menos de um mês exercendo seu cargo, ele atendeu a um telefonema seguro em seu quarto. 

"Eu estava convencido de que nunca tocaria", ele disse. 

As autoridades italianas tinham detido Abdullah Ocalan, o líder do Partido dos Trabalhadores do Curdistão e considerado terrorista por muitos, ao entrar na Itália. Minniti ordenou sua prisão, dando início um curso relâmpago de operações internacionais de inteligência e espionagem. 

A experiência, seguida quase imediatamente por seu papel crucial na intervenção italiana em Kosovo, lhe deu um gosto pelo trabalho de segurança. 

Em 1999, ele fez sua primeira visita à Líbia, uma antiga colônia italiana, e começou a aprender sobre seus díspares centros de poder. Hoje ele recita os nomes das cidades líbias onde os traficantes atuam, lugares que ele diz conhecer melhor do que sua Calábria natal. 

Mas ainda não dá para saber se essa experiência profunda pode resolver a crise interminável dos imigrantes na Itália. Já em um acordo inicial com os líbios que Minniti ajudou a intermediar, nem tudo saiu de acordo com o plano. 

No início do planejamento, um líder líbio concorrente, o general Khalifa Hifter, que foi incluído por Macron nas negociações de paz, ameaçou bombardear os navios da Marinha italiana. O embaixador italiano em Trípoli respondeu que essas ameaças eram inúteis e que a missão italiana prosseguiria. 

O ministério de Minniti, ávido em mostrar que sua estratégia está funcionando, se agarra à queda no número de imigrantes chegando à Itália em comparação ao ano passado. 

O próprio ministro mostra que o ceticismo é grande e disse que quando apresentou o esboço do acordo com a Líbia, que carecia de um interlocutor empoderado com o qual ser negociado, os críticos "riram na minha cara". 

"Eles disseram: 'Você não entende o elemento mais básico: a Líbia é instável'." 

Mas o que ele entende, ele disse, é que essa instabilidade significa que qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento, e que qualquer acordo pode ruir. "Mas temos que construir um caminho."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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