Rússia quer inovação, mas prende seus inovadores

Andrew Higgins

Em Akademgorodok (Rússia)

  • James Hill/The New York Times

    Incubadora de empresa de tecnologia da informação em Akademgorodok, na Rússia

    Incubadora de empresa de tecnologia da informação em Akademgorodok, na Rússia

Dmitri Trubitsyn é um jovem físico-empreendedor com reputação de patriota, visto nesta parte da Sibéria como um exemplo de talento, dedicação e empreendedorismo que o presidente Vladimir Putin saudou como sendo vitais para o futuro da saúde econômica da Rússia.

No entanto, Trubitsyn pode ser condenado a até oito anos de prisão após a batida que fizeram recentemente em sua casa e escritório aqui em Akademgorodok, um santuário da pesquisa científica da era soviética que deveria ser uma vitrine de como a Rússia de Putin pode aproveitar sua abundância de talentos para criar uma economia moderna.

Na quinta-feira, um juiz estendeu a prisão domiciliar de Trubitsyn pelo menos até outubro, que o impede de deixar seu apartamento e de se comunicar com qualquer pessoa fora de seu círculo familiar imediato. Trubitstyn, 36, cuja empresa, Tion, fabrica sistemas de purificação de ar de alta tecnologia para casas e hospitais, é acusado de colocar as vidas de pacientes de hospitais em risco, e de tentar aumentar seus lucros ao atualizar os purificadores de forma que eles consumam menos eletricidade.

O mais grave é que ele é acusado de fazer isso sem ter primeiro certificado as mudanças através das agências reguladoras do Estado.

Esse é um caso que evidencia as tensões entre as ambições de Putin para um setor privado dinâmico e sua determinação em aumentar os poderes do aparato de segurança da Rússia. Usando uma lei de 2014 que foi criada para proteger os russos de medicamentos falsificados, investigadores do Serviço Federal de Segurança, a KGB pós-soviética, e outras agências acusaram Trubitsyn de liderar uma conspiração criminosa por, basicamente, inovar de forma excessivamente livre e rápida.

James Hill/The New York Times
Mikhail Amelkin, da startup Tion, em Akademgorodok

A situação revoltou colegas cientistas, aspirantes a empreendedores e outros em Akademgorodok, um povoado de livre pensamento com avenidas largas e caminhos arborizados construído em torno de 35 institutos de pesquisa da era soviética, perto da cidade siberiana de Novosibirsk. Para eles, o governo russo está sabotando sua própria meta econômica declarada --promover empresas que aproveitem o potencial intelectual russo em vez de simplesmente sugar petróleo, gás e minérios do solo.

Mais de 5 mil pessoas assinaram uma petição pedindo a Putin que pare "esse vergonhoso exemplo de pressão violenta sobre um negócio dentro da lei". Trubitsyn e sua empresa, segundo a petição, "são, sem nenhum exagero, o orgulho de Akademgorodok. Eles são um símbolo forte de uma Rússia próspera na qual negócios tecnológicos de verdade podem chegar a padrões internacionais".

Aleksei Okunev, da Universidade Estatal de Novosibirsk em Akademgorodok, que trabalhou de perto com a empresa de Trubitsyn, disse que a situação era "incompreensível". E acrescentou: "Temos pouquíssimas histórias de sucesso na Rússia, e isso explica por quê".

Putin não respondeu, mas seu ombudsman de negócios, Boris Titov, emitiu uma declaração solidária que chamava Trubitsyn de "um jovem e vigoroso representante do setor de inovação, cujo desenvolvimento é muito necessário para uma Rússia moderna".

Mas Titov deu declarações parecidas antes, com poucos resultados. Apesar de haver um apoio estatal oficial à inovação no governo Putin, o poder crescente dos serviços  de segurança da Rússia e a corrupção oficial desenfreada muitas vezes levam as coisas para a direção contrária.

O primeiro sinal da tormenta que se aproximava de Akademgorodok veio no início de 2016, quando Trubitsyn e seus colegas começaram a ouvir que seus concorrentes estavam contando aos hospitais que os purificadores de ar da Tion eram perigosos e estavam sendo investigados pela Roszdravnadzor, uma agência estatal que regula os equipamentos médicos.

Na época a TV estatal exibiu uma reportagem acusando a empresa de colocar em risco a saúde de pacientes de hospitais. Os hospitais estatais começaram a retirar os aparelhos da Tion.

"Durante anos fomos elogiados como sendo uma história de sucesso, e então todas essas coisas estranhas começaram a acontecer de repente", lembra Mikhail Amelkin, diretor técnico da Tion.

Amelkin disse que a empresa foi procurada pela agência regulatória e reconheceu que havia mudado seu design e removeu um dispositivo extra de filtragem que, segundo testes em laboratórios, era redundante e desperdiçava energia. A empresa corrigiu então seus documentos de registro e pensou que a questão estava encerrada, disse Amelkin --até que policias armados apareceram em junho para prender Trubitsyn e buscar provas do que documentos judiciais descreveram posteriormente como uma "conspiração" para produzir suprimentos médicos falsificados. (Nenhum co-conspirador foi citado, mas uma acusação de conspiração permite que promotores pleiteiem penas mais longas.)

James Hill/The New York Times
studantes têm aula de design 3D em curso de verão

Natalia Pinus, a representante eleita de Akademgorodok no conselho regional, é uma das muitas locais que acreditam que os problemas de Trubitsyn venham de uma rivalidade nos negócios, com operadores inescrupulosos que conseguem manipular agências policiais para eliminar concorrentes.

"A questão não é uma única empresa", ela disse, mas sim "se você pode fazer negócios de forma honesta na Rússia ou se isso é impossível".

Amelkin, diretor técnico da Tion, disse que ele e sua equipe não conseguiram descobrir quem ou o quê estava por trás da investigação.

"Se você tentar descobrir quem é responsável por qualquer coisa nesse sistema, só encontrará um eco na caverna", ele disse, acrescentando que o Estado russo "não é um organismo único com um cérebro", mas sim uma massa tentacular de feudos diferentes e muitas vezes concorrentes.

Putin tem sido um defensor enérgico do fim do longo histórico da Rússia como uma perdedora nata na economia em todas as esferas fora o petróleo e o gás, saudando repetidamente a capacidade técnica e científica da Rússia como uma vantagem sobre a qual ela pode construir uma economia vibrante e diversificada.

No mês passado, em uma reunião de seu Conselho de Desenvolvimento Estratégico, Putin voltou a dar sermões a oficiais sobre a necessidade de se mover a economia oscilante da Rússia --hoje menor que a da Itália e de 11 outros países-- para além de sua dependência dos recursos naturais. "Precisamos de uma grande inovação, e precisamos garanti-la", ele disse.

Contudo, os problemas de Trubitsyn podem ajudar a explicar por que uma inovação como essa se mostrou tão difícil de conquistar: o Estado russo, que Putin tornou o principal veículo para seus planos de renascimento da nação, muitas vezes reprime o crescimento.

Uma burocracia fortalecida por uma erosão constante da separação democrática de poderes pode muitas vezes sufocar novas ideias. Projetos grandiosos dirigidos pelo Estado para promover a inovação --como o Skolkovo, um parque tecnológico na área de Moscou criado por decreto do Kremlin como a resposta da Rússia ao Vale do Silício-- fracassaram em sua maior parte.

James Hill/The New York Times
Laboratório da companhia de nanotecnologia OCSiAl

A empresa de Trubitsyn começou em um desses parques financiados pelo Estado, dentre a dezena de zonas do tipo criadas em toda a Rússia depois que Putin visitou o hub de tecnologia da Índia em Bangalore, em 2005. Putin ficou tão empolgado com o que viu em Bangalore, que parou em Akademgorodok no caminho de volta para Moscou para conversar com cientistas e autoridades daqui sobre como a Rússia poderia copiar o exemplo da Índia.

Dmitri Verkhoved, um matemático que foi indicado para dirigir a operação, disse que a Tion foi "uma de nossas primeiras startups", inaugurada em 2006, e provou que empresas russas inovadoras podiam competir no mercado internacional.

Ele disse ainda que o objetivo era "mostrar que você pode fazer negócios e fazer dinheiro aqui na Rússia e não precisa ir para fora". Como uma das poucas empresas russas fora do setor de energia que exporta para a China, a Tion cresceu continuamente chegando a empregar 250 pessoas em Akademgorodok, em Moscou, na China e no Cazaquistão até 2017. Ela recebeu uma série de homenagens de órgãos ligados ao governo, tendo inclusive sido nomeada Empresa Inovadora do Ano por um fórum siberiano em 2012.

(Verkhoved está envolvido em um processo à parte e foi demitido em janeiro do cargo de diretor do parque tecnológico de Akademgorodok.)

Irina Travina, a fundadora de uma startup de softwares e diretora da associação local de negócios de tecnologia, disse que Akademgorodok era "o melhor lugar da Rússia", com "escolas excepcionais, baixos índices de criminalidade e uma alta concentração de pessoas muito inteligentes".

Mas ela disse que a prisão de Trubitsyn havia sido um grande baque para a sensação de segurança da comunidade.

"Teoricamente, qualquer um pode cair nessa situação", disse Travina, elogiando Trubitsyn como um patriota porque ele não havia se mudado para fora do país e havia investido tempo e dinheiro em educação científica para crianças locais. "Pode acontecer com qualquer um", ela acrescentou. "Todos têm algum tipo de esqueleto no armário. Talvez nada grande, mas eles sempre conseguem encontrar algum motivo para colocar você na cadeia".

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