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"Frida Sofia": a vítima que nunca existiu no terremoto do México

Equipes de resgate tentaram retirar "menina de 12 anos" localizada com vida sob os escombros da escola Enrique Rebsamen - Edgard Garrido/Reuters
Equipes de resgate tentaram retirar 'menina de 12 anos' localizada com vida sob os escombros da escola Enrique Rebsamen Imagem: Edgard Garrido/Reuters

Megan Specia

29/09/2017 00h01

Seu drama chamou a atenção do público mexicano: uma garota de 12 anos, presa nos escombros de uma escola primária que desabou, sendo procurada pelos socorristas.

As câmeras de TV não desgrudavam das frenéticas operações de resgate depois que um terremoto devastador derrubou a escola no dia 19 de setembro. Pedacinhos de informações sobre a criança, que alguns passaram a identificar como "Frida Sofia", começavam a pingar. Alguns relatavam que ela estava junto com cinco outras crianças, outros que ela havia falado com os socorristas e havia mexido os dedos, e outros ainda que ela havia recebido água.

Mas, um dia depois, o mundo descobriu a verdade: Frida Sofia não existia. Segundo oficiais da Marinha mexicana, não haveria nenhuma criança viva no prédio.

Então como pôde uma nação inteira, inclusive socorristas, algumas autoridades e veículos de informação, ter se enganado tanto?

Como começou a história de Frida Sofia

A escola Enrique Rébsamen desabou naquela terça-feira quando um terremoto de magnitude 7,1 atingiu a Cidade do México. As pessoas correram para tirar as crianças feridas da escola, mas logo começaram a perder as esperanças.

O Exército, a polícia e voluntários locais já estavam escavando há mais de 24 horas quando anoiteceu no dia seguinte. Foi então que começaram a surgir relatos de uma garota que estaria viva entre os escombros, uma história de esperança da qual um país devastado tanto precisava.

Não está claro quem foi o primeiro a fazer essa afirmação, mas a Televisa, o maior canal de notícias do país, foi a primeira a dar a notícia. A história foi relatada por uma repórter, Danielle Dithurbide, que disse que a informação havia vindo de líderes das equipes de resgate. Ela foi uma das únicas repórteres que tiveram autorização da polícia para entrar no prédio naquele momento.

Em sua reportagem, Dithurbide disse que os socorristas haviam lhe dito que uma garota de 12 anos estava soterrada, e que ela havia sido encontrada ao usarem um equipamento térmico. Ela contou aos espectadores que equipes de resgate haviam feito contato com a criança, e que seu nome era "Frida Sofia". Os socorristas não quiseram revelar seu sobrenome, de acordo com a repórter.

Mais tarde naquela noite, Dithurbide entrevistou socorristas na frente das câmeras, que falaram de uma criança soterrada viva dentro do prédio. Em uma entrevista, um homem que se identificou somente como Artemio e "eletricista e socorrista", lhe disse que havia ouvido a voz de uma menina. "Sim, uma voz muito fraca de menina, aparentemente chamada Sofi", ele disse.

"Eu perguntei, 'Qual é seu nome?'", disse o homem. "Ela falou, 'Sofi, Sofi'".

Nas primeiras horas da última quinta-feira, a The Associated Press citou outro socorrista com uma história parecida. O "The New York Times", entre outros veículos de notícias, publicou essa história.

"O socorrista Raul Rodrigo Hernandez Ayala saiu do local na quarta-feira à noite e disse que 'a menina está viva, tem sinais vitais'", relatou a agência de notícias, "e que cinco outras crianças haviam sido localizadas vivas. 'Tem um porão onde eles encontraram crianças'".

De acordo com a notícia, "Trabalhadores de capacete viram a menina soterrada pelos escombros no início da quarta-feira e gritaram para que ela mexesse a mão se estivesse ouvindo.

Ela mexeu, e um cão de resgate foi enviado para confirmar que ela estava viva. Um socorrista contou à mídia local que havia falado com a menina, que disse que se chamava Frida". (O Exército também tinha um cão de busca e resgate no local chamado Frida, o que pode ter contribuído para a confusão.)

A história foi aumentando a partir daí, quando outros veículos de notícias começaram a repassar a informação. A hashtag #FridaSofia logo foi parar nos trending topics do Twitter.

As autoridades confirmaram os relatos iniciais

A partir da manhã de quinta-feira, parecia que a maioria dos socorristas estava trabalhando presumindo que havia uma menina viva soterrada nos escombros. Imagens feitas por um jornalistas no local mostravam um socorrista gritando para um colega e perguntando onde ele deveria escavar, e lhe responderam que ele devia focar em uma área.

A maior parte dos jornalistas não podia se aproximar do local. Eles contavam com os socorristas, mais do que com as autoridades, para obter informações. Muitos desses trabalhadores estavam no local havia horas.

Então as autoridades começaram a repetir partes da mesma história.

Na manhã de quinta-feira, um oficial da Marinha, o almirante José Luis Vergara, disse à Televisa que parecia haver uma menina dentro da escola, mas que eles não estavam conseguindo determinar sua localização. "Tem uma menina viva lá dentro, temos quase certeza disso, mas ainda não sabemos como chegar até ela", disse Vergara.

Então a Marinha voltou atrás. O Secretariado Naval disse em um comunicado que 11 crianças haviam sido resgatadas da escola, e que os corpos de 19 crianças e seis adultos haviam sido recuperados. Mas não haveria mais nenhum aluno preso, segundo o comunicado. O corpo de um sétimo adulto foi encontrado no domingo.

"Queremos enfatizar que não temos conhecimento do relato que surgiu com o nome de uma menina", disse o sub-secretário da Marinha Ángel Enrique Sarmiento, na última quinta-feira. "Nunca tivemos qualquer conhecimento sobre esse relato, e não acreditamos—nós temos certeza—de que não era verdade".

Sarmiento disse que uma câmera térmica que desceram para dentro dos escombros da escola havia detectado sangue, mas que a única pessoa que ainda constava como desaparecida era um funcionário da escola.

Pelo menos um corpo foi removido dos escombros na manhã da quinta-feira passada, depois que a história sobre Frida Sofia surgiu—o de uma mulher de 58 anos—e que talvez tenham sido os dedos dela que os socorristas viram.

Vergara pediu desculpas em uma entrevista à TV. "A informação sobre a menina foi espalhada por membros da Marinha com base em relatórios técnicos e o testemunho de socorristas", ele disse.

A confusão do trauma coletivo

Desde o início havia dúvidas sobre Frida Sofia. Alguns veículos de notícias relataram que seu nome não constava nos registros da escola. Na última quinta-feira, o Ministério da Educação emitiu um apelo para as famílias de alunos que pudessem estar desaparecidos, e disse que fazia 12 horas que o ministério não era contatado.

A Televisa disse mais tarde que sua reportagem havia se baseado em entrevistas com socorristas e fontes oficiais, e exigiu uma explicação da Marinha sobre por que ela havia voltado atrás em declarações anteriores.

"Nossa meta sempre foi evitar rumores e a disseminação de informações falsas", disse a Televisa em um comunicado. "Foi por isso que procuramos a Marinha, que é o mais alto comando de coordenação dessas missões de resgate".

Em uma mensagem por vídeo divulgada na sexta-feira, Dithurbide, a repórter, disse que as autoridades haviam limitado seu acesso e que ela havia feito o possível para verificar as informações junto aos socorristas.

Alejandro Reyes Reyes, um professor de psicologia na Universidade Santo Tomás, no Chile, especializado em traumas causados por desastres naturais, disse que o efeito do terremoto sobre a comunidade poderia ajudar a explicar a disseminação da informação errada.

"Como resultado de nossa ansiedade e expectativas, nós interpretamos a informação fornecida pelos socorristas de uma forma distorcida", disse Reyes por e-mail. "Já foi provado que nossa percepção e atenção são seletivas, ou seja, que elas são restringidas por nossas experiências e elementos sócio-afetivos, tais como o desejo de encontrar uma pessoa que desapareceu no desastre ou de encontrar um ente querido vivo em meio aos escombros de um prédio que desabou".

Reyes disse que isso poderia levar as pessoas a "transformarem a informação" e às vezes a espalhar informações erradas.

A história de "Frida Sofia" lembra um caso antigo desse tipo de confusão coletiva.

O jornal espanhol "El País" noticiou um caso similar em 1985, depois de um terremoto devastador que atingiu a Cidade do México exatamente 32 anos antes do tremor mais recente. Socorristas passaram dias escavando em busca de um menino de 9 anos chamado Monchito, para depois descobrirem que ele não existia.

Na época, um psicólogo disse que o episódio era resultado de uma "psicose coletiva".

* Com reportagem de Ainara Tiefenthäler

Tradutor: UOL