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Análise: Problemas de Merkel podem ser de toda a Europa

Refugiados são escoltados para campo de registro, nos arredores de Dobova, na Eslovênia - SERGEY PONOMAREV/NYT
Refugiados são escoltados para campo de registro, nos arredores de Dobova, na Eslovênia Imagem: SERGEY PONOMAREV/NYT

Steven Erlanger

Em Bruxelas (Bélgica)

23/11/2017 00h02

A União Europeia há muito lida com o desafio de ser liderada por uma Alemanha dominante. Mas de repente ela se vê diante de uma compreensão diferente, a de que a única coisa pior do que uma Alemanha forte pode ser uma Alemanha fraca.

A Alemanha está longe de entrar em colapso, mas o fracasso da chanceler Angela Merkel em formar uma coalizão de governo representa uma profunda crise de liderança para a Europa e o potencial de um período prolongado de incerteza, no momento em que menos pode lidar com uma situação dessas.

Decisões sérias sobre a zona do euro, imigração, asilo, defesa e outras questões, sem contar a negociação para a saída do Reino Unido do bloco, já tinham sido adiadas para depois das eleições francesa e alemã deste ano.

Agora serão adiadas ainda mais, aguardando pela solução pela Alemanha de seu novo dilema político.

O senso predominante de paralisia reforça a estatura que Merkel conquistou em 12 anos como chanceler. Ela definiu a resposta da Europa para a crise da dívida do euro. Ao longo do caminho, ela suportou as críticas à arrogância alemã.

Mas também conquistou respeito por sua habilidade de conseguir concessões e acordos. Ela foi central na aplicação de duras sanções contra a Rússia devido à Ucrânia, obteve elogios na Europa por enfrentar tanto o presidente Donald Trump quanto o presidente Vladimir Putin da Rússia.

Resumindo, Merkel tem se mostrado uma líder indispensável na Europa. Qualquer enfraquecimento de sua posição política em casa, ou preocupação doméstica, representa um golpe sério contra um bloco ainda lutando para salvar seu futuro.

A dor provavelmente será mais sentida pelo ambicioso presidente francês, Emmanuel Macron, que estabeleceu uma agenda impressionante para reforma europeia. Os planos de Macron sempre dependeram do apoio alemão.

Macron tem audácia, mas é novo demais e visto com ceticismo demais pelos demais líderes, incluindo os da Europa Central, para poder liderar de fato a Europa, se é que esta pode de fato ser liderada.

"Mesmo se enfraquecida domesticamente, Merkel conta com grande autoridade fora da Alemanha, e um estilo que se presta muito bem a uma construção de coalizão", disse Mark Leonard, o diretor do Conselho Europeu de Relações Exteriores. "Ela tem a habilidade de unir os outros países para uma ação essencial. E Macron não é capaz de fazer isso sozinho."

Com Merkel enfraquecida e a Alemanha enfrentando a possibilidade de um governo interino antes que novas eleições sejam realizadas no ano que vem, a reforma da União Europeia enfrentará outro adiamento prolongado. Igualmente importante, países europeus importantes (Holanda, França e Alemanha) evitaram por margem estreita o avanço das forças populistas nas eleições deste ano. A Itália e agora a Alemanha, de novo, poderão enfrentar uma repetição do teste no início do ano que vem.

Macron tem sido incisivo de que o bloco tem um tempo limitado para corrigir as coisas, sob risco de enfrentar um resultado pior nas próximas eleições.

"A situação está muito ruim para Macron", disse Leonard. "Ele tem essa janela de um ano antes das eleições europeias, enquanto ainda tem poder para tentar conseguir que as coisas sejam feitas."

Macron depositou seu futuro político, assim como o da Europa, na esperança de que um forte motor franco-alemão impulsione as reformas. Essa perspectiva parece mais em dúvida sob quase qualquer cenário.

"Ou Merkel sobrevive em uma posição mais fraca e menos capaz de conseguir que as coisas sejam feitas, ou ela partirá, o que resultaria em uma grande crise para a agenda dele, porque a Europa está fragmentada demais e ela é quem possui a habilidade de formar um consenso", disse Leonard.

Na cúpula dos líderes da UE no mês que vem, Macron espera por um importante acordo a respeito das linhas gerais da reforma da união monetária.

Nunca esteve claro que Merkel apoiaria todas ou mesmo algumas dessas propostas para uma união fiscal e política mais profunda, especialmente se estiver em uma nova coalizão com o Partido Democrático Liberal. Mas agora levará algum tempo até que a Alemanha esteja pronta até mesmo para debatê-las.

"A Alemanha permanece bastantes estável e um governo interino poderá tomar decisões", disse Christoph von Marschall, do jornal "Der Tagesspiegel". "Mas o que esperávamos, uma nova dinâmica porque Macron finalmente teria uma parceira para revitalizar a locomotiva europeia ou o dupla franco-alemã, isso foi adiado e trata-se de algo sério."

Josef Janning, o chefe do escritório em Berlim do Conselho Europeu de Relações Exteriores, disse que "Macron corre o risco de perder o embalo de sua presidência".

Suas controversas reformas domésticas eram justificadas em casa porque supostamente produziriam confiança na Alemanha e mais dinamismo na Europa. "Mas essa narrativa está se desfazendo porque Berlim não está respondendo", disse Janning.

Os defensores da saída do Reino Unido da UE, conhecida como Brexit, consideram os apuros de Merkel como contribuindo para sua causa, pois "a fraqueza política do Estado mais forte da UE torna nossa posição de negociação mais forte", disse Jacob Rees-Mogg, um membro conservador do Parlamento.

Mas o consenso europeu a respeito das negociações da Brexit permanece inalterado, e é mais provável que o Reino Unido sofra com uma Merkel enfraquecida, menos capaz de argumentar junto aos seus colegas europeus que todos se beneficiariam com concessões visando um bom relacionamento com Londres.

"Não acho que faça muita diferença para a Brexit a curto prazo, pois as posições dos vários partidos em Berlim são todas basicamente linhas-duras nas questões", disse Charles Grant, diretor do Centro para a Reforma Europeia.

"Mas poderia importar a longo prazo, pois se as negociações emperrarem, Merkel e Macron poderiam intervir para se chegar a um acordo", ele disse. "Isso pode não acontecer caso Merkel saia de cena, pois a UE se acostumou com ela repreendendo as pessoas a fazerem o que precisa ser feito."

O predomínio da Alemanha na Europa continuaria, disse Grant. "Mas a credibilidade que ela construiu ao longo de 12 anos, como uma pessoa respeitada por todos, isso poderia desaparecer."

Tradutor: George El Khouri Andolfato