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Evitar a prisão e até a morte: os motivos que fazem ditadores resistirem à renúncia

25.mai.1996 - Hosni Mubarak (dir.), então presidente do Egito, recebe visita de Muammar Gaddafi, líder da Líbia, no Cairo; os dois ditadores caíram durante a Primavera Árabe, em 2011 - AP Photo/Enric Marti
25.mai.1996 - Hosni Mubarak (dir.), então presidente do Egito, recebe visita de Muammar Gaddafi, líder da Líbia, no Cairo; os dois ditadores caíram durante a Primavera Árabe, em 2011 Imagem: AP Photo/Enric Marti

Megan Specia

24/11/2017 00h02

Depois que Robert Mugabe, o ditador do Zimbábue que deteve o poder por quase quatro décadas, anunciou sua renúncia esta semana, logo começaram a surgir dúvidas sobre o que seria do herói de guerra que virou presidente. 

A História mostra que a vida após o poder não é algo simples para muitos autocratas, possivelmente complicando os esforços para que eles renunciem. 

Seja para evitar a Justiça, manter a fortuna obtida através da corrupção ou, em alguns casos, evitar a morte nas mãos de adversários, muitos líderes autoritários se agarram a seus cargos. Eis alguns exemplos de figuras que perderam o poder e do que aconteceu com elas depois.

26.set.2013 - O ex-presidente da Libéria Charles Taylor é fotografado no Tribunal Especial para Serra Leoa, nesta quinta-feira (26). Ele foi condenado a 50 anos de prisão por crimes contra a humanidade. O juiz disse ainda que Taylor não demonstrou remorso "sincero" pelos crimes cometidos durante a guerra civil em Serra Leoa, que durou de 1991 até 2002 - Koen van Weel/Reuters - Koen van Weel/Reuters
Imagem: Koen van Weel/Reuters

Charles G. Taylor, Libéria

Charles G. Taylor é um exemplo de como pode ser difícil para um líder autoritário se aposentar em paz. Ex-chefe de milícia que se tornou presidente da Libéria, Taylor liderou o país entre 1997 e 2003. No final ele renunciou depois que líderes internacionais intervieram -e prometeram asilo- durante negociações de paz entre o governo e facções rebeldes, em uma tentativa de encerrar a guerra da Libéria. 

“A História será generosa comigo”, disse Taylor durante sua renúncia, antes de ser escoltado para fora do país pelo presidente de Gana. Taylor deixou a Libéria e foi para a Nigéria, onde recebeu uma oferta de asilo. “Aceitei este papel como um bode expiatório.” 

Mas as coisas não saíram como Taylor esperava. 

Durante algum tempo, ele viveu em exílio na Nigéria junto com dezenas de parentes, financiando seu estilo de vida com dinheiro supostamente roubado dos cofres liberianos. Mas foi crescendo a pressão para que ele fosse preso.

Taylor acabou sendo julgado em um tribunal internacional por crimes de guerra, pelo papel na guerra civil da vizinha Serra Leoa, assassinato, escravidão sexual e uso de crianças-soldado.  

Taylor foi condenado a 50 anos de prisão. Foi a primeira vez desde os julgamentos de Nuremberg que um ex-chefe de Estado acabou condenado por um tribunal internacional. Ele cumpre pena em uma penitenciária no Reino Unido. 

6.out.2016 - O ex-presidente do Egito Hosni Mubarak em janela de hospital no Cairo - REUTERS/Mohamed Abd El Ghany - REUTERS/Mohamed Abd El Ghany
Imagem: REUTERS/Mohamed Abd El Ghany

Hosni Mubarak, Egito

Hosni Mubarak é mais um exemplo de líder que deteve o poder por anos, renunciou e acabou indo a julgamento. 

Mubarak foi presidente do Egito durante 29 anos, mas enfrentou revoltas populares durante a Primavera Árabe de 2011. Após somente 18 dias de protestos maciços nos quais milhares de pessoas se reuniram diariamente na Praça Tahrir, no Cairo, Mubarak renunciou em fevereiro de 2011. 

Somente dois meses depois, o governo militar ao qual ele havia entregue o poder o prendeu.  A nação exigia que ele fosse responsabilizado por violações de direitos humanos e corrupção cometidas durante suas décadas de governo. 

Mubarak foi a julgamento por uma série de acusações, às vezes levado até o tribunal em uma maca de hospital. Ele passou boa parte dos seis anos seguintes em um limbo jurídico, que resultou em sua condenação por uma acusação de corrupção. Depois desses seis anos em custódia -alguns em um hospital e outros na famosa prisão egípcia de Tora- ele foi libertado este ano e escoltado por guardas armados até sua mansão, no bairro de Heliópolis, no Cairo. 

Seu julgamento costuma ser citado como um dos motivos pelos quais o presidente Bashar al-Assad da Síria, que enfrentou uma revolta popular durante a Primavera Árabe que descambou para uma prolongada guerra civil, se recusou a renunciar. 

10.abr.2011 - Ditador líbio Muammar Gaddafi nas ruas de Tripoli - REUTERS/Zohra Bensemra - REUTERS/Zohra Bensemra
Imagem: REUTERS/Zohra Bensemra

Muammar Gaddafi, Líbia

Muammar Gaddafi ensinou outra lição: os riscos de se segurar por tempo demais. Durante 42 anos, ele governou a Líbia. Então veio a Primavera Árabe. 

No governo de Gaddafi, as forças de segurança líbias reprimiram com violência manifestantes anti-governo que se reuniam nas ruas de Benghazi, a segunda maior cidade da Líbia. O levante popular em seu país logo se espalhou, e quando Gaddafi se recusou a sair, os protestos viraram uma guerra civil de grande escala que acabou atraindo a intervenção internacional. No começo de 2011, ele jurou que morreria como mártir lutando para continuar tendo o controle da Líbia. 

“Lutarei até a última gota de meu sangue”, ele disse ao país em um discurso pela televisão. 

O ditador continuou resistindo mesmo quando ficou claro que ele não manteria seu poder sobre o país, quando rebeldes invadiram seu complexo e assumiram controle total de Trípoli em agosto de 2011. 

Poucos meses depois, em outubro de 2011, Gaddafi morreu nas mãos de grupos rebeldes enquanto tentava fugir. 

10.jul.2014 - Joseph Kabila, presidente da República Democrática do Congo desde 2001 - Eric Feferberg/AFP - Eric Feferberg/AFP
Imagem: Eric Feferberg/AFP

Joseph Kabila, República Democrática do Congo

Joseph Kabila, presidente da República Democrática do Congo, continua agarrado ao poder. Ele deveria ter deixado o cargo em dezembro, no final de seu segundo mandato, como manda a constituição. Mas ele se recusou, dando início a uma longa crise política e econômica em seu país. 

A decisão de se agarrar à presidência pode ter menos a ver com seu desejo de liderar o país do que com seus temores em relação à sua segurança e sua fortuna. Kabila ascendeu ao poder pela primeira vez em 2001, depois que seu pai, Laurent-Désiré Kabila, foi assassinado. 

Desde então ele tem sido acusado de acumular fortuna às custas do Estado. Investigadores e alguns nomes do governo dizem que Kabila roubou milhões de dólares em bens públicos, e que entende que se deixar seu cargo, ele pode ficar vulnerável a acusações de corrupção e violações de direitos humanos e à apreensão de sua fortuna desviada. As eleições foram adiadas para dezembro de 2018, e não se sabe se elas de fato acontecerão.