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Pedófilos afegãos têm passe livre de militares americanos, segundo relatório

Kirsten Luce/The New York Times
O cabo Gregory Buckley Jr., um fuzileiro-naval dos EUA, foi morto em um posto de controle onde estava estacionado com um famoso comandante afegão que tinha um séquito de jovens escravos sexuais Imagem: Kirsten Luce/The New York Times
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Rod Nordland

25/01/2018 00h01

Em 5.753 ocasiões, entre 2010 e 2016, militares dos EUA relataram acusações de “flagrantes abusos aos direitos humanos” cometidos por militares afegãos, inclusive muitos exemplos de abusos sexuais contra crianças. Se for verdade, a lei americana exige que a ajuda militar à unidade infratora seja cortada.

Isso nunca aconteceu.

Foi uma das descobertas de uma investigação de abusos sexuais contra crianças pelas Forças de Segurança do Afeganistão e a suposta indiferença dos militares americanos ao problema, segundo um relatório divulgado na segunda-feira (22) pelo Inspetor Geral para Reconstrução do Afeganistão (Sigar na sigla em inglês).

O relatório, encomendado pelo governo de Barack Obama, foi considerado tão explosivo que foi originalmente marcado como "Secreto/Não estrangeiro", com a recomendação de que continuasse classificado como sigiloso até 9 de junho de 2042. O relatório foi terminado em junho de 2017, mas parece ter incluído dados apenas até 2016, antes da posse do presidente Donald Trump.

O relatório divulgado na segunda-feira (22) foi fortemente editado, e, pelo menos, nas partes publicadas não respondeu a muitas questões sobre a prevalência do abuso sexual de crianças entre os militares e a polícia afegãos, e com que frequência os militares americanos deixaram de delatar a prática generalizada de “bacha bazi”, ou “jogo de meninos”, em que alguns comandantes afegãos mantêm meninos menores de idade como escravos sexuais.

“Apesar de o Departamento da Defesa e o Estado terem tomado medidas para identificar e investigar incidentes de agressão sexual a crianças, a plena extensão desses casos talvez nunca seja conhecida”, disse o relatório.

O Sigar disse que abriu uma investigação sobre “bacha bazi” a pedido do Congresso e em reação a uma reportagem de “The New York Times” de 2015, que descreveu a prática como “descontrolada”. Segundo o artigo, os soldados americanos que se queixaram tiveram suas carreiras arruinadas por superiores, que os incentivavam a ignorar esse costume.

"A Defesa e o Estado apenas iniciaram esforços para abordar esse problema depois que foi levantado pelo 'New York Times'", disse John Sopko, o inspetor-geral especial. "E mesmo depois dessa reportagem a eficiência das políticas que eles implementaram e os recursos que empregaram parecem questionáveis. Quando o Congresso aprovou as Leis Leahy, deu prioridade às violações flagrantes de direitos humanos. Como nosso relatório mostra claramente, as duas agências falharam em cumprir essa tarefa."

Um ex-oficial das Forças Especiais, o capitão Dan Quinn, que espancou um comandante afegão por manter um menino acorrentado à sua cama como escravo sexual, disse na época que foi afastado do comando em consequência disso. “Estávamos colocando no poder pessoas que faziam coisas piores que os talibãs”, disse Quinn, que deixou as Forças Armadas. 

O sargento Charles Martland, um Boina Verde que recebeu muitas condecorações, foi obrigado a deixar os militares depois de agredir um comandante da polícia afegã em Kunduz que era um estuprador de crianças. Martland ficou furioso quando o comandante afegão raptou um menino, o estuprou e depois espancou a mãe do jovem quando ela tentou resgatá-lo. Inquéritos do Congresso aparentemente levaram à reintegração de Martland.

A reportagem do “Times” também citou a morte suspeita do cabo Gregory Buckley Jr., um fuzileiro-naval dos EUA que foi morto em um posto de controle onde estava estacionado com um famoso comandante afegão que tinha um séquito de jovens escravos sexuais. Buckley havia se queixado do comandante e foi morto com outros dois fuzileiros por um dos meninos do comandante.

Kirsten Luce/The New York Times
O ex-oficial das Forças Especiais, capitão Dan Quinn, espancou um comandante afegão por manter um menino acorrentado à sua cama como escravo sexual Imagem: Kirsten Luce/The New York Times

O relatório do Sigar não mencionou os casos de Buckley, Quinn ou Martland, e parece ter entrevistado apenas três soldados americanos não identificados que disseram estar cientes dessa prática, que era generalizada, segundo disseram a jornalistas muitos soldados e oficiais afegãos.

Até 12 de agosto de 2016, o Departamento da Defesa estava investigando 75 casos de violações flagrantes de direitos humanos, sete deles envolvendo abuso sexual de crianças, mas até autoridades da Defesa admitiram que essa é uma pequena parcela do total, segundo o relatório do Sigar.

Sob a Lei Leahy, devem ser canceladas as verbas de ajuda militar dos EUA a qualquer unidade militar estrangeira envolvida em violações flagrantes dos direitos humanos, o que inclui a prática de escravização e estupro de meninos. Mas outro dispositivo da lei americana, chamado de “cláusula não obstante”, diz que a ajuda aos militares afegãos deve ser disponibilizada "não obstante qualquer outra provisão da lei".

O relatório do Sigar disse que a “cláusula não obstante” foi usada repetidamente para evitar o corte da ajuda militar às unidades afegãs.

“A continuidade pelo Departamento da Defesa da ajuda a unidades sobre as quais o departamento tem informação verossímil de flagrantes violações aos direitos humanos mina os esforços do governo dos EUA de se envolver com o governo afegão sobre a importância do respeito aos direitos humanos e ao Estado de direito”, declara o relatório. Mas também diz que não foram encontradas provas de que soldados americanos receberam ordens de “olhar para o outro lado” como uma questão de política, ou que seus comandantes desconsideraram a prática do "bacha bazi". 

Os comandantes militares dos EUA no Afeganistão negaram diversas vezes que houvesse uma política para desconsiderar o abuso sexual de crianças.

O relatório do Sigar recomendou o uso estrito da “cláusula não obstante” para evitar os dispositivos da Lei Leahy, e um esboço de lei sobre verbas da Defesa apoia essa recomendação.

A prática é tão generalizada que, pelo menos, um dos candidatos presidenciais de 2014 foi um antigo chefe guerreiro apoiado pela CIA, Gul Agha Shirzai, que foi amplamente acusado de ser um pedófilo que mantinha meninos escravizados.

O presidente Ashraf Ghani prometeu pôr fim a esse costume em um discurso em 2015, mas houve poucos ou nenhum processo das autoridades afegãs por essas práticas. Shirzai é hoje ministro de Assuntos Tribais e de Fronteiras no governo de Ghani.