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Trump abre bem de leve as portas para conversas com a Coreia do Norte

9.fev.2018 - Vice-presidente dos EUA Mike Pence, na primeira fileira, na frente de Kim Yong Nam, chefe de Estado da Coreia do Norte, e Kim Yo Jong, irmã do líder Kim Jong Un - AP Photo/Patrick Semansky
9.fev.2018 - Vice-presidente dos EUA Mike Pence, na primeira fileira, na frente de Kim Yong Nam, chefe de Estado da Coreia do Norte, e Kim Yo Jong, irmã do líder Kim Jong Un Imagem: AP Photo/Patrick Semansky

Motoko Rich

01/03/2018 00h02

A declaração que a Coreia do Norte deu no final das Olimpíadas de Inverno, sobre sua disposição em iniciar um diálogo com os Estados Unidos, despertou uma ponta de otimismo de que o aparato político dos jogos possa levar a resultados mais significativos.

Um dia após a cerimônia de encerramento, o presidente Donald Trump respondeu que os Estados Unidos também estavam interessados em dialogar.

“Também queremos conversar”, disse Trump a governadores americanos na Casa Branca, na segunda-feira (26). Mas logo acrescentou: “somente sob as condições certas”.

“Do contrário”, disse, “não podemos conversar”.

Mas a insinuação feita por Trump de que conversas seriam possíveis veio poucas horas antes da notícia de uma possível complicação para qualquer tentativa de paz: a saída de Joseph Y. Yun, um dos diplomatas mais experientes em Coreia do Norte. Yun anunciou repentinamente seu plano de se aposentar até o final da semana, uma saída que poderia minar qualquer chance de negociação, que dirá de progressos, na contenção dos programas nucleares da Coreia do Norte.

Yun, o principal representante americano para a Coreia do Norte, ajudou a negociar a libertação de Otto Warmbier, o universitário americano que foi preso pela Coreia do Norte e morreu dias depois de voltar para casa em estado de coma, no ano passado. Ele tem sido um firme defensor de uma resolução diplomática, e não militar, para a crise nuclear norte-coreana.

Não ficou claro porque Yun decidiu se aposentar tão repentinamente. Ele não respondeu imediatamente a pedidos de comentários. Heather Nauert, porta-voz do Departamento de Estado, disse em um comunicado que Yun estava se aposentando “por motivos pessoais” e que Rex Tillerson, secretário de Estado, “aceitou com relutância sua decisão”.

Analistas ficaram surpresos.

“Essa é definitivamente uma notícia triste”, disse Andrei Lankov, um especialista em Coreia do Norte da Universidade de Kookmin, em Seul. Yun “é muito favorável a acordos e negociações, e parece que sua voz não será ouvida”.

10.fev.2018 - Presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, cumprimenta Kim Yo-jong, irmã do líder norte-coreano Kim Jong-un, em encontro neste sábado - AFP Photo - AFP Photo
10.fev.2018 - Presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, cumprimenta Kim Yo-jong, irmã do líder norte-coreano Kim Jong-un, em encontro
Imagem: AFP Photo

No último ano e meio, as tensões vêm crescendo na Península Coreana, com trocas de ataques entre Trump e Kim Jong-un, o líder da Coreia do Norte, que pareciam levar os Estados Unidos e a Coreia do Norte para mais perto de um confronto.

A trégua das Olimpíadas, para a qual a Coreia do Norte enviou 22 atletas e uma comitiva de dignitários, líderes de torcida e músicos, junto a uma pausa nos testes nucleares e balísticos da Coreia do Norte desde novembro passado, geraram esperanças de que as tensões finalmente estivessem se acalmando.

Mas assim que a Coreia do Norte e os Estados Unidos declararam sua disposição em conversar, algo que na verdade eles já fizeram antes, ficou claro que os dois lados permaneciam inflexivelmente distantes.

“Os norte-coreanos sempre disseram que estavam dispostos a conversar com os Estados Unidos, e na verdade eles estão ansiosos para vir conversar conosco, como um Estado nuclear para outro”, disse Ralph Cossa, presidente do Pacific Forum Center for Strategic and International Studies, think tank de política internacional. “E os Estados Unidos estão dispostos a conversar com os norte-coreanos se estes estiverem preparados para discutir as armas nucleares. Então ambos os lados estão dispostos a conversar, mas não a respeito das mesmas coisas”.

Enquanto acompanhava a delegação americana nas Olimpíadas de Pyeongchang no começo deste mês, o vice-presidente Mike Pence planejava se encontrar secretamente com uma delegação de alto nível da Coreia do Norte, mas os norte-coreanos cancelaram de última hora, de acordo com o Departamento de Estado.

“Esse é o verdadeiro desafio a respeito da Coreia do Norte”, disse Cossa. “Se você tenta confrontá-los, eles ficam na defensiva e sentem que têm de ser mais agressivos, para mostrar que não estão com medo”.

“Mas se você propõe uma abertura, eles veem isso como uma fraqueza que precisam explorar”, acrescentou. “E se você oferece a eles a Lua e as estrelas, eles dizem ‘Está bem, também queremos o Sol’”.

O Conselho de Segurança da ONU impôs sanções cada vez mais rígidas à Coreia do Norte a respeito de seu programa de armas nucleares, mas violações podem ser difíceis de se policiar. Na terça-feira (27), o Ministério das Relações Exteriores do Japão anunciou que um avião militar japonês havia detectado no sábado (24) navios de bandeira norte-coreana e maldiva conduzindo algo que o Japão considerou como sendo transferências entre navios, que são proibidas pelo Conselho de Segurança.

Muitos analistas dizem que a liderança norte-coreana nunca concordará em realizar negociações caso tenha de prometer abrir mão de suas armas nucleares para que um diálogo possa ser iniciado.

“Duvido muito que existam condições sob as quais a Coreia do Norte se desnuclearize pacificamente”, disse Bridget Coggins, professora-adjunta de ciências políticas na Universidade da Califórnia em Santa Barbara.

Considerando que a Coreia do Norte acredita que as armas nucleares a protegem de um ataque dos Estados Unidos, “não vejo possibilidades de grandes avanços”, ela disse. “Nunca haveria uma garantia de segurança que fosse suficiente para a desnuclearização”.

Coggins disse que para conseguir qualquer tipo de diálogo, os Estados Unidos talvez tenham de aceitar uma suspensão nos testes nucleares e de mísseis em vez de exigir que o Norte concorde em abrir mão totalmente de seu arsenal.

“Parece que houve muitas oportunidades para conseguir avanços em termos de contenção de crise, se isso for de fato o que os Estados Unidos querem”, disse Coggins. “E essas oportunidades não foram aproveitadas”.

Trump não especificou o que quis dizer com “condições certas” para as negociações, mas Sarah Huckabee Sanders, porta-voz da Casa Branca, forneceu o contexto em comentários feitos a repórteres na segunda-feira.

“Vamos ser bem claros”, disse. “A desnuclearização deve ser o resultado de qualquer diálogo com a Coreia do Norte. Até lá, os Estados Unidos e o mundo devem continuar deixando claro que os programas de mísseis e nucleares da Coreia do Norte são um beco sem saída”.

Yun havia sugerido anteriormente que, embora fosse o objetivo final dos Estados Unidos conseguir com que a Coreia do Norte desistisse de seu programa nuclear, as conversas poderiam ser iniciadas com base em uma suspensão dos testes nucleares e balísticos da Coreia do Norte.

“Seria um ótimo primeiro passo a Coreia do Norte parar com seus testes nucleares e balísticos”, disse Yun no mês passado, durante uma conferência em Tóquio.

Analistas disseram que um dos obstáculos para as negociações seria o fato de o governo Trump estar continuamente enviando sinais inconsistentes.

“A administração não está se baseando em uma única fonte sobre políticas para a Coreia do Norte”, disse Ankit Panda, editor sênior da “Diplomat”, uma revista sobre relações exteriores, e analista de segurança regional. “Ouviremos diferentes membros do governo sugerindo diferentes abordagens”.

Como os Estados Unidos e a Coreia do Sul deverão em breve retomar seus exercícios militares conjuntos, Panda advertiu que “uma espiral de exercícios entre Estados Unidos e Coreia do Sul será recebida com novas provocações do Norte”.

9.fev.2018 - Chefe de Estado cerimonial da Coreia do Norte, Kim Yong-nam, o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, e a primeira-dama sul-coreana, Kim Jung-sook, durante encontro antes dos Jogos de Inverno de Pyeongchang - REUTERS/Kim Hong-Ji - REUTERS/Kim Hong-Ji
9.fev.2018 - Chefe de Estado cerimonial da Coreia do Norte, Kim Yong-nam, o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, e a primeira-dama sul-coreana, Kim Jung-sook, durante encontro antes dos Jogos de Inverno de Pyeongchang
Imagem: REUTERS/Kim Hong-Ji

Há promessas de uma continuidade de diálogo entre a Coreia do Norte e a do Sul. Na terça-feira, em Seul, o chefe da delegação norte-coreana, Kim Yong Chol, tomou café da manhã junto com o ministro sul-coreano da Unificação, Cho Myoung-gyon, e o diretor do Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul, Suh Hoon. Os dois lados concordaram que o Norte e o Sul continuariam a trabalhar para melhorar as relações e ajudar a garantir a paz na península.

Coggins disse que tais negociações provavelmente não levariam a nenhuma mudança no programa nuclear norte-coreano, mas que poderiam trazer iniciativas promissoras, como reuniões de famílias que foram divididas desde a Guerra da Coreia.

“São pequenas coisas que têm impacto e são significativas, não somente de uma forma sentimental, mas como uma forma de diminuir a divisão social entre o Norte e o Sul de uma maneira que seja um avanço produtivo”, afirmou Coggins. Ela disse que tais negociações poderiam até mesmo ajudar a obter a libertação de três americanos que continuam detidos na Coreia do Norte.

Analistas disseram que se Moon Jae-in, presidente da Coreia do Sul, aceitar um convite para visitar Kim Jong-un em Pyongyang, Moon poderia intermediar conversas entre os Estados Unidos e o Norte.

“O escopo e o espaço para a diplomacia hoje estão maiores do que antes”, disse Scott Snyder, diretor de políticas para Estados Unidos-Coreia no think tank Council on Foreign Relations.

Tradutor: UOL