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Nas pistas de esqui, imigrantes se integram e se tornam verdadeiros canadenses

A pequena Shun Yu, 4, segura as mãos do pai em uma pista de iniciantes no resort Blue Mountain, em Ontário, no Canadá - Tara Walton/The New York Times
A pequena Shun Yu, 4, segura as mãos do pai em uma pista de iniciantes no resort Blue Mountain, em Ontário, no Canadá Imagem: Tara Walton/The New York Times

Dan Levin

Em Blue Mountains, Ontário (Canadá)

02/03/2018 00h02

Para se tornar um cidadão canadense, um imigrante deve jurar fidelidade a Sua Majestade a Rainha Elizabeth 2ª, provar fluência em inglês ou francês e demonstrar que entende o significado simbólico da venerada folha de bordo (a “maple leaf”, em inglês).

Mas o caminho para se tornar canadense, para realmente sentir a identidade cultural dessa terra setentrional nos próprios ossos, é uma jornada que cada vez mais impele os imigrantes a descer uma encosta suave, própria para iniciantes: um morro arredondado coberto de neve.

Ávidos para abraçar o modo de vida canadense, ou simplesmente atenuar a "febre da cabana" que acompanha os longos meses gelados, muitos imigrantes estão calçando botas de esqui e se arriscando no passatempo de inverno típico de seu país adotivo.

"No inverno não há mais nada para fazer", disse Mahendran Arumugam, que se mudou para o Canadá em 2014, vindo do tórrido estado indiano de Tamil Nadu. "Não adianta se queixar da neve, por isso é melhor começar a desfrutá-la, e que melhor maneira do que começar a esquiar?"

Assim como outros imigrantes, Arumugam, 32, um profissional de tecnologia da internet, estava aprendendo a esquiar no resort Blue Mountain, um emaranhado de trilhas alpinas pitorescas a cerca de 160 km ao norte de Toronto.

Em um sábado recente, o resort público estava cheio de esquiadores tarimbados que desciam sem dificuldade as trilhas íngremes, embora curtas. Mas também havia hordas de novatos que percorriam terreno menos inóspito. Na base do morro Easy Rider, os iniciantes se esforçavam para ouvir as instruções em uma Babel de línguas, dobrando os joelhos hesitantes ao aprender a parar fazendo um V com os esquis. Na distância, novos esquiadores e adeptos do snowboard desciam o morro, muitas vezes se chocando uns com os outros.

"Esquiar é uma parte da vida e da cultura canadense", disse Rosemary Kanickaraj, 39, uma imigrante indiana, ao completar suas primeiras aulas. "Se você pretende ficar, deve se adaptar."

Nos últimos anos, quase 30% dos novos imigrantes se instalaram na grande Toronto, fazendo da maior cidade do Canadá o principal ponto de chegadas, segundo o censo de 2016. Quase a metade dos moradores de Toronto são estrangeiros, a maior porcentagem entre todos os centros urbanos do país.

Isso faz da Blue Mountain uma boa opção para muitos aprenderem o mais canadense dos hobbies, talvez ajudados pelo fato de que a montanha aqui é, na verdade, apenas uma escarpa rochosa de 200 e poucos metros e muito mais suave para os aprendizes do que, por exemplo, os picos de mais de 2.000 metros de Whistler, na Colúmbia Britânica, ou as encostas de quase 900 metros de Tremblant, perto de Montreal.

Em um reflexo da estonteante diversidade da região, Blue Mountain emprega instrutores de esqui e snowboard que falam 19 línguas, entre as quais holandês, coreano, polonês, romeno e grego. No interior do centro de aluguéis do resort, havia caracteres chineses gravados em uma placa de "apanhar esquis", e uma cacofonia de hindi, mandarim e inglês ressoava entre a multidão animada.

A imigrante chinesa Xi Feng aprende a esquiar em uma pista de iniciantes no resort Blue Mountain, em Ontário, no Canadá - Tara Walton/The New York Times - Tara Walton/The New York Times
A imigrante chinesa Xi Feng aprende a esquiar em uma pista de iniciantes no resort Blue Mountain, em Ontário, no Canadá
Imagem: Tara Walton/The New York Times

Xi Feng, 32, natural da província chinesa temperada de Jiangsu, que se mudou para o Canadá em 2015, estava sentada ali perto, mexendo furiosamente em uma bota de esqui alugada. Vestida com uma jaqueta de esqui amarela berrante, Xi parecia uma profissional, mas só tinha esquiado duas vezes antes, perto de Pequim, que sediará a Olimpíada de Inverno de 2022.

"Desde que me mudei para cá eu quis aprender, porque esquiar é muito importante no Canadá", disse Xi, uma estrategista numa empresa de cervejas que culpou seu mestrado recém-concluído pela demora em aprender a esquiar.

Xi disse que pretendia começar pelo programa de novatos do resort antes de tentar um terreno mais difícil. "Preciso praticar um pouco", afirmou, enquanto seu marido, Du Cheng, lhe entregava a outra bota.

Du, 35, que atende pelo apelido de Duke, disse que não ia esquiar por causa de um ferimento nas costas, embora não parecesse especialmente chateado. "Vou ficar no calor da pousada bebendo café", disse.

Agarrando firmemente esquis e bastões com suas luvas cor-de-rosa, Xi se arrastou até o morro para ter aulas. Então seguiu pelo "tapete mágico", uma esteira rolante que sobe o morro.

Lá no precipício, de jaqueta roxa e óculos de esqui azuis brilhando ao sol do inverno, estava Ma Rong, 32, que se mudou da China para o Canadá há apenas duas semanas. Enquanto seu marido e a filha pequena observavam ansiosamente embaixo da encosta, Ma começou a descer, empregando uma técnica melhor descrita como transitar numa máquina elíptica em câmera lenta, com um par de esquis.

Ganhando um pouco de velocidade, ela evitou por pouco um homem de calças laranja, e durante vários segundos pareceu que Ma conquistaria a Easy Rider ilesa. Mas então as coisas ficaram meio loucas: uma mulher caída tinha causado uma pequena pilha, e Ma seguia diretamente para ela.

Desesperada para evitar a colisão, Ma puxou o freio de emergência (também conhecido como sentar-se), e parou a centímetros da pilha humana.

"É fácil", disse ela sem fôlego, enquanto voltava a subir o morro.

Igualmente tranquilo estava seu marido, Gu Jun, que ajudava a filha de 4 anos, Shun Yu, a escorregar pela neve com um par de pequenos esquis. Gu, 32, um funcionário de banco, veio da cidade chinesa de Nanquim para Toronto em 2016 e disse que pretende obter a residência permanente no Canadá neste ano. Aprender a esquiar, segundo ele, é uma maneira ideal para sua família se assimilar. "É um esporte muito canadense", disse.

Mike Wong, um instrutor na Blue Mountain que foi criado em Hong Kong, aprendeu a esquiar depois que se mudou para Toronto, há dez anos. Na época, segundo ele, não havia muitos chineses nas pistas. Mas conforme a imigração da China continental disparou um número cada vez maior de chineses visita o resort.

"Eles estão mais dispostos a aprender coisas novas e se adaptar à corrente dominante", disse Wong, que fala mandarim e cantonês.

De vez em quando, explicou ele, a vontade dos novatos supera qualquer senso de cautela. "Alguns simplesmente saltam do morro, em vez de vir à área de aprendizado, com um instrutor", disse ele.

Imigrantes indianos esquiam pela primeira vez, no resort Blue Mountain, em Ontário, no Canadá - Tara Walton/The New York Times - Tara Walton/The New York Times
Imigrantes indianos esquiam pela primeira vez, no resort Blue Mountain, em Ontário, no Canadá
Imagem: Tara Walton/The New York Times

Segundo Wong, muitos canadenses mais velhos têm pouco interesse por aprender a esquiar, mas os imigrantes chineses de 50 e 60 anos muitas vezes acompanham seus filhos nas encostas.

No interior da pousada, uma banda local toca uma música de Fleetwood Mac enquanto os cansados e feridos mergulham em hambúrgueres e "poutine", a mistura de batatas com pedaços de queijo que nasceu em Quebec e hoje é popular em todo o Canadá. Outros simplesmente buscavam alívio do frio cortante.

Enquanto rumava de volta para as pistas avançadas, Du Shan, 36, um desenvolvedor de web, disse que começou a esquiar pouco depois de imigrar da China, ainda adolescente. Incentivado pelo pai, Du logo se apaixonou pelo esporte e sua "necessidade de velocidade", segundo disse, e esquia várias vezes durante o inverno desde então.

"A maioria dos chineses não esquia, mas meu pai quis que eu compreendesse a cultura", disse ele, calçando as luvas. "Quando cheguei aqui, ele me disse que eu devia experimentar algo canadense. Agora sei o que ele quis dizer."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves