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Promotores americanos apresentam mais evidências contra o traficante El Chapo

Ministério do Interior do México/AFP
El Chapo é escoltado pela polícia mexicana durante o processo de extradição Imagem: Ministério do Interior do México/AFP
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Alan Feuer

Em Nova York (EUA)

12/04/2018 00h01

Às 2h30 da manhã de 8 de novembro de 1992, um bando de assassinos armados invadiu uma discoteca lotada em Puerto Vallarta, no México, em busca de vingança. Sacando as armas de seus casacos, contaram as notícias na época, os atiradores dispararam contra as luzes da casa noturna e então contra os membros de uma gangue do narcotráfico chamada organização Arellano Félix, que frequentavam o local.

Seis pessoas morreram no tiroteio que se seguiu e os cronistas da brutal guerra das drogas do México há muito atribuem o massacre a Joaquín Guzmán Loera, um jovem chefão conhecido como El Chapo, que estava realizando um acerto de contas com os líderes da gangue, os irmãos Francisco Javier e Ramón Arellano Félix. Na terça-feira (10), promotores federais no Brooklyn alegaram que Guzmán esteve de fato envolvido e disseram que planejam contar a história do massacre, ocorrido décadas atrás, em seu julgamento.

O tiroteio, que como disseram os promotores ocorreu enquanto Guzmán estava consolidando seu controle das rotas do tráfico durante sua ascensão no cartel das drogas de Sinaloa, foi mencionado em um memorando de 90 páginas do governo adicionado aos autos do processo na terça-feira. Com o extenso julgamento por conspiração marcado para começar em setembro, o memorando visava listar os crimes que se acredita que Guzmán tenha cometido, mas não declarados especificamente em seu indiciamento. Eles são inúmeros, segundo o memorando, e incluem assassinatos, tortura, sequestros, fugas de prisão e uma tentativa de contrabandear sete toneladas de cocaína em latas de pimenta jalapeño.

Nos 15 meses desde que Guzmán foi enviado do México para Nova York, seu processo se viu atolado em tecnicalidades legais ligadas à sua extradição e discussões sobre as duras condições de seu confinamento, em uma ala de segurança máxima de uma prisão federal em Manhattan. O memorando do governo é o primeiro relato detalhado das evidências com frequência horríveis que os promotores planejam apresentar ao júri.

Em 2001, disse o governo, enquanto Guzmán guerreava contra duas gangues rivais, o Cartel do Golfo e os Zetas, ele ordenou a seus pistoleiros que capturassem e torturassem quaisquer membros dos grupos que pudessem encontrar. Alguns dos homens foram levados para ele "amarrados e indefesos" para serem interrogados, disse o memorando. "Em pelo menos um caso", escreveram os promotores, "o próprio réu atirou contra os rivais à queima-roupa e ordenou a seus lacaios que se livrassem dos corpos".

U.S. officials/Divulgação
"El Chapo" desembarca em Nova York (EUA) após ser extraditado do México Imagem: U.S. officials/Divulgação

Nove anos depois, enquanto Guzmán enfrentava outra concorrente, a organização Beltrán Leyva, ele foi informado que um dos principais comandantes desta, Israel Rincón Martínez, tinha sido capturado por seus capangas. Segundo o memorando, Rincón foi transportado de uma para outra das várias propriedades de Guzmán, onde foi torturado e interrogado pelo primo de Guzmán, Juan Guzmán Rocha. Apesar da ordem de Guzmán para que os interrogadores não matassem Rincón até sua chegada, o memorando alega que quando ele chegou, Rincón estava morto.

O memorando claramente busca retratar Guzmán, 58 anos, como um homem violento e calculista. Em 2006, por exemplo, após relaxar depois do almoço, ele fez com que dois membros dos Zetas fossem espancados, disse o governo, depois atirou na cabeça de ambos "com uma arma longa". Segundo o memorando, Guzmán então "ordenou que seus subordinados cavassem um buraco no solo, jogassem os corpos ali e depois tacou fogo neles".

O advogado de Guzmán, A. Eduardo Balarezo, disse na terça-feira que está analisando o memorando e que responderia "no momento devido".

Por vários meses, Balarezo argumentou, em grande parte sem resultado, que Guzmán não pode ter um julgamento justo com as várias restrições severas impostas a ele sob custódia e o sensacionalismo que cerca o processo. Na segunda-feira, ele apresentou seus documentos à corte pedindo que o governo lhe forneça as histórias criminais dos vários chefões das drogas, mensageiros, executores e contadores que os promotores pretendem que sirvam como testemunhas no tribunal, que chegam a 40, algumas das quais autorizadas a testemunhar sob nome falso.

Essas testemunhas provavelmente serão aquelas que descreverão as brutalidades que o governo incluiu em seu memorando, mas os relatos delas não serão as únicas evidências apresentadas. Os promotores escreveram que também possuem fotos por satélite de Guzmán e sua operação, livros contábeis apreendidos, dezenas de vídeos, milhares de chamadas telefônicas e e-mails interceptados, e mais de 300 mil páginas de documentos. Eles disseram que poderão até mesmo apresentar evidência sobre os pagamentos feitos por Guzmán a seus advogados como "prova da riqueza inexplicada e renda substancial do réu".

Mas há certas coisas que o governo não deseja que o júri ouça. O memorando também supostamente inclui as obras de caridade realizadas por Guzmán no México e seu recente anúncio, por meio de um advogado, de que planeja concorrer de sua cela em Nova York ao Senado mexicano.

O governo também pediu ao juiz, Brian M. Cogan, que exclua qualquer menção à entrevista que o ator Sean Penn conduziu com Guzmán para a revista "Rolling Stone", em 2015, enquanto Guzmán estava escondido em um abrigo nas montanhas do México. O governo se irritou com a entrevista porque nela Penn se refere a Guzmán como "uma figura tipo Robin Hood" e alega que o público americano consumidor de drogas é cúmplice nos crimes dele.

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