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Em cidade sem lei no Afeganistão, Taleban cria justiça paralela e pratica extorsões

Rahmat/Xinhua
4.fev.2015 - Policiais fazem patrulha durante uma operação contra o Taleban, em Ghazni Imagem: Rahmat/Xinhua
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Jawad Sukhanyar

Em Ghazni (Afeganistão)

09/05/2018 00h01

Como é viver em uma cidade afegã prestes a cair sob o controle do Taleban?

Os moradores de Ghazni, uma capital de província com cerca de 280 mil habitantes a aproximadamente 180 km ao sul da capital, Cabul, em uma rodovia principal, mal sabem dizer hoje quem está no comando, e o medo se tornou um companheiro diário.

Com o Taleban controlando parte da rede rodoviária em torno de Ghazni, os cidadãos há muito se sentem vulneráveis. Mas durante uma visita recente ouvi com frequência declarações sobre o sentido de impotência. Muitos aqui temem que um esforço total do Taleban para tomar a cidade possa ocorrer a qualquer momento.

Não contentes em simplesmente controlar o acesso à cidade, os insurgentes começaram a atacar postos policiais dentro dela. Os talebans metodicamente extorquem dinheiro, dizendo que são impostos, de empresas no centro da cidade, incluindo as que ficam perto da sede do governo, e um número crescente de rebeldes vive abertamente no local. Seus combatentes costumam matar policiais, pessoal de segurança e até policiais de trânsito.

Um tribunal taleban reivindica a jurisdição sobre a cidade e seus arredores, e executa chicoteamentos e às vezes apedrejamentos.

Estive em várias províncias afegãs influenciadas pelo Taleban, incluindo a de Kunduz e sua capital, antes que caísse sob os insurgentes. Nessas cidades, os arredores parecem instáveis, mas sempre havia uma sensação de garantia do controle do governo ao se entrar no centro da cidade.

Ghazni, a apenas duas horas de carro de Cabul, parecia mais insegura. Muitos moradores e até autoridades se perguntavam o que significa o colapso de uma cidade, e se já não estavam vivendo um. A cidade não fica longe de Khost, onde 14 pessoas foram mortas no domingo (6) em um atentado a bomba, quando faziam fila para se registrar no cartório eleitoral.

Chegar a Ghazni já parece um desafio.

A Rodovia 1, que liga Cabul ao sul do Afeganistão, sempre foi perigosa. Quando os comboios militares americanos eram comuns aqui, ela era um alvo frequente de bombas. Hoje, com os americanos quase ausentes, sua defesa repousa nas tropas afegãs, e o Taleban se tornou mais ousado, muitas vezes montando de surpresa postos de verificação não longe dos postos do governo.

Como precaução, em uma viagem recente, caso encontrássemos um posto insurgente, deixei em Cabul minha identidade de repórter e meu celular, que continha contatos do governo e estrangeiros.

A estrada é segura só durante o dia, de preferência das 8h às 16h, quando os soldados a patrulham. Ao dirigir de volta a Cabul, tirei o cartão do meu celular de reserva, mais simples, no qual eu havia recebido várias ligações durante a viagem, e o segurei entre os dedos, pronto a atirá-lo longe se sentíssemos algum perigo.

Xinhua/Rahmat Alizadah
Pessoas transportam um homem ferido após atentado suicida do Taleban em Cabul Imagem: Xinhua/Rahmat Alizadah

Uma de minhas primeiras entrevistas na área foi com a família de um policial de trânsito, Ali Ahmad Jalali, que foi morto em 20 de abril, com oito tiros. Sua aldeia, Tauhidabad, fica a cerca de 10 quilômetros do centro de Ghazni, por uma estrada de terra esburacada. Seu primo, Ishaq Bahrami, rapidamente me fez entrar para tomar chá e conversarmos, no local onde ele tinha uma agência de imóveis.

Jalali, que tinha três filhos, havia sido um policial comum, mas tinha mudado para o batalhão de trânsito. Ele foi morto por volta das 10h, quando saía da casa de sua família.

"Ele foi morto a menos de cem metros do posto de controle do Exército afegão", disse Bahrami.

O primo disse que pagou ao Taleban cerca de US$ 40 no ano passado, mas ainda não foi procurado neste ano para um novo pagamento.

As autoridades de Ghazni dizem que as mortes de pessoal de segurança geralmente são praticadas por jovens em motocicletas, muitas vezes usando pistolas com silenciadores. Embora cerca de 50 funcionários do governo tenham sido mortos na cidade no ano passado, a contagem de somente 30 dias em março e abril chegou a dez.

Mohammad Arif Noori, porta-voz do governador da província, disse que em 1º de maio um soldado afegão foi morto a tiros em pleno dia no bairro de Hada-e-Qandar, em Ghazni.

Para ter uma melhor ideia da segurança, eu dirigi com um policial pelo centro da cidade. O comandante, que pediu para não ser identificado porque não tinha autorização para falar à mídia, subiu em um morro comigo para vigiar a área.

"O Taleban está presente na cidade", disse ele, apontando para um determinado bairro onde eles predominam. "Eles têm casas aqui e podem fazer o que quiserem."

"A maioria deles tem armas em casa", continuou ele, "e não podemos fazer nada porque não temos a capacidade. Mesmo se os prendermos, eles logo saem da cadeia e vêm atrás da polícia para se vingar."

O comandante admitiu que seus homens estão em menor número. Para essa área de concentração Taleban, ele tinha quatro policiais, segundo disse, e haverá no máximo três de serviço em cada hora do dia.

Ele sugeriu que tinham chegado a um acordo com os insurgentes para que seus homens não sejam atacados. Ele não especificou a natureza do acerto, por causa da sensibilidade do assunto.

Em toda a cidade de Ghazni, comerciantes e outros empresários disseram que não têm opção além de pagar aos representantes do Taleban, que dizem cobrar impostos. Os rebeldes vêm uma vez por ano e levam o dinheiro que reúnem para Mongur, uma área fora da cidade, segundo autoridades.

Uma estação privada de rádio e televisão, ao lado de uma delegacia, teve de pagar cerca de US$ 1.700, disseram os empregados. Uma pequena loja em uma rua principal, não longe do gabinete do governador, pagou pouco menos de US$ 200, revelou seu dono, Hajji Fateh.

"O agente veio e levou o dinheiro", disse Fateh. "Ele disse: 'se você não pagar, encosto esta pistola na sua cabeça'. Como posso não pagar?"

O governador de Ghazni, Abdul Karim Matin, admitiu a prática. "O Taleban coleta dinheiro da população, infelizmente, seja de lojistas ou qualquer um, em nome de impostos", afirmou. "Isso é extorsão, não imposto."

Afghan Islamic Press via AP
Líder do Taleban, mulá Haibatullah Akhundzada, posa para um retrato Imagem: Afghan Islamic Press via AP

Antes da entrevista, Matin estava ocupado com reuniões de segurança, homens de uniforme entravam e saíam de seu gabinete. Quando ele passa de um prédio a outro no complexo do governo, dirige um SUV blindado, às vezes escoltado por forças de segurança em jipes.

As coisas ficaram especialmente feias no final de abril, quando o governo central em Cabul manifestou temor de que o Taleban tivesse como prioridade derrotar Ghazni. Uma ligação tarde da noite de autoridades da capital ao comandante regional do Exército enviou forças com urgência à cidade.

Os ataques afinal foram menos graves do que se esperava, embora pelo menos quatro policiais tenham sido mortos em um posto avançado no bairro de Khasheek. O Exército vem mantendo mais tropas que de hábito em Ghazni, e uma ocupação total do Taleban parecia improvável.

No domingo (6), porém, Bahrami disse por telefone que uma luta feroz estava ocorrendo em Ghazni e que todos os postos de polícia no bairro de Khasheek tinham sido capturados pelo Taleban.

No final de minha viagem a Ghazni, quando dirigíamos de volta a Cabul, meu coração bateu mais rápido até que entramos na relativa segurança da capital. Pensei no controle cada vez menor do governo na província que eu acabava de deixar.

Quando o Taleban se infiltra à vontade, mata autoridades à luz do dia e dirige um vasto sistema de coleta de impostos até na porta do centro de governo, qual pode ser a autoridade do governo central, mesmo em seu próprio quintal?

Lembrei de um morador de Ghazni, Mohammad Anwar, 60, que disse que seu filho, Mujtaba, um policial de 22 anos, foi morto a tiros na rua por um assassino taleban neste ano. Ele se desesperou com a frequência que as mortes estão ganhando na cidade.

"O governo é muito descuidado com o povo comum em Ghazni", disse ele.

"Perder um filho é muito doloroso", acrescentou, começando a chorar. "Você suporta muita dificuldade para criar um filho, e então alguém simplesmente o tira de você."