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No meio da selva boliviana, jesuítas deixaram legado cultural: o amor pela música barroca

Lena Mucha/The New York Times
Orquestra toca música barroca durante concerto em Ascención de Guarayos, na Bolívia Imagem: Lena Mucha/The New York Times
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Nicholas Casey

14/05/2018 00h01

A partitura, já envelhecida, não era fácil de ler. Era a cópia da cópia de uma Missa Latina do compositor do século 18 Domenico Zipoli, que havia cruzado o Atlântico e a maior parte da América do Sul e foi parar dentro de uma caixa por três séculos em uma igreja abandonada de uma selva, onde a umidade foi implacável.

Além disso, ainda tinham os cupins.

Os insetos haviam comido grandes trechos da Missa, inclusive os 22º e 23º pentagramas.

Mas embora boa parte do trabalho de Zipoli tenha desaparecido em sua Europa natal, ele conseguiu sobreviver no leste da Bolívia, junto com sua vasta tradição musical barroca, cantarolada pelas planícies tropicais.

Aqui, perto das fronteiras com o Brasil e o Paraguai, cravos e alaúdes podem ser encontrados até nos menores vilarejos. Violinos foram esculpidos por luthiers a partir de cedro local durante séculos.

E uma coleção de manuscritos antigos, redescobertos mais recentemente em arquivos de igrejas, mais uma vez ressuscitou Zipoli e outros compositores do período, cuja música é tocada em escolas primárias e nas rádios.

“O barroco é nossa tradição aqui”, disse Juan Vaca, um arquivista de Concepción, enquanto folheava as páginas deterioradas da Missa de Zipoli com um par de luvas e uma pequena vareta.

A partitura é um legado de missionários jesuítas que deixaram uma cápsula do tempo musical na Bolívia. Nos anos 1700, partes do que hoje são o Paraguai, o leste da Bolívia e o sul do Brasil eram vastas florestas de povos nativos seminômades e os comerciantes de escravos que os caçavam. Em torno das selvas ficavam os impérios espanhol e português.

Os jesuítas se embrenharam nas selvas com a dupla meta de converter tribos indígenas e de protegê-los da escravidão. No processo, eles formaram um Estado dentro de um Estado governado por padres e líderes locais.

Esse canto obscuro da história latino-americana recebeu um breve momento de atenção hollywoodiana com o lançamento do filme de 1986 “A Missão”, estrelado por Robert De Niro.

“A ideia era construir uma sociedade diferente, uma espécie de utopia com educação, autossustentabilidade e, é claro, com música, que era a forma como os jesuítas catequizavam”, disse o reverendo Piotr Nawrot, um padre católico da Polônia que vive na Bolívia e esteve envolvido na recuperação de parte dos manuscritos barrocos originais.

No geral, o histórico da igreja católica na região teve seu lado negativo e positivo; ela concordou em expulsar grupos indígenas de muitas missões que eles haviam construído para resolver uma disputa territorial entre a Espanha e Portugal. Alguns dos povos indígenas se recusaram a ir embora e lutaram uma guerra sangrenta, e muitas das igrejas entraram em ruína.

Mas entre os bolivianos das planícies, o legado da música barroca sobreviveu, mesmo séculos depois que as comunidades indígenas perderam a tradição de ler partituras, aprendendo as músicas de ouvido.

Para entender o tamanho do poder que a tradição carrega até hoje, um exemplo é Urubichá, um vilarejo agrícola situado a noroeste de Concepción no final de uma estrada de terra sem pavimento, à margem de um pântano que só pode ser alcançado depois de se atravessar dez pontes por uma selva densa.

A cidade de 8 mil habitantes tem uma escola de música que ensina a 500 alunos, praticamente todas as crianças da região. Na hora do almoço, as crianças perambulam pela praça do vilarejo carregando instrumentos nas costas. Elas falam guarayo, a língua nativa.

“Os guarayos vivem com essa música na alma”, disse Leidy Campos, 32, que ensina música no vilarejo. “As pessoas dizem que nasceram com um violino nas mãos”.

Do outro lado do campo em frente às salas de aula, encontramos Ideberto Armoye, instrutor de carpintaria, em uma oficina com violas inacabadas e violinos feitos de cedro e mogno extraídos localmente. Essas eram as únicas madeiras que conseguiam suportar o calor tropical, disse.

Para ilustrar sua afirmação, ele mostrou um violino que havia chegado recentemente de uma fábrica na China.

“Esse instrumento é afetado por qualquer coisa, olha só o tamanho dessa rachadura”, ele disse.

Embora muitas das músicas daquela época tivessem sido transmitidas oralmente pelas famílias na Bolívia, acreditava-se que as orquestrações e arranjos para coral haviam se perdido. Durante anos, isso permaneceu como um dos mistérios da época: embora a música barroca houvesse sido a ponte entre os jesuítas e os bolivianos, ninguém sabia exatamente como ela soava.

“Tive de fazer um profundo esforço mental para imaginar como poderia ter sido”, disse Ennio Morricone, que compôs a trilha sonora de “A Missão” anos antes de os manuscritos terem sido descobertos, usando uma combinação de influências europeias e indígenas.

Nos anos 1990, Nawrot saiu em busca do que poderia ter restado da música escrita, uma procura que o levou até a região de Moxos mais a oeste. Ele perguntou a anciões da região sobre os manuscritos da época. Mas primeiro, ele conta, eles tinham perguntas para ele.

“Durante três horas eles me questionaram sobre minha fé, minha religião”, lembra Nawrot. “Foi uma inversão total de papéis”.

Por fim, os líderes de Moxos revelaram algo que o embasbacou. Milhares de páginas de manuscritos, inclusive música de óperas barrocas e concertos para solos, alguns dos quais haviam sido copiados até 2005, haviam sobrevivido.

Os copistas haviam até assinado algumas das partituras com ”maestro capilla”, um título da era barroca usado por compositores como Johann Sebastian Bach.

“O manuscrito nunca esteve perdido, só não sabíamos a respeito dele”, disse o padre.

Durante boa parte dos anos 1990, Nawrot trabalhou com Vaca, o arquivista de Concepción, reagrupando outra coleção de partituras que haviam sido encontradas nos anos 1970, incluindo os manuscritos de Zipoli que foram comidos pelos cupins.

Esse conjunto de trabalhos, que incluem cópias tanto de obras conhecidas quanto de peças desconhecidas escritas na Bolívia, agora é conhecido nos círculos da música clássica como Missão Barroca.

A música tem admiradores que vão bem além das planícies bolivianas. Um deles é Ashley Solomon, um professor da Royal College of Music de Londres que viajou até a cidade de Santa Cruz em abril passado para reger em um festival de música barroca que é realizado a cada dois anos nas antigas missões jesuítas.

“Eles pegaram essa música e a tornaram sua. É mais alegre, mais positiva”, disse Solomon. “A música eleva os ânimos, em vez de se autoflagelar, o que se vê em muitas das músicas clássicas ocidentais da mesma época”.

E as peças são mais curtas, disse Solomon, escritas em pequenos incrementos que seguram mais facilmente a atenção das pessoas, que se distraem mais hoje do que antigamente.

Em uma noite pouco depois do pôr do Sol, César Cara, o diretor acadêmico da escola de música em Urubichá, conduzia sua orquestra de estudantes em um ensaio de “Sonata XVIII”, peça de um compositor anônimo que a escreveu em algum lugar das colinas do entorno no século 18.

Um inseto bem grande rastejava pelo chão enquanto o coro esperava sua vez. Uma das sopranos o esmagou com o pé e o chutou na direção dos violinos.

“Queremos que as pessoas nos aplaudam por causa de nosso nível”, disse Cara, observando que os estudantes haviam tocado recentemente junto com um grupo visitante da renomada escola de música Juilliard para um dos concertos do festival.

Solomon, o músico britânico, disse que havia muitos talentos na Bolívia. Mas ele disse também que os moradores do vilarejo tinham uma conexão com a música que é rara na Europa, onde a música clássica costuma viver afastada da cultura popular.

Solomon se recorda de anos atrás ter feito um concerto em San Javier, a oeste de Concepción, local de uma grande missão jesuíta cuja fachada de madeira dá para a praça principal.

Quando seu grupo, o Florilegium, começou a tocar um concerto para flauta do século 18, “Pastoreta Ychepe Flauta”, ele disse ter ficado surpreso ao ouvir membros da plateia, moradores da cidade que conheciam a peça, cantarolando a música junto.

“Nem que tocássemos ‘As Quatro Estações’ de Vivaldi em Londres as pessoas cantariam junto”, disse Solomon. “Mas na Bolívia as pessoas tomaram a música para si e entenderam a essência do que é a música”.