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Reino Unido procura túmulo do primeiro astro esportivo negro do planeta

Folheto não datado traz ilustração mostrando Bill Richmond - Handout via The New York Times
Folheto não datado traz ilustração mostrando Bill Richmond Imagem: Handout via The New York Times

Stephen Castle

Em Londres (Reino Unido)

29/10/2018 00h01

Nascido escravo em Staten Island, Nova York, em 1763, Bill Richmond partiu dos Estados Unidos em 1777 e nunca voltou, passando a maior parte de sua vida no Reino Unido. Mas somente quando tinha 40 anos começou a praticar boxe sem luvas, um esporte brutal que lhe trouxe fama, prestígio e um convite para a coroação do rei George 4º.

Ainda assim, mesmo em seu país de adoção, onde foi chamado de o primeiro superastro esportivo negro do mundo, ou um estereótipo, diriam alguns, a história de vida notável de Richmond foi quase esquecida.

Agora, quase dois séculos após sua morte, em 1829, Richmond está novamente em evidência, pois teve início uma busca pelos seus restos mortais.

Como parte de uma modernização ferroviária, uma das principais estações de Londres está sendo reformada, o que levou à escavação de um cemitério com os despojos de cerca de 45 mil londrinos, incluindo Richmond.

Enquanto abrem caminho no enorme terreno, retirando a camada superior do solo com escavadeiras e exumando manualmente os que estão enterrados lá, arqueólogos esperam identificar e sepultar novamente o boxeador que transcendeu o racismo obsceno de sua época para emergir como um herói esportivo. Para os fãs dele, esse é um grande momento.

"Ele foi o pioneiro do esforço esportivo negro", disse Luke G. Williams, autor da biografia "Richmond Unchained" ["Richmond libertado"], que vê seu biografado como o precursor de gigantes como Jesse Owens e Muhammad Ali. "Ele foi o primeiro esportista negro a conquistar o status de celebridade. Antes dele, ninguém conseguiu tamanho nível de proeminência nacional."

Richmond adotou o nome da cidade em Staten Island onde cresceu como escravo, na casa de Richard Charlton, pároco da igreja episcopal St. Andrews, e talvez, na opinião de Williams, seu pai que não o reconheceu.

O livro desmente a teoria de que Richmond atuou, aos 13 anos, como carrasco no enforcamento do revolucionário americano Nathan Hale, em 1776, atribuindo a confusão a um equívoco de identidade.

No entanto, foi graças a um militar inglês, o general de brigada Hugh Percy, que Richmond ganhou sua liberdade, deixou os Estados Unidos e recebeu alguma educação na Inglaterra, onde aprendeu o ofício de marceneiro.

Suas primeiras lutas podem ter sido motivadas por provocações raciais, mas sua carreira esportiva começou quando ele foi empregado por Thomas Pitt, o segundo lorde Camelford e barão de Boconnoc, um entusiasta de boxe e aristocrata fanfarrão, cuja vida turbulenta escandalizou a Inglaterra georgiana até sua morte, aos 29 anos, em um duelo tipicamente imprudente.

Richmond começou nas pelejas brutais sem luvas aos 40 anos e continuou até por volta de 55, vencendo 17 lutas e perdendo apenas duas. Ele foi mentor de outro escravo liberto, Tom Molineaux, e instruiu o ensaísta William Hazlitt (segundo relatos de lorde Byron) a ser "sparring". Richmond era tão famoso que esteve entre um grupo de pugilistas convidados para a coroação de George 4º em 1821, com a função de conduzir os convidados a seus lugares.

Arqueólogos escavam a região de St. James 'Gardens em Euston, Londres - HS2 Ltd. via The New York Times - HS2 Ltd. via The New York Times
Arqueólogos escavam a região de St. James 'Gardens em Euston, Londres
Imagem: HS2 Ltd. via The New York Times

Pouco se sabe sobre sua mulher, Mary, exceto que ela era inglesa e branca, ou sobre seus vários filhos. Mas Williams argumenta que Richmond superou as divisões de raça e classe social de sua época: sua educação e proximidade com os ricos o tornaram mais desenvolto socialmente do que muitos boxeadores ingleses que superaram a pobreza abjeta.

Para alguns, isso apenas ilustra as limitações impostas aos negros, muitas das quais persistem até hoje. "Sempre houve uma rota para a excelência negra por meio do esporte", disse Kehinde Andrews, professor de Estudos da Negritude na Universidade de Birmingham, que acrescentou que o sucesso no boxe ainda reforçava certos estereótipos associados aos negros.

De qualquer maneira, quase dois séculos após sua morte, os holofotes estão novamente sobre Richmond devido a um projeto de trens de alta velocidade que exigiu a reforma da Euston Station, no norte da cidade.

As obras implicam escavar cemitérios em Londres e Birmingham, assim como em outros sítios históricos ao longo da rota, no que Mike Court, o arqueólogo responsável pela primeira fase da High Speed 2, descreve como "o maior projeto arqueológico de todos os tempos no Reino Unido".

Após sua morte, Richmond foi enterrado no cemitério ao lado da Igreja de St. James, que foi construída em 1789 e demolida nos anos 1960. Outras figuras proeminentes enterradas ali foram o capitão Matthew Flinders, que liderou a primeira circunavegação da Austrália, e James Christie, que fundou a casa de leilões de arte Christie’s em 1766.

Williams espera que o esqueleto de Richmond seja recuperado e um exame de DNA possa dar indícios sobre sua ascendência. Caso se confirme que ele era filho do pároco, isso o tornaria tio de Elizabeth Ann Bayley Seton, a primeira mulher americana a ser canonizada pela Igreja Católica, comentou Williams.

Se os arqueólogos tiverem sorte, a placa com o nome de Richmond em seu caixão pode ter sobrevivido. Caso contrário, talvez seja possível identificá-lo pelas fraturas que certamente teve ou por uma lesão em um dos joelhos que ele amargou ao longo da carreira no boxe.

Na Inglaterra do século 19, a hierarquia social era tão rígida na morte quanto em vida, sendo os ricos sepultados mais perto da igreja. A parte perdida do cemitério incluía uma grande parcela na outra extremidade do terreno, onde os mais pobres eram enterrados.

E isso pode ter incluído Richmond, que, apesar de seu sucesso esportivo e carreira posterior como instrutor de boxe e dono de pub, terminou a vida em situação financeira penosa.

Ele, porém, não carecia de boas amizades e, após anos de rivalidade profissional, tornou-se um grande amigo de Tom Cribb, talvez o boxeador inglês mais conhecido de sua época e que então era dono do pub Union Arms.

Richmond passou a última noite de sua vida nesse pub na área central de Londres, rebatizado de Tom Cribb, que agora exibe uma placa em memória do "escravo liberto, boxeador e empresário".

Caso seus restos mortais sejam encontrados, poderá haver outro memorial, e Williams vê com bons olhos a atenção renovada a seu herói esportivo.

"Quero que mais pessoas conheçam a história dele", concluiu Williams.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves