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Crise econômica do Irã derruba classe média da noite para o dia

Kaveh Taymouri, funcionário de uma loja de videogames, em frente a sua casa em Teerã, no Irã - Arash Khamooshi/The New York Times
Kaveh Taymouri, funcionário de uma loja de videogames, em frente a sua casa em Teerã, no Irã Imagem: Arash Khamooshi/The New York Times

Thomas Erdbrink

Em Teerã (Irã)

28/12/2018 00h01

Há menos de um ano ele tinha uma próspera empresa de acessórios de computador, dirigia um carro novo e alugava um apartamento confortável de dois quartos no centro de Teerã. Mas no mês passado Kaveh Taymouri se viu rodando numa motocicleta enferrujada em sua viagem de uma hora até a nova residência da família, um apartamento de 45 metros quadrados em um dos piores bairros da cidade, vizinho de um grande cemitério.

Quando ele chegou em casa numa noite recente, às 22h30, vindo de seu novo emprego em uma casa de jogos eletrônicos, não havia comida no fogão. O sanduíche que ele tinha comido no almoço teria de bastar.

No entanto, sua mulher e ex-sócia na empresa, Reihaneh, disse achar que o humor dele estava melhorando.

"Pelo menos ele parou de gritar enquanto dorme", disse.

Antes de sua "queda", como eles a chamam, os Taymouris eram a família iraniana de classe média modelo, prósperos donos de empresa com nível universitário que ganhavam o suficiente para economizar para a entrada de uma casa própria. Hoje eles são um modelo de outro tipo: os milhões de iranianos de classe média que quase da noite para o dia viram sua vida encolher, arrastados para baixo por forças econômicas fora de seu controle.

A economia iraniana está em ruínas, assolada por anos de má administração e sanções econômicas renovadas.

O governo expandiu a oferta de dinheiro em mais de 30% ao ano durante mais de uma década, usando o dinheiro extra para cobrir deficits orçamentários e outras despesas. Nos EUA, em comparação, uma medida ampla da oferta de dinheiro aumentou em uma média anual de 6,4% em relação à última década, segundo o Federal Reserve (Banco Central).

Em consequência da rápida expansão da oferta de dinheiro no Irã, a inflação explodiu e, segundo números oficiais, hoje está em um índice anual de 35%, comparado com menos de 10% um ano atrás, segundo o professor de economia Djavad Salehi-Isfahani, da Universidade Tecnológica da Virgínia.

A decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de abandonar o acordo nuclear, conhecido formalmente como plano de ação conjunta e abrangente (JCPOA na sigla em inglês) e reimpor duras sanções econômicas levou ao outro grande desastre econômico ao Irã: o colapso da moeda, segundo Salehi-Isfahani. O rial perdeu cerca de 70% do valor em relação ao dólar, antes de se reforçar recentemente, mas sua cotação ainda flutua muito.

"A retirada estourou as expectativas de um boom econômico criado pelo JCPOA e o retorno do Irã à economia global, o que deveria aumentar as exportações de petróleo e o investimento estrangeiro", disse ele. "A inversão levou as pessoas a transformar seus riais em outros ativos, principalmente dólar e ouro."

Ao aumentar o custo das importações, o colapso cambial reforçou o surto inflacionário e dizimou pequenas empresas que, como a dos Taymouris, dependia de produtos importados.

Kaveh Taymouri, dizendo que era melhor deixar o dinheiro, ou a falta dele, falar por si mesmo, sentou-se e calculou a calamidade financeira que abalou a família no último ano. Sua renda mensal caiu de 50 milhões de riais, ou cerca de US$ 1.400 um ano atrás para 10 milhões de riais, ou US$ 90, na taxa atual extremamente desvalorizada.

Taymouri atribuiu a queda da moeda a especuladores, assim como ao governo, "que apenas ficou olhando". Outros culpam Trump.

"É realmente por causa de Trump ", disse Nasim Marashi, 29, autor do livro best-seller "Autumn Is the Last Season" [O outono é a última estação]. O livro, sobre a vida de três jovens de classe média de Teerã, teve 35 reedições em quatro anos. "Ele saiu do acordo nuclear, não do Irã."

Com uma população de aproximadamente 80 milhões, o Irã tinha há muito tempo uma extensa e próspera classe média, abrangendo de motoristas de ônibus a advogados e médicos, que ganhavam em média US$ 700 (cerca de R$ 2.800) por mês em moeda local, segundo autoridades. Essa receita era frequentemente composta por negócios colaterais não declarados no extenso mercado paralelo do país, e subsídios do governo que reduziam o custo dos serviços públicos, dos alimentos e da gasolina.

Politicamente influente, a classe média iraniana constantemente preferiu candidatos como o atual presidente, Hassan Rouhani, que apoiam melhores relações com o Ocidente. Mas raramente estiveram sob tamanha pressão econômica quanto estão hoje. Recentemente, pelo menos duas pessoas foram enforcadas depois de condenadas em julgamentos muito divulgados por manipular os mercados.

Em um sinal de que o governo está levando a questão a sério, Rouhani apresentou o orçamento de seu governo na terça-feira (25), que inclui mais apoio aos funcionários públicos e mais subsídios a produtos básicos.

Nem todos sofreram tanto quanto os Taymouris, cuja empresa era tão vulnerável ao colapso cambial. Mas Abbas Torkan, um ex-assessor de Rouhani, disse recentemente que a classe média encolheu 50%.

Até para quem tem renda mais alta, os tempos difíceis significaram uma súbita mudança no estilo de vida.

As receitas de direitos autorais do livro de Marashi caíram de 120 milhões de riais por mês para 20 milhões recentemente, disse ele. "Livros não são uma necessidade básica."

Por fora, Teerã parece exatamente a metrópole fervilhante que era. Novos restaurantes continuam abrindo. Uma versão teatral iraniana de "Les Misérables" esgotou os 3.500 ingressos todas as noites, pelo equivalente a US$ 16 por pessoa. Mas estão aparecendo rachaduras.

Nos supermercados, onde o custo de Red Bull, por exemplo, quadruplicou, as pessoas são vistas estudando cuidadosamente os preços. Alguns produtos importados, como ração para pets Purina, sumiram totalmente.

Para os Taymouris, a dor foi aparentemente instantânea. Eles se conheceram há cinco anos no trabalho, e entre beijos roubados junto à máquina copiadora descobriram que podiam ganhar dinheiro com uma empresa própria vendendo acessórios para computador.

De sua loja no centro de Teerã, o casal comprava teclados, cabos e outros acessórios de varejistas. Reihaneh Taymouri então os revendia no interior, enquanto o marido cuidava da loja e do financiamento em curto prazo para a empresa.

Um filho nasceu, e semanas antes de tudo desmoronar eles alegremente informaram aos pais que esperavam um segundo filho.

Mas em janeiro o rial começou a cair, e produtos como os acessórios dos Taymouris, que eram apreçados em dólares e euros, rapidamente se tornaram inacessíveis para a maioria dos iranianos. O telefone de Reihaneh parou de tocar e as vendas secaram.

Certa noite, disse Reihaneh Taymouri, "ele simplesmente chegou em casa, desabou no sofá e disse: 'acabou'".

Em um país que ainda coloca os endividados na cadeia, os Taymouris não tiveram alternativa senão honrar suas dívidas. Venderam o carro, os móveis e os tapetes que ganharam de presente de casamento.

Kaveh Taymouri vendeu a loja para o homem dos jogos eletrônicos sob a condição de que poderia trabalhar lá. Então eles se mudaram para o apartamento atual, que tem um chuveiro comunitário no corredor.

"Não gostamos daqui", disse ele, indicando o cemitério, um dos maiores do mundo. "Nós pretendíamos mudar para a zona norte, e não para junto dos mortos."

Kaveh Taymouri tirou sua filha bebê, Anita, do quarto minúsculo e sua mulher começou a chorar.

"Eu estava grávida quando tudo virou de ponta cabeça de repente em nossa vida", disse ela. "Admito que pensei em fazer um aborto. Mas apesar de tudo estou muito feliz por tê-la agora."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves