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Violência no interior do Congo atrapalha esforços para conter o ebola

Equipe administra a vacina contra o ebola aos moradores do distrito de Kanyihunga, na República Democrática do Congo - Diana Zeyneb Alhindawi/The New York Times
Equipe administra a vacina contra o ebola aos moradores do distrito de Kanyihunga, na República Democrática do Congo Imagem: Diana Zeyneb Alhindawi/The New York Times

Kimiko de Freytas-Tamura

Em Luseghe (República Democrática do Congo)

28/12/2018 00h01

Quatro profissionais de saúde desciam cautelosamente um vale íngreme usando botas de borracha, em meio a uma floresta tão densa e tão alta que o ar ao redor deles se tornou repentinamente frio, tentando chegar a uma aldeia remota no leste da República Democrática do Congo, onde uma mulher morreu recentemente de ebola.

O médico Kasereka Bernardin, um vacinologista, olhou por sobre seu ombro, fez o sinal da cruz e reconheceu que o vírus letal não era seu medo mais imediato.

"Temos medo dos Mai-Mai", ele disse, usando um termo local para as milícias, com sua testa coberta levemente por gotas de suor. "Temos medo de que possam nos matar."

A viagem já tinha sido adiada pelos choques entre as forças do governo e uma milícia no distrito de Kanyihunga ao redor, uma área de novo surto de ebola, e os nervos estavam à flor da pele. A equipe, um epidemiologista, dois pesquisadores e Bernardin, não conseguiu obter garantias de passagem segura dos líderes da milícia, nem mesmo fazer contato.

Mas apesar de preocupados com sua segurança, a cada hora que passava os médicos temiam ainda mais a possibilidade do vírus mortal se espalhar por toda a aldeia, Luseghe, ou pior, se disseminar além de seus limites.

Ocorreram recentemente muitos avanços esperançosos na batalha contra o mortífero vírus ebola. Uma vacina já está disponível e tratamentos experimentais parecem estar ajudando a salvar vidas. Com ajuda internacional, o Congo conseguiu conter rapidamente um surto anterior em sua província de Équateur neste ano.

Mas o leste do Congo, com não menos de 100 grupos armados, está tomado por conflito quase constante desde o levante que levou à sua independência em 1960, assim como desde o genocídio em 1994 na vizinha Ruanda e a guerra civil que ocorreu logo em seguida que acabou por estabelecer o regime de Joseph Kabila.

Acredita-se que milhões tenham morrido com a violência crônica, muitos pelas mãos das forças do governo. A insegurança está frustrando os esforços para combater este mais recente surto de ebola, já o segundo maior da história, após o que assolou o Oeste da África de 2014 a 2016, resultando em 11.310 mortes, o que torna a crise atual quase que totalmente fabricada.

O ebola ainda mata a maioria das pessoas que o contrai. Desde que o surto foi declarado aqui em agosto, as autoridades de saúde registraram 583 casos confirmados e suspeitos até 25 de dezembro. Cerca de um terço dos pacientes se recuperou, enquanto 354 morreram.

As autoridades de saúde congolesas e seus parceiros internacionais esperam que o combate ao ebola se arraste ano que vem adentro. A maior preocupação é que, se não for controlada, a epidemia possa chegar a Goma, a capital regional.

"Se chegar a Goma, estamos perdidos", disse o médico Jean-Christophe Shako, o diretor da equipe local de resposta ao ebola, cuja tarefa exige negociação com as milícias, para que os profissionais de saúde possam entrar em seus territórios e ter sua segurança garantida. A cidade fica na fronteira movimentada com Ruanda e tem um aeroporto internacional que pode dispersar a doença globalmente.

Aventurando-se no território da milícia

As pessoas na zona do ebola nutrem enorme suspeita de forasteiros, sejam eles soldados do governo ou profissionais de saúde, e com frequência evitam visitantes, às vezes de forma ameaçadora. Antes de partirem para Luseghe, os profissionais de saúde discutiram os riscos de segurança de forma animada, particularmente se seria seguro serem acompanhados por dois jornalistas ocidentais.

Eles finalmente decidiram que era seguro o bastante e ao partirmos para Luseghe, não podíamos deixar de nos perguntar que tipo de recepção receberíamos.

Deixando Butembo, uma cidade movimentada no leste do Congo, o comércio rapidamente dá lugar à floresta. A região é montanhosa, com vales profundos repletos de eucaliptos, abacateiros e bananeiras, com suas folhas largas bloqueando a entrada da luz do sol nas entranhas escuras da floresta.

A vegetação se tornou tão densa que era difícil ver mais que poucos metros em qualquer direção para saber o que ou quem pudesse estar à espreita ali.

À medida que a estrada encolhia, os soldados e policiais que nos escoltavam davam meia-volta. Dali, prosseguiríamos em direção a Luseghe a pé e sem escolta, já que os profissionais de saúde precisavam demonstrar sua neutralidade aos aldeões.

Ao nos aproximarmos de Luseghe, tínhamos motivo para estarmos apreensivos. Cidadãos comuns são rotineiramente brutalizados tanto pelos grupos armados quanto pelas forças do governo, que são acusadas de extorquir taxas ilegais e estuprar e matar civis com impunidade. Muitas das Mai-Mai começaram como grupos de autodefesa formados para proteção das aldeias contra soldados hostis.

Os civis com frequência não sabem em quem confiar e acabam rechaçando todos os forasteiros. Quando a polícia tentou recentemente levar de sua família um bebê de duas semanas de idade infectado, a avó do bebê saiu de sua casa empunhando um facão e ameaçou matá-los.

A suspeita é aumentada pelos políticos locais de oposição, que exploram a crise às vésperas das eleições nacionais deste mês, espalhando rumores de que o ebola foi planejado pelo governo visando exterminá-los. As pistolas termômetro apontadas para as testas das pessoas para tomar sua temperatura, dizem os políticos, são armas para roubar votos. O ebola, às vezes eles também dizem, foi trazido pelos estrangeiros.

Perito biomédico, epidemiologista e diplomata

Como diretor de uma equipe de resposta ao ebola, Shako está no centro do esforço para conter a doença e está profundamente preocupado pela violência estar frustrando, até mesmo impedindo, os esforços para socorrer as pessoas.

"Eu me preocupo porque não sei como chegar a essas pessoas que precisam de nossa ajuda", disse Shako, 49 anos, em seu consultório em Butembo.  "Precisamos salvá-las."

O surto teve início na cidade rural de Mangina, dizem as autoridades de saúde, e foi disseminado por membros de uma única família estendida. Devido aos rumores persistentes de que morreriam se fossem a um centro de tratamento, eles fugiram para evitar as autoridades.

O vírus então correu pelos postos de saúde informais, onde curandeiros tradicionais mantêm poucos registros de seus pacientes, o que dificulta para as autoridades rastrear e interromper as cadeias de transmissão.

As guerras intermináveis da região adicionaram uma nova função a Shako, a de diplomata. Antes de poder realizar seu trabalho em biomedicina e epidemiologia, ele primeiro busca persuadir os grupos armados a abrirem seu território e garantir a segurança dos profissionais de saúde e de ajuda humanitária.

Pode ser um negócio arriscado. Os atos de violência irrompem de forma imprevisível, com os civis com frequência sendo as maiores vítimas. Duas semanas atrás, por exemplo, um notório grupo rebelde esquartejou uma dúzia de civis aparentemente sem motivo, matando 17 soldados adicionais que tentaram recuperar os corpos. Há um dia, outros quatro civis foram mortos em um ataque separado.

Shako diz escolher suas palavras com cuidado ao abordar os líderes das milícias, que desconfiam de ardis do governo. "Uma pequena palavra equivocada pode arruinar tudo", ele disse, acrescentando que lhes diz, "o vírus, o inimigo, é mais forte do que nós".

Ele até mesmo veste roupas sujas e leva sabão aos encontros com as milícias. "Eles ficam furiosos ao verem alguém mais limpo do que eles", ele riu. "É sério." O processo pode levar dias, mas na maioria dos casos as milícias acabam aceitando que o médico está tentando ajudar.

Quando eles finalmente conseguem chegar aos doentes, os profissionais de saúde contam com uma série impressionante de novos tratamentos ao seu dispor. Quatro drogas estão sendo testadas no Congo e grupos de atendimento de saúde dizem que todas elas parecem estar funcionando.

A Aliança para a Ação Médica Internacional, uma organização de ajuda francesa, desenvolveu cubos plásticos "biosseguros" onde os pacientes que precisam de tratamento intensivo são colocados. Os cubos reduzem o risco de contaminação e permitem aos médicos tratar dos pacientes sem a necessidade de vestirem trajes protetores.

Os profissionais de saúde também adotam medidas visando respeitar as tradições locais, ajudando a derrubar barreiras que possam atrapalhar o tratamento. Isso pode ser algo simples, como enterrar os mortos em sacos de corpos colocados dentro de caixões, em vez de colocarem as vítimas em uma sepultura apenas em sacos de corpos.

Os sobreviventes do ebola, que são imunes ao vírus e estão crescendo em número, são recrutados para cuidar dos órfãos que foram infectados por seus pais.

Bem recebidos em Luseghe

Nos arredores de Luseghe, fomos recebidos por Didi, um sobrinho da vítima do ebola, a srta. Kambere. Ele guiou o grupo até o gramado em frente à casa da morta, onde familiares estavam reunidos em luto.

Nossa preocupação com uma recepção fria, ou mesmo ameaçadora, por parte dos aldeões provou ser infundada. A maioria estava sentada de forma calma, trajando suas melhores roupas, comendo e conversando.

Didi, que cuidou de sua tia e era o que apresentava maior probabilidade se ser infectado pelo ebola, persuadiu os aldeões a considerarem o tratamento. Ele disse estar impaciente para receber a vacina, pensando erroneamente que poderia salvá-lo. "Sei que não é uma doença imaginária", ele disse, gesticulando. "Eu a vi com meus próprios olhos."

O méfico Bernardin, o vacinologista que estava apreensivo com a visita à aldeia, ouvia e enxugava sua testa, parecendo aliviado.

Após assegurarem que o vilarejo estava seguro, os médicos fizeram planos para retornar no dia seguinte para desinfetar a casa da srta. Kambere. Eles então tentaram persuadir os aldeões a virem com eles para serem vacinados ou tratados, algo que tinha que ser feito em Kanyihunga.

Apenas um punhado concordou, Didi entre eles. Então partiram, subindo o vale, onde autoridades de saúde aguardavam por eles.

Tradutor: George El Khouri Andolfato