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Cidade mais feliz do mundo é finlandesa e tem série de serviços bancada pelo Estado

Um coral ensaia no Centro de Educação de Adultos em Kauniainen, na Finlândia - Lena Mucha/The New York Times
Um coral ensaia no Centro de Educação de Adultos em Kauniainen, na Finlândia Imagem: Lena Mucha/The New York Times

Patrick Kingsley

Em Kauniainen (Finlândia)

02/01/2019 00h01

Jan Mattlin estava tendo o que é considerado um dia ruim em Kauniainen.
 
Ele havia ido de carro até a estação ferroviária da cidade e não encontrou nenhum lugar para parar. Levemente irritado, ele ligou para o jornal local para sugerir uma pequena matéria sobre a falta de vagas de estacionamento.
 
Para surpresa de Mattlin, o editor pôs a matéria na primeira página.
 
"Temos pouquíssimos problemas aqui", lembra Mattlin, sócio de uma firma de private equity. "Talvez eles não tivessem outras notícias para colocar".
 
É assim a vida de sonho em Kauniainen, uma pequena e rica cidadezinha finlandesa que pode se afirmar como o lugar mais feliz do planeta.
 
A Finlândia foi eleita em abril o país mais feliz do mundo pela Rede de Soluções Para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, com base em resultados de pesquisas feitas em 156 países. E uma segunda enquete revelou que os 9.600 moradores de Kauniainen eram os mais satisfeitos da Finlândia, o que levou seu prefeito, Christoffer Masar, a brincar que essa seria a cidade mais feliz do planeta.
 
Alguns finlandeses ficaram surpresos; uns poucos, até mesmo descontentes.
 
Para o resto do mundo, o estereótipo do finlandês é melancólico, introvertido e mais propenso ao suicídio do que a maioria das outras nacionalidades. Os próprios finlandeses acreditam em parte do estereótipo: se um estranho sorri para você na rua, diz um provérbio finlandês, ou ele está bêbado, ou é estrangeiro ou maluco.
 
"Meu problema como a palavra 'felicidade' é que nunca sabemos do que estamos falando quando falamos de felicidade", disse o professor Frank Martela, que pesquisa bem-estar na Universidade de Helsinque, e cresceu a poucos quilômetros de Kauniainen. "Podemos estar nos referindo à satisfação com a vida, ou a estarmos alegres todos os dias. É meio ambíguo".
 
Será que a felicidade realmente pode ser medida? E se isso for possível, será que os finlandeses realmente são tão felizes assim?
 
Para tentar responder a essas perguntas, uma viagem a Kauniainen parecia obrigatória.
 
Os motivos para a felicidade não são imediatamente óbvios logo que se chega à cidade.
 
Kauniainen, que fica no subúrbio da capital finlandesa Helsinque, é bonita, mas não deslumbrante, com uma série de grandes casas espalhadas por entre pinheiros de um bosque esparso, em torno de uma praça sem nada de especial.
 
Nesta época do ano, só começa a ficar claro de verdade após as 9h, e volta a escurecer às 15h.
 
Pergunte a um morador se ele se sente feliz. Você terá uma resposta comedida, mas dificilmente extasiada.
 
"O que é felicidade?", perguntou retoricamente o prefeito Masar, durante um almoço no mês passado, na única delicatessen da cidade.
 
No Moms, único bar da cidade que fica aberto até mais tarde, alguns membros de um time de futebol lamentavam a derrota daquela tarde, sarcásticos, mas circunspectos.
 
"Quando perdemos", disse com uma expressão impassível Antti Raunemaa, executivo do setor de construção civil, "nós só ficamos felizes depois da segunda cerveja".
 
A atendente do bar sugeriu outra parada para encontrar mais sorrisos. "Talvez o McDonald's em Espoo?", disse Jenny Lindholm, referindo-se à cidade vizinha. "Não há outro lugar, na verdade".
 
No entanto, havia. Mas não em um lugar onde um caçador de felicidade poderia esperar, a princípio.
 
O Centro de Educação Adulta de Kauniainen, com seu nome sem graça, não soava promissor. Mas era ali naquele prédio alto nos limites da cidade, e não no bar, que muitos dos moradores estavam se divertindo naquela noite.
 
No porão, eles teciam tapetes em grandes teares e torneavam peças de cerâmica. No térreo, um coral cantava. Nos andares de cima, outros pintavam réplicas de ícones cristãos ortodoxos ou praticavam ioga.
 
Subsidiado tanto pelo governo estadual quanto municipal, o centro oferece aulas noturnas baratas para moradores "de basicamente qualquer coisa em que as pessoas possam estar interessadas", disse Roger Renman, diretor do centro.
 
Cerca de 15% da população da cidade está matriculada no centro em algum momento, sendo que algumas pessoas pagam menos de um dólar por hora de aula, dependendo da atividade.
 
É possível encontrar centros parecidos em toda a Finlândia, mas o de Kauniainen é especialmente ativo, para uma cidade desse tamanho.
 
É esse tipo de serviço que faz da cidade um lugar mais feliz do que a maioria, supõe Seija Soini, uma empresária aposentada que participava de uma aula de pintura.
 
"A principal razão é que as pessoas têm algo para fazer coisas como isto!", disse Soini, enquanto pintava um retrato de sua sobrinha. "É como uma terapia".
 
E o centro de educação é somente a linha de frente nas opções de atividades da cidade para seus habitantes. O que Kauniainen carece de vagas de estacionamento, ela abunda em serviços financiados pelo Estado.
 
Só nesta pequena cidade, há mais de cem centros esportivos e culturais, todos eles subsidiados de alguma forma pelo governo local: clubes para a minoria falante de sueco, clubes para a maioria finlandesa, uma pista de esqui, uma escola de música para crianças, uma escola de artes para crianças, um estádio de atletismo, uma pista de patinação no gelo e até mesmo uma escada para exercícios ao ar livre conhecida como "kuntoportaat", que permite que as pessoas mantenham a forma subindo e descendo seus degraus.
 
Quando os moradores discutiram, duas décadas atrás, se deveriam construir uma pista de hóquei no gelo ou uma quadra de handebol, o conselho municipal resolveu a disputa financiando ambas.
 
A única instituição cuja ausência se faz evidente é uma delegacia de polícia, desnecessária neste lugar com índices mínimos de criminalidade.
 
Tudo isso complementa um sistema de saúde universal bom e barato, educação superior gratuita e creches acessíveis.
 
Para pagar tudo isso, os impostos são altos para os padrões americanos: alguém que ganhe US$ 45 mil pode pagar mais do que o dobro de impostos na Finlândia, comparado com alguns Estados americanos.
 
Mas os moradores dizem que conseguem sentir o retorno: uma sociedade com pouca desigualdade, muitas oportunidades e um sentimento forte de solidariedade.
 
"Para mim, felicidade tem a ver com estar satisfeito com sua vida e as possibilidades que você tem na vida", disse Finn Berg, ex-presidente do conselho municipal. "E se você coloca dessa forma, então este é um lugar feliz, porque temos muitas possibilidades aqui".
 
 

Tradutor: UOL