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Muro na fronteira entre EUA e México poderia prejudicar o meio ambiente

Um lobo cinzento mexicano no Refúgio Nacional de Vida Silvestre de Sevilleta, no Novo México (EUA) - Jim Clark/U.S. Fish and Wildlife Service via The New York Times
Um lobo cinzento mexicano no Refúgio Nacional de Vida Silvestre de Sevilleta, no Novo México (EUA) Imagem: Jim Clark/U.S. Fish and Wildlife Service via The New York Times

John Schwartz

26/01/2019 00h01

Enquanto persiste a briga em torno da exigência do presidente americano, Donald Trump, de estender o muro da fronteira entre os Estados Unidos e o México, uma coisa já está clara: independentemente do efeito sobre a imigração, o muro teria um impacto sobre o habitat da região fronteiriça.
 
Já existem pouco mais de 1.000 km de muros ao longo da fronteira de 3.200 km entre os dois países. A maior parte foi construída sobre terras federais, onde o terreno não oferece nenhuma barreira natural. Trump quer um muro de 1.600 km, que se estenderia sobre terras que incluem habitats importantes para a vida selvagem.
 
Uma diretriz da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CPB, sigla em inglês) diz que a agência "integrará administração ambiental e práticas de sustentabilidade nas operações e nas atividades". Mas o Congresso deu à agência poder de dispensar proteções ambientais como a Lei das Espécies Ameaçadas. Tais leis poderiam exigir do governo uma análise de impacto ambiental aprofundada de um novo projeto, a criação de alternativas menos prejudiciais e a realização de monitoramento ambiental após a construção.
 
Não havia nenhum porta-voz disponível da CPB devido à paralisação parcial do governo, resultado de um impasse político em torno do financiamento do muro.
 
Um artigo publicado no ano passado pela revista "BioScience", assinado por mais de 2.900 cientistas, disse que o plano do governo "ameaçaria algumas das regiões de maior biodiversidade do continente" ao impedir a livre movimentação de muitas espécies e ao contribuir para as inundações. Mais de 1.500 espécies nativas de plantas e animais seriam afetadas pelo muro, segundo o artigo, incluindo 62 que estão classificadas como em perigo ou vulneráveis.
 
Estes são alguns dos possíveis efeitos que uma ampliação do muro da fronteira poderia ter sobre a vida silvestre:
 
Animais ficariam ilhados
 
Um muro ampliado na fronteira impediria a circulação de muitas espécies e colocaria em risco criaturas que já se encontram sob pressão.
 
Aaron D. Flesch, pesquisador da Universidade do Arizona, disse não ter dúvidas de que humanos, com sua criatividade, conseguiriam escalar um muro. Mas a construção barraria muitas criaturas de quatro patas, segundo ele.
 
Até mesmo algumas aves que voam baixo, como a coruja-caburé, poderiam encontrar dificuldades. "As pessoas pensam que uma ave simplesmente voa por cima de um muro, mas não é necessariamente o que acontece", disse Flesch.
 
Os animais precisam conseguir se deslocar, para encontrar alimento e se acasalar, entre outras coisas. Incêndios, surtos de doenças ou as pressões da mudança climática podem forçá-los a procurar novos lares. E os bolsões com ambientes adequados para eles podem estar muito dispersos.
 
Pequenas populações de animais em risco, como o lobo-mexicano e o antilocapra, podem ficar ilhadas em um dos lados da fronteira, aumentando a probabilidade de extinção de algumas espécies. "Para uma criatura que está quase extinta nos Estados Unidos, é necessário promover a conectividade, e não restringi-la", disse Flesch.
 
Até insetos e plantas podem ser afetados
 
Insetos que voam baixo também poderiam ser afetados por um muro na fronteira. Pesquisadores da Universidade do Texas consideram a flor silvestre Physaria thamnophila (status: em perigo) e o cacto Coryphantha ramillosa (status: ameaçado) como espécies particularmente em risco, e a Federação Nacional de Vida Selvagem cita a borboleta Euphydryas editha quino, entre outros.
 
Muitos polinizadores já estão em declínio devido à perda de habitat, segundo Scott Hoffman Black, diretor executivo da Xerces Society, organização de conservação com foco em invertebrados. "Essa é mais uma questão que colocará pressão sobre as abelhas e as borboletas, e elas já estão estressadas com muitas, muitas questões", disse. Os novos trechos de muro, com "zonas de patrulhamento", poderão ser um estorvo para muitos bichinhos alados.
 
Outro especialista expressa dúvidas de que o muro em si vá ser uma grande barreira para insetos voadores, mas disse que ainda assim o muro apresentaria um enorme problema para alguns deles.
 
O especialista, David L. Wagner, professor de ecologia e biologia evolucionária na Universidade de Connecticut, observou que a maioria dos insetos consegue voar alto o suficiente para transpor um muro. Mas a variedade de luzes que fariam parte de qualquer construção desse tipo, segundo ele, perturbaria a vida de criaturas noturnas como mariposas e até mesmo vertebrados que dependem da escuridão.
 
"A poluição luminosa está se revelando um verdadeiro problema para os animais noturnos", disse. "Estão mexendo na estrutura desses ecossistemas".
 
É claro, existem construções iluminadas em muitos lugares. Mas Wagner disse que havia pouca diferença entre um muro de fronteira e um Walmart. De qualquer forma, segundo ele, "é massacre".
 
Refúgios de vida selvagem podem ser divididos
 
A construção perturbaria vários trechos de terra que foram designados parte do Sistema de Refúgio Nacional de Vida Selvagem, além de outras preciosidades como o Centro Nacional de Borboletas, uma reserva natural particular ao longo do Rio Grande em Mission, no Texas. A construção que avança no santuário de 40 hectares poderá começar já no próximo mês, separando cerca de 28 hectares do lado americano da reserva.
 
Após protestos de ambientalistas e autoridades locais, o Congresso votou no ano passado a favor da proteção de uma joia ambiental, o Refúgio de Vida Selvagem Nacional de Santa Ana, um "cruzamento ecológico" de 850 hectares para pássaros migratórios perto de McAllen, no Texas, ao se recusar a reservar dinheiro à construção do muro que o atravessaria.
 
Mas defensores ambientais dizem que são vastas as áreas que ficarão desprotegidas, e as perdas de biodiversidade se estenderão muito além da fina linha da fronteira. Como colocou a revista "Texas Monthly", "o financiamento federal do muro da fronteira poupa um refúgio da vida selvagem, mas não muito mais".
 
Pode haver perda de receita de turismo
 
Devido à riqueza ambiental em torno de vários trechos da fronteira, a região atrai turistas interessados em caça e pesca e, principalmente, em ecoturismo.
 
Observadores de pássaros já avistaram mais de 500 espécies nos quatro condados que compõem o Vale do Baixo Rio Grande. Um estudo de 2011 feito pela Universidade Texas A&M calculou que a observação de pássaros e outras formas de turismo ambiental movimentavam mais de US$ 344 milhões (quase R$ 1,3 bilhão) em atividade econômica na região, e cerca de 4.400 empregos.
 
Os autores do artigo publicado pela "Bioscience", incluindo Flesch, disseram que o governo deveria proteger o "valor cultural" das regiões fronteiriças. "A segurança nacional pode e deve ser feita com uma abordagem que preserve nosso patrimônio natural", escreveram.
 

Tradutor: UOL