PUBLICIDADE
Topo

Como Nova York se transformou em um centro de tecnologia

O horizonte de Manhattan em Nova York - Robert Wright/The New York Times
O horizonte de Manhattan em Nova York Imagem: Robert Wright/The New York Times

Steve Lohr

Em Nova York (EUA)

25/02/2019 00h01

Euan Robertson começou seu trabalho na equipe de desenvolvimento econômico da cidade de Nova York em um momento difícil. Foi na segunda-feira, 15 de setembro de 2008, o dia em que o banco Lehman Brothers pediu falência e deu início à crise financeira.
 
Ele se juntou a importantes assessores para discutir a situação com o prefeito Michael Bloomberg. "Ninguém sabia o que ia acontecer ou quão ruim as coisas ficariam", lembrou Robertson. "Mas todos concordaram que era melhor elaborarmos um plano."
 
O plano que surgiu pedia pelo desenvolvimento de startups de tecnologia e de trabalhadores de tecnologia em Nova York. A meta, disse Robertson, era "construir um motor de talento" que ajudaria a tornar a cidade um ímã para codificadores e empresas.
 
Uma década depois, há ampla evidência de que a cidade está caminhando para atingir sua meta. A decisão repentina da Amazon, na semana passada, de abandonar seu plano para construção de um grande campus no Queens, diante dos protestos de alguns políticos e ativistas comunitários locais, é um revés, mas não um capaz de reverter a escalada do setor de tecnologia na cidade.
 
A Amazon já emprega 5.000 funcionários em Nova York e o pool de talento da cidade foi a principal razão, disse a empresa, para ter escolhido Nova York em novembro. Em dezembro, a Google anunciou uma grande expansão que poderia dobrar sua força de trabalho em Nova York para 14 mil ao longo da próxima década, sem os ricos incentivos públicos que provocaram tantos protestos contra o acordo com a Amazon.
 
Hoje, a cidade é lar de milhares de novas empresas e a região de Nova York regularmente só perde para a Área da Baía de San Francisco na atração de capital de risco, o sangue vital da economia das startups. O setor de tecnologia da cidade se tornou uma fonte de empregos que pagam em média mais de US$ 150 mil por ano, uma parte importante da economia local.
 
A história da ascensão do setor de tecnologia em Nova York remonta quase duas décadas. Foi uma trajetória acidentada, com progresso tanto planejado quanto por acaso. A DoubleClick, uma sobrevivente do estouro da bolha pontocom e uma pioneira na propaganda digital, e a Google, que fez uma aposta inicial na cidade, exerceram papéis fundamentais. E a administração do prefeito Michael Bloomberg também adotou políticas inteligentes.
 
Mas o setor de tecnologia se enraizou em Nova York graças principalmente aos empreendedores, tecnólogos e empresas que escolheram a cidade como lugar para trabalhar e viver, ao mesmo tempo que vários setores da cidade passavam por transformações digitais, segundo entrevistas com mais de duas dúzias de pessoas que contribuíram para a evolução da cidade em um centro de tecnologia.
 
"A verdade é que conseguimos pegar uma onda", disse Seth Pinsky, presidente da Corporação de Desenvolvimento Econômico da Cidade de Nova York de 2008 a 2013.
 
Muitos dos empregos de tecnologia da cidade não são em empresas de tecnologia. Em vez disso, eles estão ligados a setores onde a cidade há muito está posicionada como líder mundial, como finanças, publicidade e propaganda e mídia. Esses setores enfrentaram ameaças com a ascensão da era digital e tiveram que se adaptar para competir, ajudando a revitalizar a economia da cidade no processo. Há duas vezes mais empregos de tecnologia em setores que não são de tecnologia em Nova York do que em empresas de tecnologia, segundo a Emsi, uma empresa de pesquisa do mercado de trabalho.
 
A proposta confidencial de Nova York à Amazon, codinome Projeto Clancy, que estava repleta de dados detalhados sobre a força de trabalho e o mercado de trabalho da cidade, apontava para essa mudança. A Amazon perguntou, por exemplo, que empresas tinham mais aberturas de vagas em aprendizado de máquina, que exige capacitação fundamental em inteligência artificial. As quatro maiores, segundo a proposta, eram o bancos JPMorgan Chase, Goldman Sachs, Citigroup e a empresa de serviços e auditoria KPMG. Empatadas em quinto lugar estavam a Amazon e Google.
 
Trabalhadores capacitados em tecnologia agora vêm de todas os lugares para Nova York. Mas o motor de talentos que as autoridades municipais buscaram criar há uma década também está contribuindo. O novo campus de pós-graduação em tecnologia da Universidade Cornell, na Ilha Roosevelt, um produto do plano de desenvolvimento da cidade, conta com 300 estudantes, com planos para uma população estudantil de 2.000 ao longo das duas próximas décadas. E novos cursos, prédios e institutos de pesquisa estão em andamento na Universidade de Columbia, na Universidade de Nova York e na Universidade Municipal de Nova York.
 
E os trabalhadores são atraídos pelos confortos urbanos, como museus, teatro, ópera, dança, clubes de jazz, galerias de arte, bares e restaurantes, que oferecem uma clara alternativa à vida no suburbano Vale do Silício.
 
"O recurso principal em tecnologia são as pessoas inteligentes", disse Kevin Ryan, um antigo empreendedor em tecnologia. "O setor de tecnologia de Nova York está tendo sucesso porque Nova York está tendo sucesso."
 
Em 2003, Craig Nevill-Manning, um cientista da computação da Google, quis montar um posto avançado de engenharia e pesquisa em Nova York. Os líderes da empresa não tinham grandes esperanças, por acharem que todos os melhores engenheiros de software estavam no Vale do Silício. Mas lhe disseram que podia seguir em frente caso encontrasse talentos "dignos da Google" em Nova York, e ele encontrou, contratando 25 pessoas no primeiro ano.
 
Em 2006, o Google, àquela altura uma estrela no Vale do Silício, já estava se estabelecendo em peso na cidade, se mudando para um prédio que ocupava toda uma quadra em Chelsea. A empresa precisava de espaço, já que o Google expandia constantemente sua força de trabalho em Nova York, chegando hoje a 7.000, mais da metade disso funcionários técnicos. Em dezembro, a empresa anunciou que gastaria US$ 1 bilhão ou mais em espaço de escritório no centro de Manhattan.
 
O relacionamento do Google com a capital do setor de publicidade e propaganda do país foi cimentado em 2007, quando a Google anunciou que compraria a DoubleClick por US$ 3,1 bilhões.
 
"Quando o Google comprou a DoubleClick, tudo realmente decolou", disse Randall Rothenberg, presidente-executivo da Interactive Advertising Bureau, uma associação setorial. "Foi um ponto de virada para o negócio de publicidade e propaganda digitais em Nova York."
 
Em centros tecnológicos saudáveis, startups geram outras startups. Esse tem sido o padrão no Vale do Silício desde os primórdios da fabricação de chips, jovens refugiados empreendedores do Shockley Semiconductor Laboratory sairiam para formar a Fairchild Semiconductor e posteriormente a Intel.
 
Mas em Nova York, o círculo virtuoso de reprodução de startups só acelerou nos últimos anos. Levou tempo, disseram empreendedores e investidores, para a comunidade de tecnologia de Nova York construir as histórias de sucesso, as redes de contato humanas e a autoconfiança que inspiram a tomada de risco serial.
 
Para a maioria dos recém-formados, o colapso financeiro de uma década atrás é uma lembrança distante. Hoje, não é Wall Street, mas sim as grandes empresas de tecnologia, como Facebook e Google, que estão sob fogo. Seus modelos de negócios, baseados na coleta de dados do consumidor e anúncios direcionados, as colocaram no centro das preocupações globais com privacidade e notícias falsas.
 
Isso representa atualmente uma oportunidade de recrutamento para R. Martin Chavez, vice-presidente do Goldman Sachs, que também é um cientista da computação com Ph.D. por Stanford. Em eventos de recrutamento, seu argumento é dizer que Google e Facebook fizeram "coisas incríveis" e rapidamente acrescentando: "Se você quiser trabalhar em publicidade e propaganda, é para onde você deve ir. Caso queira usar matemática e software para solucionar problemas difíceis para governos, empresas e outras instituições, deveria vir trabalhar para o Goldman Sachs".
 
À medida que cresce o setor de tecnologia de Nova York, autores de políticas e executivos esperam ampliar seu alcance além de Manhattan e partes mais ricas do Brooklyn. Fred Wilson, um investidor e capitalista de risco em Nova York há mais de três décadas, viu um sinal de alerta nos protestos em Long Island City, Queens, devido à notícia de que a Amazon planejava se mudar para lá.
 
"Isso se deve em parte ao senso dela de que não a ajudaria e apenas elevaria os custos", disse Wilson sobre a comunidade. "Para realmente ser um sucesso em Nova York, os benefícios do setor de tecnologia precisam se estender a todos os distritos e todos os bairros."

Tradutor: George El Khouri Andolfato