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Coreanos que vivem no Japão abraçaram a Coreia do Norte enquanto o mundo a evita

Jiro Oshima e sua neta Misa An olham velhos álbuns de fotos de suas viagens à Coreia do Norte para visitar a família - Andrea DiCenzo/The New York Times
Jiro Oshima e sua neta Misa An olham velhos álbuns de fotos de suas viagens à Coreia do Norte para visitar a família Imagem: Andrea DiCenzo/The New York Times

Motoko Rich

Em Tóquio

27/02/2019 00h01

Toda vez que Jiro Oshima quer ver seus irmãos, ele precisa viajar até a Coreia do Norte.

Oshima, 79, professor aposentado, toma um voo do Japão até Pequim, depois outro até Pyongyang, levando consigo presentinhos como doces e roupas íntimas, e itens que seus irmãos possam vender: roupas de bebê, remédios e sapatos.

Ele já fez esse trajeto mais de doze vezes desde os anos 1960, quando seus pais e irmãos se mudaram para a nação comunista como parte de um programa de repatriação praticamente esquecido pelo mundo.

Agora que o presidente Donald Trump e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, se encontram em uma segunda reunião de cúpula, no Vietnã, há expectativas de que uma aproximação política possa tirar o Norte de seu longo isolamento. Talvez em nenhum outro lugar essa expectativa seja tão grande quanto entre os indivíduos de etnia coreana que residem no Japão, como Oshima, uma comunidade que abraçou a Coreia do Norte enquanto o resto do mundo a isolava.

Estima-se que cerca de 322 mil japoneses de etnia coreana sejam membros de famílias que chegaram durante a ocupação japonesa da Coreia que durou 35 anos. Conhecidos como zainichis, a maioria tem sua origem naquela que hoje é a Coreia do Sul.

No entanto, boa parte da população há muito tempo passou a se identificar mais com o Norte, que os cortejou nos primeiros anos da Guerra Fria com propaganda e financiamento para grupos comunitários e escolas.

Hoje há zainichis vivendo e trabalhando em todo o Japão. Ao longo das décadas, o dinheiro que eles enviaram a parentes na Coreia do Norte ajudou a manter a economia da nação, enquanto espiões tentavam obter informações junto a eles.

A história dos Oshimas é típica. Assim como milhares de outras famílias, eles foram pegos em um beco sem saída da história, expulsos pela Segunda Guerra Mundial, separados e isolados pela Guerra Fria.

“Até onde me lembro, sempre foi o sonho do povo zainichi ver o Norte e o Sul reunificados”, disse Oshima. “Seria tão bom se isso pudesse ter acontecido um pouco antes”, acrescentou, tentando conter a emoção.

Quase 2 milhões de coreanos vieram ao Japão em busca de trabalho ou usados em trabalhos forçados antes e durante a Segunda Guerra Mundial. A maioria voltou após a rendição do Japão. Mas centenas de milhares permaneceram, enquanto a Península Coreana era dividida em duas nações e, alguns anos depois, entrava na Guerra da Coreia.

A partir do final dos anos 1950, o Japão se ofereceu para ajudar a repatriar os zainichis, dentre os quais muitos se sentiam atraídos pelas promessas socialistas da Coreia do Norte e por uma economia que na época era maior que a do Sul. Quase 100 mil pessoas se mudaram, incluindo os pais e irmãos de Oshima.

Oshima, que tinha 20 anos na época, pretendia acompanhá-los, e só estava esperando por notícias de sua família.

Para contornar a censura, eles usavam códigos. Se escrevessem verticalmente, da forma típica japonesa, significava que Oshima devia se juntar a eles. Mas se a escrita fosse na horizontal, seria um alerta para que ele não fosse.

Quando as primeiras cartas chegaram, as palavras atravessavam a página da esquerda para direita.

“Grande Ilha”

Os pais de Oshima zarparam de um vilarejo no sudeste da Coreia em 1934, em busca de trabalho, época em que a máquina de guerra do Japão começava a se aquecer.

Eles se instalaram em uma cidadezinha no sul do Japão e criaram cinco filhos. O pai de Oshima os sustentava cortando lenha e vendendo carvão. Para disfarçar sua origem, eles adotaram um sobrenome japonês, que significava “grande ilha”.

Oshima se lembra dos colegas de escola que os provocavam, perguntando: “Coreanos são seres humanos mesmo?”

A discriminação era embutida nas leis, o que tornava difícil para os zainichis se tornarem cidadãos. Oshima esperava estudar engenharia, mas foi proibido de entrar em uma escola especializada e acabou se tornando professor em uma escola coreana.

A maioria de seus primeiros alunos era de famílias que estavam se preparando para se mudar para o Norte.

Na época, no final dos anos 1950, o governo japonês estava trabalhando discretamente junto com Pyongyang em um programa de repatriação.

“Suas motivações eram uma preocupação com a economia e com a segurança, além de uma grande dose de preconceito”, escreveu Tessa Morris-Suzuki, historiadora que publicou um livro sobre o êxodo. “Eles esperavam livrar o país daqueles que eles viam como subversivos e um fardo para o Estado”.

A Coreia do Norte viu uma oportunidade de renovar sua força de trabalho após a destruição da Guerra da Coreia. Mas o Sul, governado por uma ditadura militar na época, temia que uma leva de zainichis fosse prejudicar sua economia já enfraquecida.

Artigos em jornais japoneses falavam das maravilhas do Norte, onde as autoridades prometiam apartamentos mobiliados, empregos, arroz e três meses de carvão para aqueles que retornassem.

Os Estados Unidos expressavam discreta preocupação de que alguns zainichis pudessem estar sendo pressionados a se mudar. Mas não se opunham ao programa, escreveu Morris-Suzuki, porque queriam proteger sua relação com o Japão.

Entre aqueles que deixaram o Japão estava uma menina que um dia viria a se tornar a mãe de Kim Jong-un, atual líder da Coreia do Norte.

A família de Oshima partiu a bordo de um navio em 1960, saindo do porto de Niigata, na costa oeste do Japão. Eles estavam indo para casa, finalmente livres do domínio japonês.

“Somos coreanos”, lembrou Oshima. “Era uma questão de sangue”.

Ele nunca mais voltou a ver seus pais.

Fotografias de Jiro Oshima visitando a Coreia do Norte, à direita, e com seu irmão mais velho como crianças no Japão, são exibidas em seu apartamento em Tóquio - Andrea DiCenzo/The New York Times - Andrea DiCenzo/The New York Times
Fotografias de Jiro Oshima visitando a Coreia do Norte, à direita, e com seu irmão mais velho como crianças no Japão, são exibidas em seu apartamento em Tóquio
Imagem: Andrea DiCenzo/The New York Times

Lembranças e dinheiro

Quinze anos se passaram até que Oshima pôde viajar para a Coreia do Norte.

“O mais doloroso era saber que ele vivia tão longe de seu irmão e de suas irmãs, e saber como era difícil para ele”, disse sua mulher Keiko, 75, em seu apartamento em Tóquio, entre retratos em preto e branco dos pais de Oshima.

Durante aquela época, ele deu aulas em escolas coreanas administradas pela Chosen Soren, a principal organização comunitária zainichi, que recebeu financiamento da Coreia do Norte nos primeiros anos e retratava o fundador da nação, Kim Il-sung, como um heroico combatente contra o Japão.

Desde 1957, a Coreia do Norte gastou cerca de US$ 452 milhões (R$ 1,7 bilhão) para ajudar a financiar escolas coreanas no Japão, de acordo com Oh Gyu-sang, do Instituto de Pesquisa da História Coreana Zainichi em Tóquio. Mesmo hoje, ela continua enviando pequenas quantias, segundo Oh.

Em um evento realizado recentemente em sua sede em Tóquio, o presidente da Chosen, Ho Jong-man, sob retratos gigantes do avô e do pai de Kim, elogiava a “incomum estratégia diplomática para a reunificação” de Kim.

Suas escolas, que incluem uma universidade, ensinam o idioma, a história e a cultura coreanos juntamente com um currículo japonês. Os três filhos dos Oshimas frequentaram a escola, mas Oshima foi se desiludindo com a intensa lealdade ideológica ao Norte.

“A idolatria a Kim Il-sung já havia começado”, lembra. “Eu dizia: ‘eu só não acho que ele seja um deus’”.

Oshima disse que não visitou inicialmente sua família na Coreia do Norte porque os zainichis só receberam permissão de reentrada do Japão em 1974. Ele fez sua primeira viagem no ano seguinte. Sua mãe havia morrido oito meses antes, e seu pai em 1970.

Um funcionário do governo o acompanhou em todos os lugares, chegando a dormir no mesmo quarto quando ele visitou os irmãos. Oshima pagou ao homem 10 mil ienes (cerca de R$ 112 na época) para deixá-lo sozinho com seus parentes por uma noite.

A Coreia do Norte deixou que Oshima fizesse visitas regularmente após essa primeira viagem. Mas ele não quis falar em detalhes sobre seus parentes ou suas viagens ao país, que sofreu uma fome devastadora nos anos 1990 e foi pressionado por sanções ao tentar desenvolver armas nucleares.

Em algumas das visitas, Oshima ajudou a organizar ações de auxílio humanitário. Uma vez, ele trabalhou junto com um grupo para providenciar um carregamento de dez sacas de arroz, mas viu somente duas em um avião que levaria os mantimentos. Quando ele perguntou sobre as outras oito, “o funcionário do governo disse: ‘Este arroz nos foi dado como presente, e nós é que decidimos o que fazer com ele’”.

Oshima também envia pacotes com lembrancinhas e dinheiro regularmente a seus parentes, embora as sanções japonesas limitem cada transferência a 100 mil ienes (cerca de R$ 3.400) e proíbam o envio de itens de luxo como jeans e batons.

Especialistas estimam que os zainichis tenham enviado bilhões de dólares ao longo das décadas para a Coreia do Norte. Mas o fluxo caiu bruscamente devido a sanções mais duras e porque os zainichis mais jovens sentem uma menor conexão com o Norte, segundo um agente da inteligência no Japão, que pediu anonimato por não poder falar publicamente.

Oshima fez sua última viagem cinco anos atrás. Ele disse que nunca poderia se juntar à sua família, mesmo depois de se aposentar. “Eu não conseguiria construir uma vida lá”, disse.

Permanecendo coreano

Em 1996, Oshima visitou o vilarejo costeiro da Coreia do Sul onde seus pais moraram antes de emigrarem para o Japão. Durante a estadia, ele acompanhou o irmão mais velho de seu pai em uma visita ao túmulo de seus ancestrais.

Oshima caminhava entre as sepulturas quando viu algo que chamou sua atenção: seu nome, em coreano, gravado em uma lápide.

Para seu espanto, ele descobriu que seus parentes o haviam declarado morto porque ele dava aulas em escolas administradas por uma organização que eles consideravam como inimiga da Coreia do Sul.

“Meu tio nunca pensou que eu fosse visitá-los”, disse Oshima, chorando. “Ele pediu que eu não levasse para o lado pessoal”.

Apesar dessa rejeição, Oshima se tornou cidadão sul-coreano em 2006.

A cada geração, o vínculo da família com a Coreia do Norte vai se apagando.

Uma neta, Misa An, 22, em visita recente aos Oshimas, olhava suas fotos da Coreia do Norte. “Eles têm celular?”, perguntou. “Eles saem para comer?”

An disse que seu avô nunca falou muito sobre a história da família. Mas ela lembra que em uma festa de aniversário de dois anos atrás, ele teria falado sobre seus pais, sobre como eles vieram para o Japão e depois foram embora, e sobre como ele permaneceu no país.

“Ele decidiu ficar para trás e viver sozinho”, ela disse. “E por causa disso, hoje estamos todos aqui".

Tradutor: UOL