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Segunda maior igreja protestante dos EUA reforça proibição ao casamento gay

Membros da Igreja Metodista Unida reagen à derrota de uma proposta que teria permitido o clero gay e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em uma conferência da igreja em St. Louis - Sid Hastings/AP
Membros da Igreja Metodista Unida reagen à derrota de uma proposta que teria permitido o clero gay e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em uma conferência da igreja em St. Louis Imagem: Sid Hastings/AP

Timothy Williams e Elizabeth Dias

Em St. Louis (EUA)

28/02/2019 00h01

A Igreja Metodista Unida dos EUA votou na terça-feira (26) a favor de reforçar a proibição ao clero homossexual e a casamentos entre o mesmo sexo, decisão que poderá dividir a segunda maior igreja protestante do país.

Depois de três dias de intenso debate em uma conferência em St. Louis (Missouri, região central dos EUA), a votação de autoridades da igreja e membros laicos do mundo todo ratificou a atual política da igreja, que afirma que "a prática da homossexualidade é incompatível com o ensinamento cristão". A votação serviu como rejeição a um movimento de membros e líderes progressistas que querem abrir a igreja a pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgênero (LGBT).

Agora parece iminente uma divisão da Igreja Metodista Unida, que tem 12 milhões de membros no mundo todo. Alguns pastores e bispos dos EUA já estão falando em deixar a denominação e possivelmente criar uma nova aliança de igrejas que aceitam os gays.

"Está na hora de outro movimento", disse em entrevista por telefone do local da conferência o reverendo Mike Slaughter, pastor emérito da igreja de Ginghamsburg, em Ohio. "Ainda nem sabemos o que é, mas é algo novo."

A decisão, aprovada em votação de 53% a 47%, é a última erupção na luta pelo futuro da cristandade nos EUA e sobre que aspectos da sexualidade humana são aceitos como cristãos.

Os conservadores saíram da Igreja Episcopal por causa dos direitos gays, os presbiterianos se dividiram e muitos jovens evangélicos estão deixando suas igrejas por falta de inclusão das pessoas LGBT.

Enquanto isso, o país se torna cada vez menos cristão, e a porcentagem de americanos sem afiliação religiosa está crescendo. Enquanto as principais denominações que adotam os direitos gays continuam diminuindo em número de membros, instituições cristãs conservadoras crescem em poder e recursos financeiros.

Os 7 milhões de membros da Igreja Metodista Unida nos EUA muitas vezes não se enquadram em categorias políticas fáceis. Perdendo em tamanho apenas para a Convenção Batista do Sul, a igreja inclui figuras de perfil destacado com uma série de crenças políticas, de Hillary Clinton a Jeff Sessions, o ex-secretário da Justiça republicano.

Pouco mais da metade dos metodistas dizem ser republicanos, comparados com 35% que se declaram democratas. A maioria dos fiéis acredita que o aborto deve ser legal, e mais da metade é favorável a regulamentos mais rígidos para a proteção do meio ambiente.

Mas a questão dos direitos gays se mostrou extremamente divisiva na igreja, e a votação de terça-feira refletiu a crescente influência dos metodistas fora dos EUA. O enrijecimento da aplicação da lei da igreja foi apoiado por uma coalizão de membros de países africanos, das Filipinas e evangélicos europeus e americanos.

Enquanto a afiliação encolheu constantemente nos EUA nos últimos 25 anos, tendência que vale para a maioria das principais denominações protestantes, ela vem aumentando na África. Cerca de 30% dos membros da igreja hoje estão em países africanos, que geralmente têm opiniões cristãs conservadoras; em muitos deles, a homossexualidade é crime.

Mas nos EUA a votação apresenta um risco significativo para uma denominação que luta para atrair os jovens. Os metodistas unidos têm uma das populações religiosas mais idosas do país, com idade média de 57 anos.

Nos últimos anos, membros americanos progressistas, incluindo gays e lésbicas, têm esperado maior inclusão. Seis em cada dez metodistas unidos nos EUA acreditam que a homossexualidade deve ser aceita.

Algumas congregações celebraram casamentos homossexuais e tiveram pastores gays, lésbicas e transgênero, às vezes recebendo a aprovação da igreja para isso, apesar de tecnicamente violar a política oficial. A punição para os que violam as regras é desigual, e julgamentos na igreja aos poucos que receberam sanções foram impopulares.

As novas regras reforçariam a aplicação da lei interna e aumentariam a punição para os violadores. Por exemplo, religiosos que oficiarem casamentos homossexuais poderiam receber uma suspensão mínima de um ano, sem remuneração, e uma segunda infração poderia resultar em sua demissão do clero. Alguns artigos do plano precisam ser revistos pelo conselho jurídico dos metodistas.

A reverenda Susan Henry-Crowe, líder de um dos principais órgãos administrativos da igreja, chamou o plano de "punitivo" em um comunicado, e disse que a conferência causou uma "dor insuportável" à denominação. "A ferida poderá um dia ser curada pela graça de Deus", disse ela, "mas a cicatriz deixada será visível para sempre."

Para muitos, o slogan da igreja, "Corações abertos, mentes abertas, portas abertas", hoje parece falso.

Logo depois da votação, houve protestos no centro do local onde se realizou a conferência, um antigo estádio de futebol conhecido como Domo. Alguns delegados começaram a entoar canções da igreja e a bradar "Somos gays" e "Esta é a nossa igreja!"

"Os amigos dos meus filhos não virão à igreja a menos que eu possa lhes falar sobre a parte do amor em nossa igreja, não só a parte do julgamento", disse o pastor David Livingston, 45, do Estado do Kansas.

Ao mesmo tempo, conservadores comemoravam a vitória apertada. Tom Lambrecht, 64, um ancião ordenado do Texas, disse que a denominação deve manter a tradição se quiser sobreviver. Se os progressistas forem incapazes de concordar com a abordagem, disse ele, seria melhor que deixassem a denominação para que os metodistas possam dedicar mais tempo ao ministério e menos ao que ele chamou de "questões sociais".

"Precisamos ser fiéis ao padrão tradicional do casamento", afirmou ele. "Nenhuma organização permite que seus membros desobedeçam constantemente às regras."

O que acontecerá agora depende de questões não apenas teológicas, mas financeiras. Para que congregações inteiras saiam, precisariam provavelmente chegar a acordos relacionados à potencial transferência de propriedades da igreja e indenizações relacionadas a seu fundo de pensão, de US$ 23 bilhões.

Grandes seminários em universidades como Emory e Duke, que apoiaram seus estudantes LGBT, correm o risco de perder doações e fundos de igrejas mais influentes e conservadoras.

O metodismo é uma força importante na vida dos EUA desde antes da Guerra Revolucionária, e com o tempo cresceu para incluir uma afiliação importante de afro-americanos na Igreja Episcopal Metodista Africana e na Igreja Episcopal Metodista Africana de Sião. A denominação se dividiu cerca de uma dúzia de vezes em sua história, notadamente por causa da escravidão e de questões raciais.

Quando a conferência metodista terminou, caminhões de terra eram descarregados fora do estádio para um evento de caminhões monstros. As centenas de pastores metodistas começaram a sair, perguntando-se como seguir adiante.

Matt Miofsky, 41, comanda uma das igrejas metodistas de maior crescimento no país, chamada The Gathering [o Encontro], em St. Louis.

"Quero que as pessoas saibam que The Gathering, e muitas igrejas como ela em todo o país, querem receber as pessoas LGBTQ", afirmou. "Vamos seguir uma visão totalmente inclusiva para o ministério."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves