Quarta-feira,
11 de dezembro de 2002





Brasil
Lula procura banqueiro que não pense nos moldes do capitalismo

Tony Smith
The New York Times
Em São Paulo

A poucos dias do prazo definido pelo Congresso brasileiro, o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva aparentemente enfrenta dificuldades para encontrar um candidato ao comando do Banco Central. Sua escolha irá determinar a reação dos mercados ao novo governo de esquerda que chegará ao poder no dia 1º de janeiro.

Para obter a aprovação antes do recesso de Natal, Lula deverá apresentar um nome ao Congresso até domingo (15). Mas até o momento não há candidatos ao posto, e tudo indica que a presença da ala radical do Partido dos Trabalhadores inibe candidatos orientados para o mercado que poderiam aceitar o cargo.

Muitos afirmam que o mais comentado entre os candidatos -- o presidente do Banco Icatu, Pedro Luiz Bodin -- relutaria em aceitar por temer que sua autonomia seja restrita. O nome preferido por Wall Street para comandar a transição brasileira -- seu atual ocupante, Armínio Fraga -- foi vetado pela ala esquerdista do Partido dos Trabalhadores.

"Aparentemente ninguém se dispõe a assumir", afirma Alexandre Schwartsman, economista-chefe da BBA Corretora em São Paulo.

"O Banco Central possui autonomia efetiva sob o atual governo", ele disse. "Mas se não há esta autonomia passa a ser muito difícil aceitar o cargo".

Esta autonomia -- a liberdade para definir a política monetária mais adequada às metas definidas pelo governo -- tem sido considerada como o teste que revelaria se a passagem do passado esquerdista e radical de Lula para o centro de fato é genuína.

A autonomia foi discutida durante o encontro de Lula com Horst Koehler, diretor do Fundo Monetário Internacional, que concedeu um pacote de US$ 30 bilhões ao Brasil.

Outros integrantes mais moderados da equipe de Lula defendem a transmissão de uma mensagem positiva aos mercados, e costumam referir-se à liberdade concedida pelo trabalhista Tony Blair ao Banco da Inglaterra em 1997.

Mas ao que tudo indica a autonomia não é uma das principais prioridades do futuro governo.

A equipe de transição nega a existência de problemas para encontrar um candidato ao posto e insiste em dizer que todos os nomes da equipe econômica serão apresentados no tempo devido.

Embora a indicação do médico Antônio Palocci para o ministério da fazenda tenha contribuído para acalmar os mercados, todas as atenções agora se voltam ao Banco Central.

Palocci defende a permanência de Fraga, ainda que por alguns poucos meses, e na semana passada Lula superou sua própria desconfiança ao conversar com o presidente do Banco Central após um aparente encontro acidental no aeroporto de Brasília.

No entanto a ala esquerdista do Partido dos Trabalhadores rejeita o nome de Fraga, satanizado como "neoliberal" e ex-funcionário do investidor George Soros. Os eleitores, argumentam os esquerdistas, elegeram Lula porque desejam a alteração da política econômica do governo, e não sua manutenção.

Um dos fatores que afastam os economistas do cargo é a abertura de processos contra autoridades do Banco Central, acusadas por mau gerenciamento da economia ou mesmo por crimes financeiros. A prática tornou-se comum após a adoção de uma política de livre mercado pelo Brasil no início da década de 90.

Fraga, sua equipe e seus predecessores atualmente respondem a 68 processos, em sua maioria abertos por procuradores, sindicatos ou advogados esquerdistas.

Somente Fraga responde a 16 processos. Bodin, atualmente cortejado pela equipe de Lula, responde a dois casos relativos à sua passagem pelo Banco Central entre os anos de 1991 e 92. A acusação foi feita por um sindicalista.

"Não é por mero acaso que eles enfrentam dificuldades para o recrutamento -- esta prática minou nossa confiança", afirmou Gustavo Franco, que responde a sete processos relativos à sua passagem pela presidência do Banco Central, entre os anos de 1993 e 99.

"Uma coisa é discordar de uma determinada política, mas considerá-la criminosa é outra muito diferente", ele disse. "Nem mesmo em uma sociedade tão afeita ao litígio como a americana se vê algo do gênero".


Tradução: André Medina Carone

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