23/07/2003

EUA anunciam ter matado filhos de Saddam Hussein em batalha



Neil MacFarquhar
DE BAGDÁ, Iraque


Agindo após terem recebido a informação de que os dois filhos de Saddam Hussein, Uday e Qusay, estavam escondidos em uma residência pomposa na cidade de Mosul, no Norte do Iraque, tropas dos Estados Unidos cercaram a casa na terça-feira (22/07) e mataram os dois homens em um combate feroz, que demoliu gradualmente as paredes que lhes davam cobertura.

Soldados da 101ª Divisão Aerotransportada, assim como das Forças de Operações Especiais, ordenaram aos dois que se rendessem e tiveram como resposta uma rajada de fogo de armas leves, disse em entrevista à imprensa, na noite de terça-feira, o general Ricardo S. Sanchez, comandante das tropas terrestres norte-americanas no Iraque.

"Eles morreram em uma violenta batalha", disse Sanchez. "Resistiram à ordem de prisão e às tentativas da coalizão de se aproximar e aprisiona-los, tendo sido mortos no tiroteio que se seguiu e durante os ataques que realizamos contra a residência".

Um oficial militar graduado disse que helicópteros Apache, aviões A-10 "Warthogs" e aeronaves de caça estacionadas em porta-aviões foram chamados para prestar apoio aéreo à operação.

Os corpos dos dois homens, juntamente com os de dois outros, foram enviados em uma aeronave para o Aeroporto Internacional de Bagdá, o quartel-general das forças armadas dos Estados Unidos no Iraque, para serem identificados. O estado dos corpos permitia a identificação, afirmou Sanchez, acrescentando que "múltiplas fontes" foram utilizadas para confirmar a identidade dos mortos.

Sanchez disse que os outros dois corpos ainda precisam ser identificados, embora um canal de televisão árabe por satélite tenha anunciado que um deles seria Mustafá, o filho adolescente de Qusai, e o outro um guarda-costas que acompanha Odai desde que este ficou incapacitado após sofrer uma tentativa de assassinato em 1996.

Autoridades do governo em Washington também disseram que o adolescente morto pode ser o filho de 14 anos de Qusai, embora não tenham revelado o nome do garoto e procurassem enfatizar que ainda não houve identificação final do corpo. As autoridades disseram ainda que a quarta pessoa poderia ser um guarda-costas.

O tiroteio eliminou dois dos mais procurados membros do governo deposto do Iraque. Eles só perdiam em importância para o próprio Saddam Hussein, que as autoridades dizem acreditar que esteja no Iraque. Qusai era o segundo na lista de cartas de baralho dos mais procurado, o Ás de Paus, enquanto que Odai era o terceiro, o Ás de Copas.

Segundo os analistas as mortes vão reduzir, mas não eliminar, os ataques que mataram 40 soldados norte-americanos desde que o presidente George W. Bush anunciou o fim dos grandes combates no dia 1º de maio. Quatro soldados norte-americanos foram feridos em um tiroteio na terça-feira.

Havia uma recompensa de US$ 15 milhões para cada um dos filhos de Saddam Hussein, e Sanchez diz que elas serão pagas. Ele não revelou o nome da pessoa que delatou os dois homens, mas autoridades curdas disseram que a fonte foi provavelmente o proprietário da casa onde estavam os filhos do presidente deposto.

Um oficial de inteligência curdo disse na terça-feira que os dois foram vistos - e filmados - ao saírem de um carro e entrarem correndo em uma casa, por volta de 9h daquele dia. O filme foi rapidamente entregue às forças armadas norte-americanas, que confirmaram a identidade dos homens e partiram imediatamente para um confronto, afirmou.

Embora alguns indivíduos leais a Saddam, pagos ou incitados pelos seus filhos, sejam suspeitos de matar soldados norte-americanos desde que terminaram os principais combates, os ataques provavelmente são também realizados por iraquianos que se opõe à idéia da ocupação, por membros de tribos que juraram vingar os parentes mortos e por fanáticos que acreditam que o Islã está em guerra com o Ocidente.

No entanto, Sanchez disse estar certo que a morte dos filhos de Saddam Hussein fará uma diferença. "Acredito firmemente que isso terá realmente um efeito", afirmou. "O que aconteceu vai provar ao povo iraquiano que pelo menos esses dois membros do regime não retornarão ao poder".

Na seqüência de ataques, um soldado norte-americano foi morto e outro ficou ferido em uma emboscada, na terça-feira, ao norte de Bagdá, anunciou o Comando Central dos Estados Unidos. Os atacantes dispararam lançadores de granadas e armas leves contra o veículo que transportava os homens na estrada que liga Balad, 80 quilômetros ao norte de Bagdá, a Ramadi.

Em um outro incidente, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha relatou que um dos seus técnicos morreu e um outro foi hospitalizado após o veículo em que viajavam ter sido atingido por disparos de armas de fogo nas proximidades de Hilla, ao sul de Bagdá.

A maior parte dos iraquianos se sentirá aliviada com o fato de os dois mais prováveis sucessores de Saddam Hussein terem sido eliminados. Houve disparos de armas de fogo mais intensos que o comum em Bagdá, quando os iraquianos começaram a comemorar a notícia. O céu noturno ficou iluminado por balas traçadoras.

Sanchez disse que a tarefa de capturar ou assassinar qualquer um que esteja na lista dos procurados ainda continua sendo um objetivo importante. Ele observou que forças dos Estados Unidos ainda estão vasculhando os bairros de Mosul, na esperança de conseguir possíveis informações sobre o paradeiro de Saddam Hussein.

As Forças de Operações Especiais envolvidas eram parte da Força Tarefa 20, a unidade de elite encarregada de caçar os alvos principais, disseram oficiais militares norte-americanos de alta patente.

Alguns iraquianos simplesmente eram incapazes de acreditar que os dois irmãos foram mortos. "Não creio que isso seja possível, mas se for verdade, eles mereceram terminar dessa maneira", disse Omar Salam, de 22 anos, enquanto jantava em um café de beira de estrada. Pessoas à sua volta disparavam tiros para o alto.

Nas proximidades, Hassan Jubori, disparando rajadas para o céu com o seu fuzil de assalto AK-47, disse, "Esperamos que seja verdade, mas não temos certeza. Se eles realmente morreram, é uma grande notícia".

No entanto, nem todas as reações foram positivas. O correspondente da Al Jazira, a rede árabe de televisão por satélite que tem criticado firmemente a guerra, afirmou que os dois homens foram assassinados "a sangue frio" e um analista chegou a comentar que o método utilizado para matá-los se constitui em "um crime".


Tradução: Danilo Fonseca Visite o site do The New York Times



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