14/04/2004

Impasse com dubladores ameaça futuro de "Os Simpsons"



Bernard Weinraub
Em Los Angeles


Na televisão, Homer J. Simpson é um fracassado, um inspetor de segurança da Usina Nuclear de Springfield, com o recorde de mais anos trabalhando em uma posição de início de carreira. Na vida real, Simpson e sua família de subversivos renderam para a Fox, segundo estimativas de auditores contratados pelos atores que fornecem suas vozes, mais de US$ 2,5 bilhões como astros de uma das séries mais duradouras no horário nobre na história da televisão.

Agora, estes atores estão exigindo sua parte na riqueza. Insistindo em que "Os Simpsons" não seria o mesmo sem eles, os profissionais por trás das vozes de Homer, Bart, Marge e dos outros personagens animados estão buscando as mesmas recompensas financeiras recebidas por atores de outras séries de sucesso, como "Friends" e "Frasier".

Os executivos de Hollywood dizem que a insistência dos atores em não aceitar apenas a quase triplicação de seus salários -para US$ 8 milhões por temporada- mas exigindo também uma participação nos lucros da série, é o primeiro caso em uma série em desenho animado, um gênero que os estúdios e emissoras de TV sempre consideraram de custos previsíveis e elencos pacíficos.

Um alto executivo da Fox, que falou sob a condição de anonimato, disse que a estimava de receita dos atores para "Os Simpsons" foi "extremamente alta" e que os números não refletem as despesas consideráveis de uma série que emprega um grande número de roteiristas, produtores e animadores. (Ele se recusou a discutir as receitas da série.)

Mas outros executivos de televisão disseram que o número de US$ 2,5 bilhões não é despropositado, considerando os valores para "syndication" (a venda direta para canais locais) de "Os Simpsons", seu imenso sucesso em licenciamento de produtos e vendas potenciais de DVD.

Segundo a Fox, "Os Simpsons" apresenta no momento uma média de 11,5 milhões de espectadores por episódio, uma queda de 2 milhões de espectadores em comparação com a temporada passada. Mas a série ainda ocupa o primeiro lugar em audiência para a rede no domingo, assim como o primeiro lugar no horário para espectadores adultos entre 18 e 49 anos, um faixa de público muito procurada. "Os Simpsons" também é a série em desenho animado de maior longevidade de todos os tempos.

A temporada com início no outono de "Os Simpsons", normalmente composta de 22 episódios, será reduzida devido ao impasse nos contratos, disse o executivo da Fox. "Nós não podemos manter uma série com custos que a tornam não atrativa economicamente para produzir", ele acrescentou.

Mas dinheiro não é o único problema. Em jogo nas negociações em torno de "Os Simpsons" está o precedente potencial que poderá influir na concorrência das redes abertas com os canais a cabo, que estão cada vez mais colocando no ar desenhos animados de ponta voltados tanto para adultos quanto para crianças.

O que está diante das emissoras -e dos atores- é a questão de quão importante são as vozes, assim como as personalidades, dos artistas que representam personagens animados. Eles são anônimos, podendo ser trocados? Ou são tão importantes para o sucesso de um desenho animado como, digamos, os atores de "Will & Grace" e "Friends"? A animação poderá ocupar um espaço menor na televisão caso os dubladores passem a receber tanto quanto atores que aparecem em carne e osso.

Há seis anos, durante uma série anterior de tensas negociações de contrato entre a Fox e os principais atores de "Os Simpsons", o estúdio contratou diretores de elenco de todo o país para encontrarem substitutos, mas fracassou, disse David E. Weber, o advogado de Hank Azaria (que fornece as vozes de Moe, Apu e outros personagens), e John S. Kelly, o empresário de Yeardley Smith (Lisa), em uma entrevista conjunta.

"A questão é dupla", disse Kelly, um sócio da Bresler-Kelly & Associates de Los Angeles. "As personalidades que o público associa a cada um destes personagens não vêm dos desenhos, mas das vozes dos personagens, que são fornecidas pelos atores. A segunda coisa é que há cerca de 40 personagens regulares na série. As vozes de todos eles são dubladas por estes seis atores."

Segundo a análise financeira contratada pelos atores, a Fox, que financiou a série desde o início, em 1989, obteve um rendimento de US$ 2,5 bilhões a US$ 3 bilhões com "Os Simpsons", grande parte dela com syndication, publicidade, vendas para o exterior e produtos licenciados. Vários empresários de televisão disseram que "Friends" pode gerar números comparáveis em syndication.

"Diferente de várias outras séries de sucesso, os atores não estão tendo participação em nada disto", disse Weber, um sócio de uma firma de advocacia de Beverly Hills, a Offer, Weber & Dern. "Não há participação nenhuma nos lucros", disse ele, "nem o adiantamento de valores foram significativamente aumentados em reconhecimento às contribuições para o sucesso financeiro da série".

"O que estamos pedindo é pelas práticas habituais da televisão para os atores de séries de sucesso", ele continuou. "Nós não estamos recebendo isto."

Mas o executivo da Fox disse ser "um enorme exagero" para os atores de "Os Simpsons" se compararem a astros como Ray Romano de "Everybody Loves Raymond" ou ao elenco de "Friends", as duas séries cômicas de maior audiência dos EUA. Tais atores, disse o executivo, ficam significativamente associados aos seus personagens, às vezes em detrimento de suas futuras carreiras.

Os elencos de sitcoms, ele acrescentou, trabalham quase exclusivamente para suas séries, enquanto os atores de "Os Simpsons" geralmente trabalham dois dias e meio para cada episódio, o que os deixa com tempo livre para interpretarem outros papéis em cinema, teatro e televisão com relativa facilidade.

"Eles recebem extremamente bem", disse o executivo.

Além de Smith e Azaria, os atores em negociação são Dan Castellaneta (Homer), Julie Kavner (Marge), Nancy Cartwright (Bart) e Harry Shearer (Sr. Burns e outros). Eles recebiam inicialmente US$ 3 mil por episódio, disseram seus representantes, e agora recebem cerca de US$ 125 mil por episódio. Os atores querem US$ 360 mil por episódio, assim como participação nos lucros da série.

"O fato é que estas pessoas têm trabalhado na série há 15 anos", disse Weber. "Tudo começou em um ponto tão baixo que era impossível prever tamanho sucesso e tamanha duração de serviços prestados à série. Então há muito mais a ser obtido há longo prazo."

Astros de sitcoms recentes como Ray Romano, Jerry Seinfeld e Michael J. Fox receberam participação nos lucros de suas séries. Tais acordos lhes permitiram continuar recebendo altas somas das taxas de syndication após o fim da produção das séries.

Os atores de séries de sucesso que não receberam participação nos lucros geralmente receberam altos pacotes de pagamento em seu lugar. Jason Alexander, Julia Louis-Dreyfus e Michael Richards receberam cerca de US$ 600 mil por episódio na última temporada de "Seinfeld", disseram vários empresários de televisão. Eles disseram que nos dois últimos anos de "Friends", cada membro do elenco ganhou mais de US$ 1 milhão por episódio.

Como muitas outras comédias de sucesso da TV, a propriedade de "Os Simpsons" é parcialmente de seus criadores. Matt Groening, um autor de quadrinhos, inventou "Os Simpsons" como uma série de vinhetas curtas para o programa "The Tracey Ullman Show" da Fox. James L. Brooks, o roteirista e produtor, ajudou a transformar a série em um programa de meia hora e ainda é seu produtor-executivo.

Eles receberam cada um pelo menos US$ 150 milhões, talvez mais, em acordos que não cobrem apenas os direitos de syndication da série, mas também licenciamento, vendas para o exterior e direitos de vídeo, disseram pessoas com conhecimento dos acordos financeiros. (Os direitos potencialmente lucrativos para DVD não estão cobertos em tais acordos, que datam do início dos anos 90.)

O executivo da Fox disse não saber quanto da próxima temporada dos "Simpsons" será cortada. A produção, que deveria ter começado em março, foi adiada. Uma carta de 19 de março para os representantes dos atores, assinada por Neal S. Baseman, vice-presidente sênior para assuntos comerciais da 20th Century Fox Television, disse que "a continuidade das negociações a esta altura (...) não seria do interesse" do estúdio. As negociações foram suspensas.

Os atores e seus representantes contrataram a Sitrick & Co., uma firma de relações públicas de Los Angeles que geralmente lida com gerenciamento de crises corporativas, para defender seu argumento de pagamentos mais altos.

Os representantes dos atores e os executivos da Sitrick se recusaram a citar o nome do consultor financeiro da indústria da televisão que redigiu o relatório detalhado de 12 páginas sobre a receita da Fox com "Os Simpsons". A Sitrick & Co. disse que o autor é um analista financeiro respeitado que trabalha para vários estúdios de televisão, incluindo a Fox, e portanto não quis que seu nome viesse a público.

O relatório disse que os ganhos da Fox com a distribuição de "Os Simpsons" são próximos de US$ 1 bilhão, e que a receita com publicidade no horário nobre da emissora, gerado pela série, ultrapassa US$ 500 milhões.

Se, como planejado, "Os Simpsons" permanecer na programação da Fox até pelo menos maio de 2005, a série completará 16 anos, ultrapassando "The Adventures of Ozzie & Harriet" como a sitcom de maior longevidade na televisão. "Ozzie & Harriet" foi produzida de 1952 até 1966.


Tradução: George El Khouri Andolfato Visite o site do The New York Times



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