09/06/2004

Bob Dylan é um dos maiores poetas do inglês, diz especialista

Professor de poesia da Universidade de Oxford lança tratado sobre obra do compositor

Charles McGrath

Christopher Ricks, o recém-eleito professor de poesia de Oxford, também é professor Warren de humanidades da Universidade de Boston, onde ele tem um escritório grande e elegantemente mobiliado com vista para Storrow Drive, aonde vai diariamente de bicicleta de sua casa em Cambridge.

Suas estantes contêm a coleção completa de "Lives of the Poets" de Johnson, encadernada em pergaminho, e cópias de muitos livros que o próprio Ricks escreveu ou editou -livros sobre Keats, Milton, Beckett e T.S. Eliot; edições sobre os primeiros poemas de Eliot, Tennyson e Housman; antologias de verso vitoriano e de poesia inglesa, que vão do autor anônimo de "Sumer is icumen in" até Seamus Heaney. No canto da mesa também há um aparelho de som portátil. Ricks o leva às aulas quando deseja falar sobre outro de seus poetas favoritos: Bob Dylan.

Ricks, que tem 70 anos e nasceu na Grã-Bretanha e estudou em Oxford, é um professor dos professores. Ele é lisonjeiro, encantador e aprecia casos excêntricos de maledicências acadêmicas. Ele também é imensamente erudito. É difícil saber quem conhece mais versos ingleses de cor, ele ou Harold Bloom, mas Ricks certamente conhece mais letras do Led Zeppelin do que Bloom, e pode recitá-las na hora.

Seu amor pelo trabalho de Dylan não é um fingimento -a representação patética de um velho professor tentando provar o quanto é legal- mas uma paixão genuína. Ele acabou de aumentar o não pouco considerável estudo acadêmico de Dylan com um livro de sua autoria, o mais longo até o momento, "Dylan's Visions of Sin" (As Visões de Pecado de Bob Dylan, Ecco Press), que dedica cerca de 500 páginas a uma análise extensa, às vezes linha a linha, dos grandes sucessos do mestre.

O livro começa com uma saudação ao leitor que é uma pequena apropriação de uma das primeiras e mais conhecidas canções de Dylan ("All I Really Want To Do): "Tudo o que realmente quero fazer -o que exatamente? Ser amigo seu? Certamente eu não quero lhe cansar, selecionar, dissecar, inspecionar ou rejeitar".

E continua na mesma linha. O estilo de escrever de Ricks não é diferente de seu modo de conversar: espirituoso, alusivo, cheio trocadilhos, digressivo e sem organização rígida, atirando para fazer conexões que às vezes são desconcertantes, mas na maioria das vezes surpreendentes e provocadoras. Em vários pontos ele compara Dylan a Marvell, Marlowe, Keats, Tennyson, Hardy, Yeats e Marlon Brando, para citar apenas algumas poucas de suas referências.

Um dos críticos de Ricks, o professor John Carey de Oxford, reclamou que há algo ligeiramente "trainspotter-ish" (obsessivamente detalhado) em "Dylan's Visions of Sin", e ele apontou que Ricks é tão habilidoso que "poderia provar que a lista telefônica é belamente complexa caso tentasse".

O livro não dá atenção nenhuma à vida de Dylan -não há menção aqui de sua famosa mudança do violão para a guitarra, de sua conversão do judaísmo para o cristianismo e de volta, ou de sua recente aparição em um comercial da marca Victoria's Secret- e está mais interessado na forma das canções do que em seu conteúdo.

Certas passagens de "Dylan's Visions of Sin" podem parecer exageradas para alguns leitores, como quando Ricks dedica quatro páginas (e quatro notas de rodapé) à letra de "All the Tired Horses", uma canção que só tem dois versos - ou talvez três, se você contar o longo "Hmmmm" no final.

Mas outros capítulos traçam paralelos perspicazes e persuasivos entre, digamos, "Lay Lady Lay" e o poema "To His Mistress Going to Bed" de John Donne, entre "Not Dark Yet" e "Ode to a Nightingale" de Keats, e entre "A Hard Rain's A-Gonna Fall" e a balada escocesa "Lord Randal".

E por todo o livro Ricks é particularmente perceptivo quanto a forma com que Dylan, a quem ele chama de "um dos maiores rimadores de todos os tempos", pontua suas canções com um verso final brilhante e surpreendente. (A favorita de Ricks é a rima em "Sign on the Window" que casa o verso "Build me a cabin in Utah", com "Have a bunch of kids who call me 'Pa'".)

"Não passa um dia sem que eu escute Dylan ou ao menos pense nele e em sua arte", disse Ricks em uma recente entrevista -na tarde, por acaso, do 63º aniversário de Dylan. "Eu apenas acho que somos extremamente felizardos por estarmos vivos na mesma época que ele."

Ricks tomou conhecimento pela primeira vez da música de Dylan quando lecionava na Universidade da Califórnia, em Berkeley, em 1965, mas naquela época ele apenas "ouvia"as canções, disse ele, não as "escutava". "Por algum motivo", ele acrescentou, "eu era orgulhoso ou indiferente".

Ele começou a escutar certa noite no Smith College, em1968, quando após o jantar seu anfitrião apagou as luzes e colocou "Desolation Row" -uma canção que estava prestes a prender a atenção do professor de inglês, já que contém versos (ou continha, já que Dylan deixou de incluí-los) sobre "Ezra Pound and T.S. Eliot/Fighting in the captain's tower/While calypso singers laugh at them" (Ezra Pound e T.S. Eliot/Lutando na torre do capitão/Enquanto cantores de calipso riem deles). "Ora, a profundidade daquilo", disse Ricks. "Eu os achei maravilhosos. Eu achei que eram grandes versos."

Na mesma época, Ricks também começou a escutar as canções de amor de Dylan. "Você ama uma canção inicialmente ao aplicar uma pessoa que você conhece à canção", disse ele. "E então ela belamente se transforma na outra, uma coisa complementar, em que você passa a compreender a pessoa melhor por causa da canção, e se transforma em uma espécie adorável de círculo virtuoso. A aplicabilidade extraordinária das canções me parece parte de sua grandeza. Eu de certa forma digo no livro: 'Como Dylan sabe isto sobre mim?'"

Ricks disse que na verdade assinou um contrato para escrever um livro sobre Dylan há 20 anos, mas apenas recentemente passou a escrevê-lo -em parte, porque foi algumas das canções cristãs posteriores de Dylan que sugeriram o formato do livro, que usa os sete pecados capitais, as virtudes e as graças celestiais como um princípio organizador não rígido ou, como Ricks colocou, "o pegador certo para agarrar o fardo".

Após terminar o livro, ele disse, ele estava "aguardando ansiosamente para criar fama e deitar na cama", mas o posto de poesia de Oxford o obriga a dar dois cursos por ano lá, e ele já começou a considerar alguns possíveis assuntos. "Eu acho que devo introduzir Dylan", disse ele. "Seria falso não fazê-lo."

Mas nem todos os familiares de Ricks compartilham seu entusiasmo por Dylan. "Meu filho mais velho tem 45 anos", disse ele, "e eu acho que ele tem uma certa pena de mim em relação a isto". Uma expedição com alguns de seus filhos mais novos para assistir ao filme de Dylan, "Masked and Anonymous", não foi bem-sucedida, como ele reconheceu.

John Silber, o ex-reitor da Universidade de Boston e um amigo de Ricks, costumava fazer de conta que o Dylan que cativava tanto Ricks era Dylan Thomas, e não o ex-Bob Zimmerman. E mesmo a esposa de Ricks, a fotógrafa Judith Aronson, não foi a todos os três concertos quando Dylan se apresentou recentemente na região de Boston. Mas nunca ocorreu a Ricks perder um. Os concertos de Dylan possuem uma beleza particular e também uma certa tristeza, ele explicou, porque o próprio Dylan é a única pessoa que tem que estar em um concerto de Dylan e também é a única pessoa que não pode ir a um concerto de Dylan. "É triste", disse ele, "da mesma forma que é triste Jane Austen não poder ler um romance de Jane Austen".

Quando foi questionado se já tinha se encontrado pessoalmente com Dylan, Ricks sorriu e fez o gesto de fechar o zíper em sua boca. Seu apreço e proteção, aparentemente, se estendem até mesmo à aparência do cantor. Após o lançamento de "Time Out of Mind" em 1997, Ricks ficou incomodado com o bigode fino que Dylan começou a cultivar.

"Não acho que o aspecto seja bom", disse ele. "Você acha?" Ele acrescentou que pensou em fazer uma petição dizendo: "Sr. Dylan, por favor, remova o granido de seu lábio superior (remove the stipple from your upper lip)". "Eu não mandei", disse ele, "porque meus alunos disseram que poderia ferir a sensibilidade de Dylan. Mas 'lip' e "stipple" -eu gostei daquilo".


Tradução: George El Khouri Andolfato Visite o site do The New York Times



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