Cobertura de televisão cria imagens pessoais da história

Mike McDaniel

Daqui a 20 anos, talvez não lembremos a data 11 de setembro de 2001, mas nunca esqueceremos a imagem: O avião se aproximando, em rota suicida, desaparecendo por traz da torre gêmea incendiada, seguido por uma bola de fogo amarela e vermelha, jorrando da lateral da torre para o céu claro azul de uma manhã fresca de Nova York.

A incrível imagem está marcada em nossas mentes, armazenada em nossos bancos de memória, gravada nos diários de vídeo em nossas cabeças. É mais uma, de várias cenas que não conseguimos esquecer.

Será lembrada tão facilmente e vividamente quanto as outras cenas da televisão que compreendem nossos diários de vídeo -que são tão pessoais quanto de relevância histórica global. Estávamos lá.

Talvez estivéssemos a milhares de quilômetros de distância das torres de Nova York ou do Pentágono, em Washington, D.C, mas a televisão nos levou até lá para vermos esses eventos enquanto aconteciam.

Nós estávamos em Waco, vendo o pavilhão de David Koresh incendiar-se. Nós estávamos em Bagdá, enquanto rastreadores apareciam no céu escuro, assinalando o início da Guerra do Golfo Persa, em 1991.

Nós estávamos na Flórida, olhando para o céu incrédulos, quando a nave espacial Challenger explodiu em partes, deixando rastros de vapor em V. Nós estávamos em Los Angeles e, anos antes, em Chicago quando revoltas dividiram as cidades.

Estávamos em San Francisco, no parque Candlestick, para as finais do campeonato de beisebol, quando aconteceu o terremoto. Estávamos em Dallas quando Jack Ruby atirou e matou Lee Harvey Oswald.

Os eventos são tão pessoais quanto memórias públicas. E, no caso dos ataques terroristas de terça-feira, foram coordenados de forma que as câmeras de televisão capturassem imagens para serem lembradas eternamente.

"Os terroristas não só derrubaram uma série de prédios, mas também produziram um espetáculo de televisão, que não tivemos opção, senão mostrar; e não tivemos opção, senão assistir", disse Robert J. Thompson, professor da Universidade de Syracuse e diretor do Centro de Estudos de Televisão Popular.

"Eles até dirigiram o espetáculo", disse, salientando que os ataques foram feitos pela manhã, ganhando cobertura 24h nos EUA.

Com o primeiro ataque, a mídia de Nova York concentrou suas câmeras na torre norte do World Trade Center e assim obteve "enquadramento perfeito, belo e cinematográfico, justo em tempo de o outro avião aparecer", disse Thompson.

Antigamente era comum um terrorista tentar assumir o controle de uma estação de rádio ou televisão, para transmitir sua mensagem. Este caso foi diferente.

"O que aconteceu na terça-feira foi que toda a mídia americana foi essencialmente dominada por 3 horas", disse Thompson. "Tudo que vimos naquelas primeiras 2 ou 3 horas foi exatamente o que queriam que víssemos.

A escolha daquele local foi uma decisão tomada com a consciência de que daria uma reportagem realmente chocante, que transmitiria a mensagem que queriam, que teria grande valor produtivo.

O que aconteceu estava muito relacionado com o fato de a televisão ser uma atividade de 24 horas nos EUA. Realmente precisamos pensar sobre essa equação, enquanto tentamos entender as relações entre a guerra e o terrorismo e a mídia na vida americana no século 21".

Não é como se os jornalistas tivessem tido a escolha de apontar suas câmeras para as torres. "Não acho que seja uma questão de culpa dos jornalistas", disse. "Eles não tiveram escolha, tinham que dar cobertura. E nós não tivemos escolha senão assistir. Mas temos de ter consciência que os locais das batalhas e ataques agora não são escolhidos somente por suas posições estratégicas ou geopolíticas, pela possibilidade de fuga, mas também pelo enquadramento, como um diretor decidindo onde gravar seu filme. Esse claramente foi o caso deste ataque".

Quando a imagem da torre explodindo passa na televisão e em nossas mentes, a preocupação é que fiquemos insensíveis ao horror daquilo que vemos.

Thompson não acredita nisso. Nem o analista da mídia Garth Howett, diretor da escola de comunicação da Universidade de Houston, no Texas. Ao invés disso, diz Jowett, a repetição nos sensibiliza para eventos verídicos da mídia.

"Se você vir pessoas sendo decapitadas o bastante em filmes de ficção, depois de um tempo, pode encarar com naturalidade", disse. "Mas se você vir uma pessoa de fato sendo decapitada, o choque será tão forte quanto possível, independente de quantas vezes você tenha visto cena similar fictícia.

Eventos ao vivo, quando dão errado, marcam a pessoa para sempre". Mas quantas vezes a televisão deveria mostrar essas imagens? "Há um lado das pessoas que diz que não se deveria mostrar essas coisas. Existe outro lado, entretanto, que é o desejo das pessoas de saber", disse Jowett.

Entretanto, "depois de um ou dois dias, torna-se macabro. As imagens tornam-se macabras essencialmente depois que todo mundo já tomou conhecimento delas, que em geral é um período de 24 horas".

Já Thompson não tem tanta certeza. "Parte de mim vê aquilo acontecendo várias vezes, e acho pornográfico", disse. "Estamos assistindo uma coisa extremamente tenebrosa, repetidas vezes.

A outra metade do meu cérebro -e agora estou mais inclinado para este lado- pensa que devemos repetir a cena várias vezes, por duas razões: Uma que, toda vez que vejo, fico mais próximo de começar a entender o que estou vendo. Me permite começar a processar o que exatamente foi aquilo. E outra que, como toda a mídia foi tomada pelas cenas, ficou impossível não confrontá-las. Talvez seja algo que devamos ver".

Nossa curiosidade pede que assistamos ao menos uma vez. Para que possamos dizer que vimos a cena, e revê-la quando precisarmos. E nem todas essas imagens precisam ser trágicas.

Tradução: Deborah Weinberg Houston Chronicle

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