Incerteza quanto à retaliação causa estresse em famílias de militares

Analisa Nazareno

San Antonio, EUA - Cindy Mendoza ouviu dizer que 30 mil soldados norte-americanos foram enviados para o exterior e que os Estados Unidos estão tecendo uma delicada teia com os aliados para ataques militares em potencial contra o Afeganistão.

E ela se pergunta quanto tempo vai demorar até que o seu marido seja enviado a combate, como retaliação pelos seqüestros e ataques terroristas de 11 de setembro.

"Sei que tenho que encarar a possibilidade muito real de que algum dia ele tenha que ir para a frente de batalha", afirma Mendoza. "Eu fico pensando se, quando chegar esse dia, será a última vez que vou vê-lo. E esse momento parece estar se aproximando. A idéia de não poder saber por quanto tempo ele vá ficar longe de mim é realmente assustadora".

James, o marido de Mendoza, é um primeiro tenente da reserva do Exército. A sua tarefa consiste em organizar o transporte de equipamento terrestre pesado de um local para outro. E, todos os dias, desde os ataques ao World Trade Center e ao Pentágono, os dois têm falado sobre ao ida de James para o front como sendo uma certeza, e discutido sobre o significado que isso pode vir a ter.

"É menos angustiante assumir que vou partir e me preparar para isso, ao invés de ficar sentado aqui divagando", afirma James Mendoza, que é oficial de polícia de San Antonio.

Enquanto os Estados Unidos se preparam para uma ação contra o terrorismo, as famílias de militares de todo o país estão fazendo testamentos, tirando cópias de chaves de casas e carros e tomando medidas práticas relativas à partida para a zona de conflito.

Eles também se preparam mentalmente e emocionalmente para a idéia da separação.

"Ninguém aprecia a idéia de deixar a família e ir para um país estrangeiro", afirma o sargento técnico da Força Aérea, Dave Edwards, que retornou a San Antonio na semana passada, após ter cumprido um período de serviço de um ano na Coréia do Sul. "Estou preocupado com a possibilidade de ser enviado novamente para o exterior, para atuar nesta guerra contra o terrorismo. Mas, se tiver que faze-lo, vou vestir o uniforme sem hesitação. É para isso que sou pago. É algo de que tenho orgulho".

Após ter sido casada com um soldado por 15 anos, Debbie Edwards, que foi criada em uma família de militares, sabia que a mobilização e o combate eram possibilidades concretas. Mas ela não esperava que isso acontecesse, já que as funções do marido, ligadas a recursos humanos, o mantiveram nos Estados Unidos durante a maior parte da sua carreira.

"Estamos falando das forças armadas, e não da IBM, do Chase Manhattan ou da General Motors. Trata-se do 'Tio Sam'", afirma o sargento Melvin Gilchrist, que é o coordenador de prontidão familiar da Base Aérea de Brooks, em San Antonio. "Existem compromissos que são assumidos quando você entra para as forças armadas e veste o uniforme. Todos aqueles que usam um uniforme sabem que estão sujeitos a serem enviados para os campos de batalha".

Gilchrist se assegura de que as famílias estejam preparadas quando os seus entes queridos forem chamados à ação. Entre os itens obrigatórios de prontidão familiar estão: números de telefones de contato em caso de emergência, seguro médico e automobilístico atualizado, meios de pagar as contas e as despesas do lar, um plano financeiro e um testamento.

"Essa lista funciona como um ponto de partida, a fim de fazer com que sejam iniciadas conversas de forma que, se aparecerem situações únicas, a família possa desenvolver o seu próprio plano", diz Gilchrist.

Assegurar-se de que os membros da família contem com um grupo de apoio - seja uma rede de familiares ou grupos formais organizados pelas forças armadas - é um fator crucial, segundo Elizabeth McKinley, que dirige o Centro de Apoio à Família da Base Aérea de Randolph, uma das várias instalações militares na área de San Antonio.

"Nossas famílias são muito fortes e, muitas vezes, elas possuem os seus próprios sistemas de apoio", diz McKinley. "Em outras épocas, essas pessoas não contavam com canais de conexão nem tampouco com uma rede de apoio para lhes proporcionar ajuda em momentos críticos".

Após a Guerra do Golfo, em 1991, o Departamento de Defesa exigiu que as bases militares estabelecessem redes de apoio para as famílias. Além disso, essas bases têm agora que fazer da preparação familiar um item de uma lista para os preparativos de envio de tropas, tanto no que diz respeito aos soldados da ativa, quanto aos da reserva.

"A minha missão é manter o soldado concentrado naquilo que está fazendo enquanto se prepara para a ação", diz o sargento Todd Remington, da Base de Randolph, e que trabalha como coordenador de prontidão familiar.

"Quando a família está estressada, os soldados também ficam estressados", diz Remington. "E esse tipo de situação compromete toda a operação".

Tradução: Danilo Fonseca San Antonio Express-News

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