Detectar a presença da Al Qaeda em cavernas é quase impossível

Keay Davidson

Osama bin Laden e seus seguidores podem estar escondidos em alguma das incontáveis cavernas do território proibido do Afeganistão.

Mas em quais cavernas? Esta pergunta pode assombrar os soldados americanos, e para a ciência da "detecção de cavernas" ela é cercada por incertezas.

Técnicas para a detecção de cavernas, túneis e de outras cavidades de subsolo variam desde aquelas de alta tecnologia até as mais folclóricas - desde o mapeamento do solo com radares de onda de alta freqüência e sismógrafos até o escaneamento de um terreno em busca de vapores que emanam de cavernas.

Nenhuma técnica se aproxima de uma confiabilidade de 100%. "Na verdade, é muito fácil detectar objetos metálicos no subsolo, mas detectar uma cavidade, um buraco, é algo realmente difícil", observa Anthony Fraser-Smith, um destacado geofísico de Stanford.

Geofísicos mapeiam o interior da Terra - as camadas da crosta do manto e do núcleo terrestre - através do rastreamento de ondas sísmicas em todo o planeta para, digamos, "escanear" o planeta. Eles podem mapear traços do subsolo terrestre presentes milhares e milhares de quilômetros abaixo da superfície.

Entretanto, métodos sísmicos não oferecem resolução satisfatória para que cientistas localizem com precisão cavernas, embocaduras e túneis muito menores. "Ondas sísmicas não captam tão bem os espaços vazios", afirma Fraser-Smith. "Elas apenas os contornam, e você não as vê".

Outro inconveniente é o fato de que para se localizar pontos de baixa profundidade, os técnicos precisam gerar ondas sísmicas com a detonagem de pequenos explosivos. Em um campo de batalha, isto poderia atrair uma atenção indesejada por parte de guerrilheiros.

Uma outra ferramenta conhecida é o radar de penetração do solo. Utilizado inicialmente na década de vinte para determinar a profunidade das geleiras, a técnica foi amplamente comercializada na década de 70. Ele é utilizada agora para mapear campos petrolíferos e outros terrenos geológicos.

Dependendo das circunstâncias, o radar de penetração no solo pode discernir traços subterrâneos em frações mínimas, inferiores a cinco centímetros. Em circunstancias ideais, ele pode mapear traços maiores a alguns quilômetros de profundidade.

Entre suas diversas aplicações não-militares se encontram: a localização de canos, de cadáveres, a identificação de vazamentos subterrâneos ou pontos de despejo de lixo, mapeamento de cemitérios e de sítios arqueológicos.

A "gravimetria"- o registro de variações sutis na força gravitacional da Terra - requer um método ainda mais exótico. Cavidades subterrâneas alteram ligeiramente a gravitação local, o que permite que elas sejam localizadas por instrumentos aéreos chamados gravímetros.

Todas estas técnicas possuem limitações, adverte Michael Wilt, um antigo pesquisador de Livermore que agora é vice-presidente da Electromagnetic Instruments Inc. de Richmond. Em primeiro lugar, elas geram uma enorme diversidade de informações que os cientistas podem interpretar cada um à sua maneira.

"Você sempre pode imaginar outros modelos que em que suas informações possam ser encaixadas", disse Wilt. Isto vale especialmente quando se pesquisa um terreno geologicamente complexo que está repleto de falhas. "Toda ciência contém um pouco de arte", acrescenta Wilt. Além disto, ele diz, a detecção de cavernas impõe problemas evidentes em tempos de guerra. Como até mesmo os aparelhos mais modernos podem não discernir uma das cavernas de Bin Laden de uma distância maior que "200 ou 300 metros, ele não permitirá que alguém se aproxime mais ainda".

Uma das alternativas seria a busca por cavernas a partir de aeronaves. Durante a Guerra do Vietnã, as forças americanas utilizaram radares de penetração de solo em helicópteros para localizar túneis cavados pelos vietnamitas do norte, afirma Shiou-San Kuo, diretor do Florida Sinkhole Research Institute em Orlando, Flórida.

Durante a Guerra Fria, cientistas aprimoraram técnicas para a detecção de cavidades subterrâneas. Eles esperavam encontrar formas para detectar remotamente mísseis abaixo da superfície, fortalezas ao estilo de Saddam Hussein, e cavernas gigantescas em que um inimigo pudesse testar explosões nucleares em segredo.

Um dos episódios mais curiosos da Guerra Fria envolveu a detecção dos túneis na Coréia do Norte, através dos quais eram enviados mantimentos e agentes infiltrados na Coréia do Sul. Os túneis foram detectados com a utilização de técnicas criadas ao menos em parte pelo Laboratório Nacional Lawrence Livermore, o laboratório de armamentos a oeste de San Francisco.

Embora no campo de batalha coreano não fosse mais registrada nenhuma atividade há meio século, os túneis continuaram a atrair o interesse das autoridades americanas. A razão: ali poderiam estar escondidas armas nucleares da Coréia do Norte.

Um meio muito mais simples para se detectar cavidades foi restritamente utilizado no Monumento Nacional Lava Beds, no Condado de Sisikiyou. Este sensacional sítio geológico continha, ao que se sabe, quase 400 cavernas, habitadas por mais de uma dezena de espécies de morcegos, além de provavelmente centenas de outras cavernas desconhecidas. O interior da caverna geralmente é mais quente e úmido do que o ar da superfície.

Tradução: André Medina Carone San Francisco Chronicle

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