Pressão dos Estados Unidos ameaça governo israelense

Frank Viviano

Jerusalém, Israel -- Sob a pressão sem trégua para auxiliar os Estados Unidos na sua guerra contra Osama Bin Laden, a frágil política de consenso de Israel parece estar desmoronando.

Depois de um confronto áspero - e público - entre o ministro da Defesa e o exército, que irrompeu no final de semana, o partido de extrema-direita do primeiro-ministro Ariel Sharon se retirou subitamente da coalizão governamental na segunda-feira (16).

O Partido de União Nacional, que controla sete cadeiras no Knesset (parlamento) israelense, disse estar deixando a coalizão, como protesto pela retirada israelense da cidade de Hebron, nos territórios palestinos ocupados pelos judeus, e também porque o partido se opõe às iniciativas para reiniciar o processo de paz palestino-israelense.

A decisão do governo em retirar as tropas de Hebron também demonstrou um grau de animosidade entre as forças armadas e o governo eleito que os analistas afirmam não ter precedentes. Segundo esses analistas, isso reflete profundas divisões entre a liderança conservadora de Israel quanto à resposta da nação à guerra contra o terrorismo travada pelos Estados Unidos, e à intifada palestina, que já dura um ano.

Os atritos no interior do gabinete de Sharon se transformaram em conflito aberto no domingo, quando o comandante do Exército, o general Shaul Mofaz, lançou um comunicado oficial condenando a retirada das tropas. Essa medida foi prometida como parte de uma tentativa de resgatar uma trégua entre israelenses e palestinos.

Os movimentos rumo à trégua vieram como uma resposta à intensa pressão do governo Bush, que está determinado a reduzir as tensões entre palestinos e israelenses e, ao mesmo tempo, preservar o apoio dos governos muçulmanos à guerra contra a rede Al Qaeda, de Osama Bin Laden, e o regime Taleban, no Afeganistão.

Em um comunicado à imprensa divulgado pelo Exército, Mofaz declarou a sua firme oposição à retirada, e a qualquer alívio das condições palestinas que "tornariam mais difícil fornecer segurança aos cidadãos israelenses e aos soldados".

A oposição pública por parte de um comandante do Exército é algo quase que desconhecido em Israel, onde o controle civil das forças armadas é um princípio fundamental.

"Não há lugar para tais manobras em uma democracia", respondeu furioso o ministro da Defesa, Binyamin Ben-Eliezer, em um comunicado oficial. Há rumores de que Ben-Eliezer teria pedido a demissão imediata de Mofaz, que deve servir como comandante do Exército até julho de 2002. No final, o ministro se contentou com uma "repreensão severa" ao comandante da Força de Defesa de Israel, ao invés de modificar a estrutura de comando do Exército em um momento de grande tensão regional.

O incidente gerou ondas de choque por todo o espectro político israelense. O ex-ministro da Justiça, Yossi Bellin, disse que o pronunciamento público de Mofaz, manifestando a oposição do exército à ordem do governo, equivale a um verdadeiro "golpe militar".

O Exército foi enviado a Hebron no dia quatro de outubro, a fim de proteger um pequeno enclave judeu na cidade habitada pelos árabes e que, oficialmente, está dentro da região de soberania da Autoridade Palestina.

Os representantes dos assentamentos judeus nos territórios ocupados por Israel não perderam tempo em apoiar Mofaz. "Retirar o Exército neste momento é um crime", disse Orit Struck, porta-voz do enclave judeu em Hebron, ao jornal "Jerusalem Post".

Sharon só ficou sabendo da declaração de Mofaz em uma reunião do gabinete, horas após o documento ter sido divulgado pela imprensa. Segundo testemunhas presentes na reunião, uma discussão em voz-alta ocorreu entre o primeiro-ministro e outros membros conservadores da coalizão, especialmente o ministro da Educação, Limor Livnat e Uzi Landau, o ministro da Segurança Pública, conhecido por ser de linha dura.

"Vocês não são nem um centímetro mais nacionalistas do que eu", teria gritado Sharon, dirigindo-se aos dois ministros e aos outros membros do gabinete que apoiaram a posição de Mofaz.

Os jornais israelenses especulam que o conflito pode refletir ambições políticas por parte de Mofaz, que é aliado do ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o arqui-rival de Sharon na luta pela liderança do Partido Likud. Netanyahu defendeu Mofaz e disse que ele, também, é contra a retirada de Hebron.

Centenas de membros do Likud assinaram uma petição dirigida ao comitê central do partido, afirmando que se "opõe à criação de um Estado palestino a Oeste do Rio Jordão". O abaixo-assinado circulou recentemente através do Movimento "Nosso Caminho é o Seu Caminho", um grupo associado a Netanyahu.

Em conversas não oficiais com os jornalistas, Mofaz deixou claro há duas semanas que também se opõe à retomada dos encontros entre o ministro do Exterior de Israel, Shimon Peres, e o líder palestino, Yasser Arafat.

A extrema-direita israelense vê esses encontros e a retirada das tropas como as mais recentes de uma série de "capitulações" às demandas norte-americanas por um acordo negociado. Acusando Sharon de não cumprir as suas promessas, o ministro do Turismo, Rehavam Zeevi, membro da União Nacional, disse na segunda-feira ao Knesset, "Não queremos estar no governo de Oslo", em uma referência aos acordos interinos de paz assinados em 1993.

Mesmo antes de Washington dar início à sua guerra contra o terrorismo, Sharon cedeu com relutância à argumentação sobre a necessidade de um Estado palestino independente, e prometeu impedir a construção de novos assentamentos judaicos nos territórios ocupados da Cisjordânia, onde atualmente vivem mais de 200 mil israelenses.

Tradução: Danilo Fonseca San Francisco Chronicle

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