Estados Unidos fracassaram em antiga caçada por terrorista

Dick. J. Reavis

Columbus, Novo México - Como a maioria dos americanos, o aposentado Richard Dean está furioso com os terroristas. Por isso quer que o Estado do Novo México mude o nome de um parque estadual que, segundo ele, homenageia um "terrorista" morto há mais de 80 anos: o revolucionário mexicano Francisco "Pancho" Villa.

O Parque Estadual Pancho Villa é um jardim botânico de cactos, com área de camping, em Columbus, cidade próxima à fronteira com o México, a 120
quilômetros de El Paso.

"Depois de 11 de setembro não há motivos para se ter qualquer coisa no Novo México com o nome de um terrorista", diz Dean, que mora em Columbus. O bisavô de Dean, o comerciante James T. Dean, foi morto com mais de uma dezena de moradores e soldados em 1916 num ataque à cidade planejado por Villa.

Hoje traçam-se paralelos entre a caçada por Villa que se seguiu ao ataque, e a iniciativa liderada pelos Estados Unidos para capturar Osama bin Laden, após os atentados de 11 de setembro.

Pouco antes do amanhecer na quinta-feira, 9 de março de 1916, Columbus foi despertada pelo ruído da invasão e disparos de armas. Cerca de 500
mexicanos, 50 deles a cavalo, saquearam casas e lojas e incendiaram o
principal edifício da cidade, o Commercial Hotel, matando hóspedes,
moradores e empregados que não conseguiram fugir.

Os soldados estacionados em Camp Furlong, um posto-avançado da cavalaria em Columbus, puseram-se em ação, matando cerca de cem dos invasores e obrigando os demais a fugir. Os soldados perseguiram os mexicanos, derrubando outros cem.

Dez soldados americanos e nove civis morreram no ataque a Columbus. No corpo de um dos atacantes foi encontrada uma carta escrita por Villa para Emiliano Zapata, outro dissidente da Revolução Mexicana. A carta falava em atacar os Estados Unidos. Em 1916, o futuro do México ainda não era um assunto decidido, e aparentemente Villa acreditava que reforçaria a causa insurgente se provocasse uma invasão ianque.

O país soube do ataque a Columbus antes que as cinzas do Commercial
esfriassem, e em todo o sudoeste circularam rumores. Na segunda-feira, o
jornal "San Antonio Express" relatou que oficiais do Forte Sam Houston
haviam desvendado um complô "entre simpatizantes de Villa no Texas" para
explodir a estrada de ferro Southern Pacific perto de Del Rio. Milícias
foram formadas até o norte de Dallas, e guardas ficaram em alerta em
armazéns e pontes em outros locais do Texas.

Em 10 de março o presidente Woodrow Wilson disse: "Uma força adequada será enviada imediatamente em perseguição a Villa, com o único objetivo de capturá-lo e fazê-lo parar com suas incursões".

"Capturem o bandido morto ou vivo", declarou uma manchete do "San Antonio
Express".

Mas poucos meses antes Villa não era um bandido, e sim um amigo das
autoridades de Washington, que o chamaram de "único instrumento de
civilização no México" e o abasteceram de armas e ouro. Wilson admirava
Villa porque o rebelde se abstinha de tabaco e de álcool.

O ataque a Columbus transformou o insurgente mexicano de herói em vilão
quase da noite para do dia. Wilson nomeou o major-general Frederick Funston, comandante do Forte Sam Houston, para chefiar a caçada humana. Funston escolheu como comandante de campo um brigadeiro tarimbado no combate contra os guerrilheiros filipinos, John J. "Black Jack" Pershing.

Em 16 de março Pershing avançou pelo Estado mexicano de Chihuahua, no que
foi chamado de "Expedição Punitiva", com 4.800 soldados de cavalaria e 4.175 animais. Os biplanos do Primeiro (e único) Esquadrão Aéreo, baseados no Forte Sam Houston, foram enviados a Columbus para aguardar sua chamada.

O governo do general Venustiano Carranza, que os Estados Unidos reconheciam como presidente do México, não se opôs à incursão, e de maneira oficiosa ajudou Pershing no início.

A vantagem tecnológica dos Estados Unidos -os aviões- logo se mostrou
decepcionante. Em um mês o Esquadrão Aéreo abandonou seus aparelhos, pois
não eram adequados para o terreno acidentado de Chihuahua.

Pershing também teve problemas com a inteligência. Ele e seus oficiais se
queixaram de que a informação dos mexicanos, civis e militares, era
habitualmente errada ou mesmo falsa. Embora suas forças tenham penetrado
pelo México 560 quilômetros em duas semanas, vasculhando o território, não avistaram sua presa.

A indiferença mexicana à missão de Pershing refletia o clima geral.
"Praticamente todo mexicano encontrado até agora questionou nosso direito de estar no México", escreveu o coronel Frank Thompkins num diário de campanha.

No final de março os "villistas" atacaram as forças de Carranza em Guerrero, tomando a cidade, mas a um alto preço. Villa levou um tiro no joelho e se refugiou numa caverna para tratar o ferimento durante dois meses ou mais.

"Diz a lenda que todo mundo sabia onde Villa estava, menos Pershing", diz o historiador Gilberto Hinojosa, da Universidade Incarnate Word em San Antonio (Texas).

Semanas antes de se esconder Villa fora considerado morto. "O Departamento da Guerra anunciou hoje que tem motivos para acreditar que Francisco Villa foi morto em ação", informou a agência Associated Press em 11 de abril.

O governo Carranza, afirmando que suas fontes de inteligência também
registravam a morte de Villa, logo começou a pedir que os Estados Unidos
retirassem suas tropas. Em meados de abril Pershing estava desanimado com os resultados obtidos por seus homens.

"É muito provável que o verdadeiro objetivo de nossa missão no México só
possa ser atingido após uma árdua campanha de duração considerável", ele
escreveu a Funston. "O território pelo qual nossa cavalaria está operando é desconhecido de todos os membros de nosso comando ... [e] é habitado esparsamente por pessoas ignorantes, geralmente inconfiáveis e quase totalmente aterrorizadas pelos bandos itinerantes de assaltantes e
bandidos".

Em 16 de abril o general americano começou a deslocar sua cavalaria para o norte. Em setembro o contumaz Villa reapareceu, chefiando uma força rebelde que logo tomou as cidades de Parral e Camargo, em Chihuahua. Em 23 de novembro ele e seus homens invadiram Chihuahua City e executaram cerca de cem mexicanos-chineses que tentavam fugir.

Em comunicações com amigos e superiores, Pershing, Funston e um jovem
oficial em ascensão, George Patton, defendiam a ocupação americana de
Chihuahua. Mas em novembro Wilson foi reeleito e não tinha ânimo para
aventuras mexicanas.

No início de janeiro de 1917, quando os homens de Villa sofreram uma derrota numa batalha com tropas mexicanas ao norte de Torreon, as autoridades americanas aproveitaram a oportunidade para declarar sua derrota. Wilson ordenou que Pershing saísse do México.

Dois anos depois Emiliano Zapata foi assassinado, reduzindo as esperanças da causa revolucionária mexicana. Villa permaneceu preso até 1920, quando Carranza foi derrubado. Aceitando uma oferta de paz do governo, o líder rebelde se retirou para um rancho no Estado de Durango, mas foi morto em 1923, provavelmente por antigos seguidores de Carranza.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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