As crianças perdidas do Afeganistão

Don Melvin

PESHAWAR, Paquistão - O futuro do Afeganistão está perambulando pelas ruas de Peshawar, sujas, magras e traumatizadas, mendigando moedas e catando papelão para reciclagem por algumas rupias a mais.

Centenas de milhares de crianças afegãs são refugiadas no Paquistão,
ganhando a vida com dificuldade e às vezes sustentando suas famílias. Muitas delas já viram a violência, infligida pelo Taleban ou na guerra contra os invasores soviéticos ou, mais recentemente, por mísseis americanos e britânicos.

Todas foram desarraigadas. Muitas nunca foram a uma escola. E a maioria,
dizem os especialistas, já está comprometida psicologicamente.

Para o Afeganistão, estes são os líderes de amanhã.

"Eu estou muito preocupado com o futuro", disse Abdul Qayum, um médico
afegão que trabalha em um campo de refugiados em Jalozai, Paquistão.

"Se um prédio desmorona, ele pode ser reconstruído", disse ele. "Mas uma
criança não pode ser reconstruída. Se é criada na rua, se é criada sem
educação, ela se tornará criminosa, partirá para o roubo. É com isto que
estou muito preocupado".

O Afeganistão esteve em guerra durante grande parte do último quarto de
século, e a maioria destas crianças já estavam aqui antes mesmo do início dos ataques aéreos aliados. Um relatório, divulgado em julho pela Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, diz que mais de 620 mil afegãos com 17 anos ou menos estavam refugiados no Paquistão. Tal número só pode ter aumentado nas últimas semanas, à medida que o Afeganistão se vê novamente em guerra.

Entre os recém-chegados está Hassan, que tem 12 anos mas é tão pequeno e
magro que parece ser mais jovem. Ele chegou recentemente com sua família, vindo da cidade afegã de Qunduz, para escapar da guerra, disse ele, e agora eles vivem em uma tenda.

Hassan disse que a barba de seu pai é longa e que ele não pode mais
trabalhar. Sua madrasta é cega.

Assim Hassan - que como muitos afegãos só tem um único nome- perambula pelas ruas de Peshawar carregando uma velha caneca na qual os transeuntes podem jogar alguns trocados.

"Eu estou mendigando alimento para minha família", disse ele.

Às vezes ele coleta 10 rupias por dia, cerca de 17 centavos de dólar (R$
0,46). Em um bom dia ele leva para casa 25 rupias, ou 42 centavos de dólar (R$ 1,15).

No Afeganistão, Hassan freqüentava a escola. Mas não mais.

"Eu gostaria de voltar para a escola", disse ele. "Quando eu crescer, eu
penso em trabalhar em construção. Eu gostaria de trabalhar por um salário diário".

Mas quando a paz chegará ao Afeganistão e permitirá que ele volte para casa, ninguém sabe. "A única coisa que vi foi guerra", disse ele.

Hassan passa o dia todo com seu novo amigo, Mohammad Rajab, que chegou
recentemente com sua família do Afeganistão.

Mohammad, que também tem 12 anos, nunca foi a uma escola e não sabe escrever seu nome. Ele carrega consigo um saco de estopa que enche de garrafas e papelão para reciclagem. Ele ganha o mesmo que Hassan; no final do dia eles dividem igualmente o que arrecadaram.

Para uma criança, testemunhar a violência, ser desarraigada e ter que se
defender sozinha "pode resultar no desenvolvimento de desordens traumáticas, ansiedades, fobias e, é claro, depressão", disse Erum Irshad, uma psicóloga da Universidade de Peshawar.

Algumas destas crianças se tornarão impulsivas, apresentarão padrões
inconstantes de comportamento, disse ela. Algumas até mesmo serão incapazes de tomar decisões ousadas.

Para outras, ela previu, o resultado será diferente.

"Elas testemunharam tanta crueldade que desenvolverão características
sádicas", disse ela. "Algumas delas serão insensíveis à crueldade".

E para o Afeganistão, disse ela, "eu acho que o futuro não é otimista".

Syeda Jahangir, diretora do departamento de psicologia da Universidade de Peshawar, disse que muitas destas crianças desenvolverão desordens por estresse pós-traumático. E os problemas psicológicos não se limitarão às crianças refugiadas, disse ela, mas também afetará aquelas que permaneceram no país.

"Naturalmente, se uma geração está vivendo constantemente sob ameaça, ela desenvolverá muitos problemas de personalidade", disse ela. "As crianças, independente de onde sejam e de onde estejam, ainda são crianças. Elas são inocentes. Elas não deveriam sofrer desta forma".

Não há dúvida de que o sofrimento está disseminado. Qayum trata crianças
afetadas em um campo de refugiados. Ele vê crianças deprimidas e outras
propensas a ataques espontâneos de choro.

"Há uma geração destruída e arruinada no Afeganistão", disse ele.

E algumas crianças abandonaram a esperança no futuro e não mais pensam
nisso.

Tooryalai Laghman, que tem 12 anos, também coleta lixo reciclável, mas
diferente de Hassan e Mohammad, ele está fazendo isto há anos.

Ele não tem idéia do que fará quando crescer e ele não pensa mais em
estudar. "Se eu for à escola, quem alimentará minha família?"

Tradução: George El Khouri Andolfato

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