Situação no Afeganistão parece cada vez mais complicada

Jim Michaels

Khoja Bajawuddin, Afeganistão -- Ainda não é um atoleiro, mas a terra está ficando lamacenta no Afeganistão.

A Aliança do Norte conquistou pouco terreno desde o início dos bombardeios, as forças de resistência estão longe de concordar sobre um governo pós-Taleban e os ataques americanos não quebraram a perseverança do Taleban.

O governo Bush disse que os resultados devem ser medidos em meses e anos, não em dias, e que vitórias militares vão demorar a ser atingidas.

"Esta não é apenas uma campanha de bombardeio", disse uma autoridade do Departamento de Estado que pediu para não ser identificada.

Entretanto, analistas independentes dizem que os objetivos agora parecem ainda mais distantes, e o caminho para atingi-los não está nada claro.

"Vai demorar um pouco e será um processo desordenado", disse Teresita Schaffer, ex-embaixadora dos EUA no Afeganistão, hoje no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, um grupo de estudos com sede em Washington. "Está cada vez menos claro como encaixar todos os pedaços do Humpty Dumpty".

Os bombardeios, agora em sua quarta semana, desativaram as defesas antiaéreas do Taleban, atingiram campos de treinamento da Al Qaeda e levaram o Taleban a esconder suas armas e artilharias pesadas. Mais recentemente, os aviões americanos atingiram unidades da linha de frente do Taleban.

Entretanto, além da região de Masar-i-Sharif, no norte, existe pouco movimento em terra em qualquer direção. Comandantes da resistência dizem estar apenas esperando ordens de seu Ministério da Defesa antes de iniciar sua ofensiva.

"Todos os comandantes estão sob o controle do Ministério da Defesa", disse Mohammed Kabeer Marzban, comandante que governa diversas regiões, inclusive Khoja Bahauddin, antigo reduto de Ahmad Shah Massoud, líder da Aliança do Norte assassinado no dia 9 de setembro.

Os analistas, entretanto, disseram que não será fácil para a Aliança sustentar uma grande ofensiva. Antes de 11 de setembro, a Aliança do Norte planejava apenas manter seu território e talvez tomar Talaqan, uma cadeia de montanhas no norte. Agora, se pede que monte uma ofensiva em diversas frentes, com linhas de suprimento frágeis por longas distâncias.

Além disso, a Aliança do Norte não tem certeza que terá o apoio aéreo americano que necessita para atacar, ou as enormes quantidades de ajuda humanitária para alimentar os pobres, quando conquistar seus objetivos. Em resumo, os membros da Aliança estão inseguros quanto ao apoio americano.

Isso levou a Aliança, composta de vários chefes, a não querer arriscar seus homens e armas, a não ser que tenham bastante certeza da vitória e do suporte americano. "Eles não querem ficar a ver navios", disse David Isby, consultor militar que escreveu vários livros sobre a região.

Alguns comandantes talvez se perguntem se vale correr o risco. Será que os EUA vão continuar a dar apoio depois que iniciarem um ataque, ou cederão às preocupações paquistanesas quanto à Aliança do Norte? "Eles assumem todas as perdas, derrotam o Taleban, e os americanos vêm e dizem que o poder e os bens vão para os pashtuns" -a tribo pró-Paquistão- e outros grupos que os EUA esperam que tomem parte em um governo pós-Taleban, disse Isby.

Enquanto isso, existem evidências que uma grande ofensiva seria um risco para a Aliança. O Taleban parece ainda ter muito poder de fogo.

O general Adburrashid Dostum, um comandante controverso que está liderando o ataque às forças do Taleban em torno de Mazar-i-Sharif, tem sido repelido pelas forças do Taleban, mesmo com o apoio dos ataques aéreos americanos.

"O problema é começar", disse James Phillips, pesquisador da Heritage Foundation, de Washington. "É por isso que Mazar-i-Sharif é tão importante".

O olhar desconfiado da Aliança do Norte aos EUA é recíproco.

Os EUA reconhecem que a Aliança do Norte é o maior grupo de resistência ao Taleban e a maior esperança de derrotá-lo. A Aliança é, em grande parte, criação de Massoud, líder carismático que ajudou a formar um exército organizado e também manteve unido um grupo diverso de comandantes competitivos. Entretanto, ela está longe de ser representativa do país, de constituição étnica variada. Ela não poderia governar o país sem a representação de outros grupos. A Aliança do Norte é principalmente constituída de tadjiques e uzbeques, que perfazem aproximadamente 31% da população do país. O Taleban é principalmente pashtun, que são 38% da população.

Os Estados Unidos vêm pressionando a resistência para que amplie as fileiras de seus líderes, passando a incluir pashtuns e outros grupos. A pedido das Nações Unidas, o rei afegão deposto, Mohammed Zahir Shah, está reunindo uma 'loya jirga', ou congresso, um primeiro passo para a formação de um governo mais amplo.

Os analistas, no entanto, preocupam-se que a assembléia se degenere em uma discussão sem resolução. "São povos acostumados a brigar", disse Schaffer.

Para complicar, a Aliança do Norte teme que o Paquistão esteja tendo um papel grande demais na formação de um governo posterior ao Taleban e intrometendo-se no curso da guerra no Afeganistão.

O Paquistão, dominado por pashtuns, apoiou o Taleban durante anos, e a Aliança do Norte se ressente profundamente disso. "O que se pede do Paquistão é que não imponha outro governo marionete ao Afeganistão", disse o ministro de relações exteriores da Aliança do Norte, Abdullah Abdullah, em uma conferência com a imprensa em Khoja Bahauddin, recentemente.

Vários comandantes da Aliança dizem que consideram o Paquistão o inimigo número um do Afeganistão, com Osama Bin Laden em segundo lugar, primariamente porque é suspeito de matar Massoud.

"Os EUA estão ouvindo o Paquistão, que quer salvar seus investimentos no Taleban", disse Phillips.

A autoridade do Departamento de Estado americano disse que Bush está interessado somente em construir um governo com ampla base no Afeganistão. "A Aliança do Norte não é o governo do Afeganistão", disse a autoridade. "É preciso trazer todos à mesa".

Os EUA também estarão trabalhando para assegurar que um governo pós-Taleban rejeite muitas das políticas extremistas do Taleban, inclusive a proibição de educação de mulheres e o requerimento que os homens usem barbas, e as mulheres, 'burquas' (véus) até o chão.

Isso também não será fácil. A Aliança do Norte é claramente mais moderada que o Taleban. Existem escolas para mulheres nos territórios controlados pela Aliança, que ocupam aproximadamente 10% do país. Os líderes da resistência dizem que são a favor de educação e trabalho para as mulheres. Mas ainda não se sabe quão sério é o compromisso da Aliança com essa questão, já que alguns dos comandantes esposam opiniões muçulmanas fundamentalistas.

"Quando as pessoas falam sobre os afegãos moderados ou liberais, pergunto-me se estão regulando bem", disse Schaffer.

Tradução: Deborah Weinberg Albany Times Union

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