Taleban é obrigado a fazer escolhas com a chegada do inverno

Carol Nolte

Washington - Caso o Taleban não consiga, de alguma maneira, reconquistar sua força no Afeganistão, a milícia terá três alternativas nos próximos dias -todas elas desanimadoras.

De acordo com o Pentágono e especialistas que estão em campo, o Taleban pode ou recolher-se em cavernas e túneis nas montanhas para recorrer a uma guerra de guerrilha, ou refugiar-se até o final do inverno, ou então tentar reagrupar forças na fronteira com o Paquistão.

"Eles não contam com chances muito boas", afirmou Dan Smith, analista do Centro de Informações de Defesa.

Caso as lideranças do Taleban consigam restaurar o comando e o controle sobre suas forças, a milícia ainda poderá combater. Caso contrário, terá que regressar a uma fase defensiva.

Alguns analistas acreditam que o Taleban já esteja em fase de dissolução. "O Taleban não existirá daqui a um mês", afirma Stephen Cohen, um pesquisador senior da Brookings Institution em Washington. "Eles serão carregados pelo vento".

Ele acredita que o Taleban perdeu muito território e muita força em uma semana de recuos.

Mas o vento também inspira preocupações. "Não creio que eles tenham sido derrotados", afirmou Michael O'Hanlon, um especialista em questões de segurança para a Ásia da Brookings Institution. "Eles contam com um grande número de estratégias".

O almirante John Stufflebeem, vice-diretor de operações da Força Aérea, apresentou algumas destas estratégias em uma entrevista concedida nesta quarta-feira no Pentágono.

Ele afirmou que contava com provas de que algumas das forças do Taleban já haviam ingressado no Paquistão. Muitos integrantes do Taleban receberam treinamento militar e religioso no Paquistão, especialmente ao redor das cidades de Quetta e Peshawar e também em Provincecq, na fronteira ao noroeste, aonde existem escolas fundamentalistas e um forte apoio tanto para Osama bin Laden quanto para o mullah Mohammed Omar, o líder do Taleban.

Há uma grande chance de que o Taleban siga rumo ao país vizinho e se reagrupe, afirmou Abdul Raheem Yasser, diretor-assistente do Centro para Estudos Afegãos da Universidade de Nebraska em Omaha.

O Paquistão oferece vantagens. Em primeiro lugar, o país é um santuário. "A idéia de que os aviões americanos possam bombardear o Paquistão está inteiramente descartada", afirma Cohen. "Também a idéia de que o exercito paquistanês possa combater estas pessoas dentro do Paquistão deve ser inteiramente descartada", ele diz, por conta da forte oposição dentro do país.

Mas ainda que seja um santuário, o Paquistão é um santuário estéril. O governo paquistanês apóia os Estados Unidos na guerra contra o terrorismo, e se o país não lançou seu exército contra o Taleban, é também improvável que o país permita que fugitivos utilizem o território para lançar uma ofensiva em território afegão.

Com isto sobram as montanhas e os refúgios. Stufflebeem afirma que uma das opções para o Taleban seria esconder-se "nas cavernas".

"O combate de guerrilha a partir de posições indeterminadas é parte da história do país", aponta Stufflebeem. Entretanto, os guerrilheiros encurralados em uma base limitada nas montanhas do sul não terão como controlar um país com tamanho aproximado ao do estado do Texas.

A última opção para o Taleban seria se dispersar pelo interior do país - outra tradição das guerras no Afeganistão. O Taleban poderia silenciar e aguardar o final do inverno.

"O Taleban ainda pode se recuperar", afirma O'Hanlon. A Aliança do Norte é composta por usbeques e tadjiques e integrantes de outras tribos do norte. A maior parte do Taleban e composta por pashtuns, e o sul é território pashtu. "Eles poderão utilizar os pashtuns e seus conhecimentos a respeito do país", afirmou O'Hanlon, para esconder-se e recrutar novos soldados.

"Até mesmo contra os russos, alguns dos combatentes voltaram para suas casas no inverno e venderam seus rifles em bazares", afirma Cohen. "Eles (os mujahedines) se reagruparam mais tarde".

Entretanto, o Pentágono fala em tentar convencer os combatentes do Taleban a trocarem de lado, e caso eles retornem aos vilarejos, esta será a grande oportunidade, afirma O'Hanlon.

"Temos que fazer com que os pashtuns desertem" e não se unam novamente ao Taleban, ele disse. "Devemos empregar todos os recursos possíveis - promessas de auxílio para a economia regional e até mesmo propina".

Esta espécie de tática não funciona com um exército convencional e disciplinado. Mas estes combatentes não são nem uma coisa e nem outra.

"O poder não depende do controle sobre cidades como Cabul ou Candahar", afirmou Cohen, "mas sim da adesão de tribos e subtribos".

Stufflebeem afirmou que as forças que enfrentam o Taleban em Candahar consistiam de "23 ou mais tribos, e várias tribos pashtu que se opunham ao Taleban".

O mosaico nacional é tanto a fraqueza quanto a força do Afeganistão. O país jamais foi conquistado por estrangeiros, mas o Afeganistão jamais operou por muito tempo como uma nação - no sentido moderno - por causa de suas divisões étnicas e tribais.

"Eles são guerreiros ferozes", afirmou Cohen, "muito dispostos à guerra, mas sem muito controle".

Além disso, as guerras afegãs estão marcadas pela mudança de posições me favor daquele que aparentemente virá a ser o vencedor. "A eficácia é tudo nesta parte do mundo - se somos vencedores, eles nos apoiarão", afirma Martin Indyk, ex-embaixador americano em Israel. "Eles não querem ficar do lado dos perdedores".

O súbito colapso do Taleban ocorreu às vésperas do mês sagrado do Ramadã, que terá início no sábado, e às vésperas do inverno. "As próximas semanas serão decisivas", afirmou Smith. "Depois de passado o Ramadã, nós veremos o que ainda resta".

Tradução: André Medina Carone San Francisco Chronicle

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