George Harrison foi o Beatle mais corajoso

Hector Saldana

George Harrison não era o Beatle quietinho. Ele era sim o mais corajoso.

Ele era o garoto que disse ao vaidoso produtor de gravações da Parlophone, George Martin, que não gostava da sua gravata.

Na época, verão de 1962, o quarteto havia sido rejeitado por todas as gravadoras de Londres, e John, Paul, George e Ringo haviam acabado de conhecer um homem que guiaria o seu destino musical.

Todos os quatro tinham o toque mágico de sagacidade dos Beatles, mas Harrison - o caçula do grupo - era o melhor nesse departamento. "Quem nasce em Liverpool precisa ser um comediante", dizia Harrison, referindo-se a sua primeira apresentação, em junho de 1962.

Ele morreu também de forma corajosa, de câncer, em Los Angeles, na tarde de quinta-feira, ao lado da esposa, Olívia, e do único filho, Dhani. Harrison tinha 58 anos.

Paul McCartney costumava dizer que George era um homem corajoso, "realmente o meu irmãozinho".

Tudo passa ("All Things Must Pass", título de um dos seus álbuns), e Harrison sabia disso.

Enquanto John e Paul cantavam "I Want to Hold Your Hand", George, o guitarrista principal do grupo, lançou "Don't Bother Me" (Não me Perturbem), em meio ao frenesi da beatlemania.

Nos últimos anos, na sua mansão milionária na Inglaterra, Harrison ficava feliz em cuidar do jardim e em não ser perturbado.

Entre os Beatles, ele foi o primeiro a se ligar na religião e na filosofia oriental, na música de cítara de Ravi Shankar, e também o primeiro a fazer uma viagem com LSD.

A espiritualidade veio para ficar.

"No quadro geral das coisas, realmente não faz a menor diferença se lançássemos um disco ou se nunca tivéssemos cantado uma música", disse Harrison no livro "Beatles Anthology".

"Na hora da morte, precisaremos de alguma forma de orientação espiritual e de algum tipo de conhecimento interior que vai além das fronteiras do mundo físico".

Harrison foi o primeiro a ousar trazer músicos de fora para o mundo isolado dos Beatles, enfrentando a oposição - e algumas vezes a fúria - de Lennon e McCartney.

Eric Clapton contribuiu para o assombroso solo de guitarra na música "While My Guitar Gently Weeps" no álbum duplo dos Beatles de 1968, o chamado "Àlbum Branco". Clapton e Harrison acabariam se tornando grandes amigos.

"É interessante presenciar como as pessoas se comportam bem quando você traz um convidado, porque eles não querem que se saiba como são desbocados", disse Harrison em "Beatles Anthology", referindo-se àquela temporada.

Harrison trouxe também o pianista Billy Preston até os Beatles, para fazer com que os seus parceiros não se tornassem arrogantes e "apresentassem a faceta melhor do seu comportamento". Devido à insistência de Harrison, Preston acabou sendo o único músico não pertencente ao grupo a receber crédito por uma música dos Beatles.

"A presença dessa quinta pessoa foi o que bastou para quebrar o gelo que havíamos criado entre nós", diria Harrison no livro. "Billy não sabia de toda a política e jogos que estavam rolando em nosso meio". Mas coube a Harrison enfrentar um cada vez mais dominante McCartney durante a fatídica temporada "Let It Be", em frente às câmeras - que expôs todos os problemas do grupo. Lennon se retirou com Yoko Ono, e Ringo observou, calado. Foi um desastre para a mais importante banda de rock do mundo.

O relacionamento de Harrison com o baixista que o trouxe para o grupo quando ele tinha apenas 15 anos se tornou "ridículo" e "sufocante".

Mas a acrimônia passou, e anos após o assassinato de Lennon, em dezembro de 1980, Harrison, McCartney e Starr estiveram juntos durante uma festa de casamento.

Ele era o melhor músico dos Beatles. Não era um grande solista, mas os seus refrões e acordes na guitarra Gretsch Country Gentleman criavam melodias que ficavam marcadas na mente dos ouvintes. A sua performance com a cítara em "Norwegian Wood" literalmente criou o raga rock.

No seu auge, a sua habilidade para compor se equiparou aos melhores trabalhos de Lennon e McCartney. Frank Sinatra costumava dizer que "Something" era "a música mais bela já composta".

Sinatra, no entanto, anunciou erroneamente a canção durante um concerto como sendo uma composição de Lennon-McCartney. Harrison foi o primeiro Beatle a lançar um álbum solo - "Wonderwall Music", em 1968, e também o primeiro a alcançar o primeiro lugar nas paradas de sucesso após a ruptura da banda, em 1970.

Mas o sucesso de "My Sweet Lord", do álbum "All Things Must Pass" teve um sabor agridoce. Ele seria processado e perderia a causa, por ter inconscientemente feito um plágio do sucesso do Chiffons, de 1962, "He's So Fine".

Ele criou o primeiro evento de caridade do rock de dimensões gigantescas, o Concerto para Bangladesh, duas apresentações no Madison Square Garden, em 1971, com os convidados Bob Dylan, Leon Russel, Ringo Starr e Eric Clapton - anos antes de tais eventos se tornarem uma prática comum.

Harrison fez um retorno no final dos anos 80com o álbum "Cloud Nine" e como membro do grupo Traveling Wilburys, com Bob Dylan, Tom Petty, Jeff Lynne e Roy Orbison.

Em 1998, ele revelou que tinha um câncer na garganta. Em 1999, na sua casa, foi esfaqueado várias vezes no tórax por um intruso, um fã louco dos Beatles.

No início da década de 70 Harrison gravou o álbum "Living in the Material World". No final, a família dele disse em uma declaração: "Ele deixou este mundo como viveu, consciente de Deus, sem temer a morte e em paz, rodeado pela família e pelos amigos".

De fato, ele foi o Beatle corajoso.

Tradução: Danilo Fonseca San Antonio Express-News

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