"Senhor dos Anéis" desperta amor e ódio em críticos literários

Wayne Lee Gay

A crítica britânica Germaine Greer pode ter ganhado o prêmio pelo comentário mais condescendente quando, em 1997, escreveu: "O meu pesadelo era pensar que Tolkien poderia se tornar o escritor mais influente do século 20. O meu pesadelo se materializou".

Mais de um quarto de século após a sua morte, J.R.R. Tolkien continua sendo uma das figuras mais lidas da história literária - e também uma das mais atacadas pela crítica. Com o lançamento do filme "O Senhor dos Anéis: A Sociedade dos Anéis", baseado na primeira parte da sua trilogia de fantasia épica, ele volta ao centro da polêmica literária.

"O Senhor dos Anéis", a obra-prima de três volumes de Tolkien, tem sido um sucesso de vendas em livraria de todo o mundo há décadas, assim como o livro "O Hobbit", uma estória independente que serve de prólogo à trilogia. "O Senhor dos Anéis" vendeu mais de 50 milhões de cópias nos quase 50 anos decorridos desde o seu lançamento. "O Hobbit" vendeu mais de 40 milhões de cópias.

E muitos críticos ainda estão rilhando os dentes devido à influência dos livros. O professor Harold Bloom, da Universidade de Yale, por exemplo, caracteriza o trabalho de Tolkien como "bombástico, prolixo, tendencioso e extremamente moralista".

Dificilmente alguém poderia ter escolhido uma figura mais improvável para obter um sucesso comercial tão incrível, ou para sofrer críticas tão cáusticas. Tolkien, professor profissional, era calado, dotado de comportamento discreto e surpreendentemente simples nos seus gostos.

De fato, a criação de "O Senhor dos Anéis" foi quase que um incidente na sua carreira de filólogo e professor de anglo-saxão da Universidade de Oxford. O seu interesse por idiomas levou a uma criação compulsiva de pseudo-línguas, às quais ele agregou um mundo pseudo-épico e imaginário, habitado por anões, elfos, fadas, gnomos, orcs e, é claro, pelos hobbits, um ramo da espécie humana caracterizado pela atração pelos prazeres simples e por uma aversão à aventura e à mudança.

Embora o interesse pelo trabalho de Tolkien tenha sido uma constante desde a publicação inicial dos seus livros, o filme gerou uma nova atenção em meio ao debate acadêmico sobre a significância de Tolkien no universo literário. Alguns acadêmicos, como Tim Morris, professor de inglês da Universidade do Texas, possuem sentimentos contraditórios com relação ao "Senhor dos Anéis".

"É uma das minhas obras favoritas", diz Morris, lembrando-se que leu os livros pela primeira vez quando era criança. "Ele teve uma grande influência sobre a música popular, jogos de representação teatral e sobre o cinema".

Mas a avaliação profissional de Morris difere da sua atração pessoal pela obra.

"A primeira parte é bem escrita, mas a trilogia vai ficando desinteressante à medida em que se desenrola", diz ele. "Dentro do gênero, a obra é excelente, mas eu não a compararia a 'Lolita' ou a 'Ulisses'".

Mas há quem defenda os livros de Tolkien.

O britânico Tom Shippey, que leciona inglês na Universidade de Saint Louis, afirma que a obra de Tolkien está entre as maiores do século. Shippey, que conheceu Tolkien, fez de si próprio o mais proeminente acadêmico pró-Tolkien do mundo, aumentado a polêmica em torno do autor com a recente publicação do seu livro "J. Tolkien: O Autor do Século".

"A obra possui uma enorme profundidade lingüística, histórica e geográfica", disse Shippey em uma recente entrevista. Shippey observa que , em "O Senhor dos Anéis", Tolkien não só inventou a trilogia fantástica, que se transformou em um padrão e em um estilo bastante imitado, mas também forneceu aos seus leitores um mundo complexo, fascinante e claramente definido, com várias linguagens diferentes.

"Durante 50 anos ele vêm recebendo uma avaliação consistentemente alta dos leitores", diz Shippey. "Ele escreveu sem compromisso algum. 'O Senhor dos Anéis' é a obra literária mais influente do século 20".

No seu livro, Shippey acusa energicamente que grande parte da hostilidade para com Tolkien tem como origem o esnobismo intelectual e impregnado de consciência de classe, e até mesmo o preconceito daqueles que fazem parte dos círculos intelectuais dominados por protestantes contra o catolicismo fervoroso e praticante de Tolkien.

A enorme popularidade de "O Senhor dos Anéis" pode também ter gerado alguns dos ataques acadêmicos.

"Os acadêmicos têm uma desconfiança permanente para com tudo o que seja popular", afirma Neil Easterbrook, membro do departamento de inglês da Universidade Cristã do Texas e defensor e admirador da obra de Tolkien.

Pouca coisa na biografia de Tolkien fornece pistas para a fonte de tanta polêmica literária.

Tolkien era feliz com a sua vida sossegada de professor, mas um dia, enquanto dava notas para alguns trabalhos, no início da década de 30, o autor, em um momento de tédio, escreveu a famosa linha que inicia "O Hobbit": "Em um buraco no solo vivia um hobbit". Liberado enfim, o mundo de Terra-Média fluiu livremente do cérebro de Tolkien e, com o passar dos anos, evoluiu rumo a um adorável épico. A publicação de "O Hobbit", em 1937, seguido por "O Senhor dos Anéis", em 1954-55, criou modismos que chegavam ao limiar da idolatria nos anos 60. Os jovens americanos da era Vietnã, de forma especial, encontraram na Terra-Média de Tolkien um lar espiritual que estava em harmonia com a contracultura da época.

O próprio Tolkien nunca admitiu a existência de alegorias ou metáforas de tipo algum na sua fantasia épica mas, assim como todas as grandes obras da literatura, "O Senhor dos Anéis" está susceptível a múltiplas interpretações.

Shippey demonstra notáveis paralelos entre a narrativa de Tolkien e eventos históricos que giram em torno da Segunda Guerra Mundial, que ocorreu à época em que Tolkien estava escrevendo "O Senhor dos Anéis". E, a identificação de uma metáfora do poder atômico no poderoso anel em torno do qual a estória se desenrola é algo de irresistível para muitos leitores e críticos.

Tolkien chegou a dar uma declaração controversa, que muitos dos seus leitores acham difícil de aceitar, quando escreveu a um amigo em 1953: "'O Senhor dos Anéis' é, sem dúvida, um trabalho fundamentalmente religioso e católico".

Ele vai além, a fim de explicar que é precisamente por isso que não há virtualmente referência alguma à religião no livro: "O elemento religioso está impregnado na estória e no simbolismo".

Jane Chance, que leciona uma disciplina sobre Tolkien na Universidade Rice observa que, qualquer que seja a sua fonte, existe muito conteúdo moral em "O Senhor dos Anéis", o que vai fazer com que o livro seja relevante para muitas gerações que ainda estão por vir.

"A obra tem muito a dizer sobre a natureza do bem e do mal, bem como sobre o poder e o valor de um indivíduo", afirma Chance.

Tradução: Danilo Fonseca Fort Worth Star-Telegram

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