Combatido no Ocidente, ópio é esperança de vida melhor no Afeganistão

Anna Badkhen

Dara-E-Nur, Afeganistão -- Begham está imersa em seus infortúnios. O seu trabalho é tão difícil que ela negligencia a dor que ele gera em locais que ficam a milhares de quilômetros da sua vila no sudeste do Afeganistão.

Mas é o trabalho de Begham que a auxilia a manter a sua família de 12 pessoas alimentada e vestida. E é essa também a razão pela qual quase toda família dessa vila de cinco mil habitantes possui parentes que cultivam a papoula para a produção do ópio.

Todas as manhãs, a mulher magra e exausta desce por um caminho de pedras escorregadias até o terreno da família, de seis hectares, passando por milhares de pés de papoulas cuidadosamente cultivados que se derramam como uma cascata das montanhas rochosas até os vales abaixo, onde as plantações são feitas em terraços construídos em curva de nível.

Daqui a três meses, o verde pálido exótico que cobre o vale dará lugar a um vermelho com a tonalidade de sangue, quando os botões de papoula começarem a desabrochar. Um mês depois, as pétalas das flores cairão. Por volta de junho, os camponeses terão secado os sacos de sementes, transbordantes de resina de ópio, sob o sol forte das montanhas.

É nesse momento que os compradores do vizinho Paquistão chegam, e a colheita, bem como o seu subproduto - a heroína - inicia a sua jornada a partir dos vales poeirentos e esturricados pelo sol do Afeganistão, até os mercados lotados do Tadjiquistão e Turcomenistão, para os apartamentos sombrios de Moscou, e para as discotecas, guetos e campus universitários da Europa Ocidental e Estados Unidos.

O ópio é a mais rentável cultura agrícola do Afeganistão. As quatro mil toneladas produzidas aqui anualmente respondem por cerca de três quartos do abastecimento da Europa e 15% do norte-americano, segundo o Programa das Nações Unidas para o Controle de Drogas. Segundo as autoridades do departamento antinarcóticos da ONU, o Afeganistão tem mais de 417 laboratórios a partir dos quais a heroína é contrabandeada para a Europa e Estados Unidos através do Irã e das ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central.

Begham não parece se importar com as conseqüências gerais do seu trabalho, ou com a devastação causada sobre as pessoas pelo produto final. Embora alguns moradores da vila masquem as sementes de papoula para combater a insônia, a maioria do ópio do Afeganistão é exportado. Em uma terra onde quase todos os seus conhecidos cultivam a papoula, Begham diz que nunca viu um viciado na droga.

Ela só sabe que as papoulas necessitam de uma quantidade cinco vezes menor de água do que o trigo e que elas podem ser facilmente cultivadas em uma nação que padece com as secas periódicas. Ela também sabe que os traficantes de droga paquistaneses pagam US$ 2,4 mil (R$ 5,6 mil) pela sua safra anual de 40 quilos de sementes secas, todo mês de julho. Essa é a única fonte de renda da família, já que o seu marido, Najibullah, um combatente anti-Taleban, não recebe nenhum salário.

Após Yarbek, o tio de 70 anos de idade do seu marido, dividir o lucro entre ele, a irmã, e os dois sobrinhos, que moram todos sobre o mesmo teto. O dinheiro é suficiente apenas para a sobrevivência de Begham e dos seus três filhos pequenos.

Begham, que tem pouco mais de 30 anos, trabalha várias horas por dia para receber uma remuneração ínfima. Durante sete meses por ano ela acorda antes da aurora para arrancar o mato da plantação de papoulas até o pôr do sol. Durante a colheita ela mal deixa o campo. As suas mãos são calosas, e ela sofre de dores no peito.

"Eu gostaria de ter dinheiro para não ter que fazer esse tipo de trabalho", diz ela, enxotando várias galinhas que entraram na cozinha de chão de terra batida, que a família usa como sala. Nesse momento ela agarra a filha mais nova, Najiba, uma fração de segundo antes que a criança se queime em um enegrecido fogão à lenha.

"Os meus três filhos choram quando tenho que deixá-los para ir até a plantação", diz Begahm. "Mas tenho que fazer isso para poder alimentá-los".

Assim como a maioria das mulheres na zona rural do Afeganistão, a cunhada e a sogra de Begham não têm emprego. A própria Begham é analfabeta.

A casa que ela divide com os familiares é uma raquítica estrutura de estuque. A família não possui os recursos necessários para reconstruir os dois quartos que foram destruídos por um foguete do Taleban três anos atrás.

Durante o seu reinado de cinco anos, o regime Taleban foi o principal exportador de heroína e ópio do Afeganistão, tendo instituído um imposto sobre os plantadores de papoula que muitas vezes excedia o seu rendimento anual em 50%. O regime utilizava a droga como uma importante fonte de recursos para lutar contra as forças de oposição.

Mais recentemente, o Taleban impôs uma proibição do cultivo de papoulas - uma atividade que o movimento taxou de "anti-islâmica". Verbas de combate à droga, vindas dos Estados Unidos, ajudaram a instituir a proibição. Vários camponeses trocaram a papoula pelo trigo e outras culturas, a fim de evitar a prisão, e a produção de ópio caiu em 97%, segundo membros da ONU. Após o início da campanha de bombardeio aéreo norte-americana, o Taleban revogou a proibição.

No entanto, a família de Begahm continuou a cultivar papoulas e recebeu permissão para ficar com cerca de US$ 1 mil (R$ 2.334) dos seus lucros este ano. Agora, que o Taleban caiu, ela espera poder ficar com todo o lucro.

Ao contrário da mulher, Najibullah tem uma preocupação de ordem moral com relação ao negócio praticado pela família.

"Sabemos que o ópio tem um efeito ruim, causando muito sofrimento no Ocidente", afirma. "Se os Estados Unidos nos ajudarem, não plantaremos mais papoulas".

De fato, as autoridades norte-americanas de combate aos narcóticos teriam dito que querem fazer do combate às drogas uma condição para o envio de ajuda internacional. Eles esperam alguma assistência para instituir programas que encorajariam os camponeses afegãos a trocar o ópio por lavouras legais.

Enquanto isso, o trabalho duro de cultivar as papoulas para a produção do ópio está minando a saúde de Begham, que afirma que a coisa que mais adoraria seria desistir de tal atividade.

"Toda vez que vou até a plantação é como se estivesse indo para a minha própria sepultura", queixa-se. "A diferença é que, quando morremos, ficamos no nosso túmulo para sempre, sem sofrimento. Já esse trabalho me causa muito sofrimento".

Tradução: Danilo Fonseca San Francisco Chronicle

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