Filme brasileiro "Princesa" desperdiça um bom argumento

Bob Strauss

"Princesa" acrescenta algo mais à fórmula de 'prostituta com coração de ouro': um cérebro de geléia, por exemplo. Isso não implica que a co-produção ítalo-brasileira seja burra ou desonesta. De fato é previsivelmente verdadeira, tanto na história da prostituta que aceita sua profissão quanto do transexual que procura um amor de verdade.

O maior problema é que a personagem título, uma transexual sul-americana que ganha a vida nas ruas de Milão, não exprime nada além de suas preocupações com a identidade sexual. Assim, a principal trama do filme -um cliente que se apaixona por quem ela é, e não pelo que ela é- nunca realmente convence.

Ingrid de Souza faz o papel da exótica Fernanda/Princesa, que vem para a cidade grande européia juntar dinheiro para completar sua transformação. Ela faz amizade com um grupo de brasileiros festivos de rua, que aparentemente são os tipos étnicos mais favorecidos pelos homens confusos da Itália.

Sua cafetina idosa (Lulu Pecorari) desenvolve um apego por Fernanda, eventualmente convidando a jovem para morar em seu apartamento elegante. Apesar de Karin não demonstrar atração sexual pela novata, parece ter certa dependência emocional. O relacionamento é ameaçado quando um homem casado, Gianni (Cesare Bocci), que inicialmente fica aterrorizado ao descobrir que Fernanda não é uma mulher, apaixona-se por ela -por aquela Princesa impalpável, lembra? Eventualmente ele deixa a esposa e se propõe a pagar pela última cirurgia final.

Quando Fernanda passa a conhecer a rotina de dona de casa com o qual sempre sonhou, entretanto, começa a mudar de idéia. Bem vinda ao despertar da consciência feminista, querida.

Um diretor como Pedro Almodóvar ou o finado Rainer Werner Fassbinder teriam encontrado deleitável humor e complicações emocionais únicas no predicamento de Fernanda. Mas o diretor Henrique Goldman -que tirou a história de uma autobiografia de uma Fernanda suicida, da vida real- vê tudo isso com a mais prosaica seriedade. Sua abordagem do material é óbvia, de novela, e a trilha sonora vulgar de eurojazz, que parece emprestada de um romance exagerado dos anos 60, não ajuda.

De Souza é fotogênica, mas sua expressão não faz muito para revelar sentimentos ou pensamentos mais profundos. Como a personagem tem apenas 19 anos, é razoável entender que talvez não haja muito disso de qualquer forma. Razoável, mas não muito satisfatório, em termos de cinema. Um pouco de saudade, de catolicismo e desespero contam sua história mas, mesmo encenada por alguém que pode muito bem estar vivendo algo parecido, "Princesa" nunca é coroada com a jóia vívida da caracterização.

Tradução: Deborah Weinberg Los Angeles Daily News

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