Projeto de canhão gigantesco é aprovado

ERIC ROSENBERG

WASHINGTON - De acordo com a nova proposta de orçamento do presidente Bush, o exército dos Estados Unidos recebeu autorização para preservar o projeto de fabricação de um sistema de canhão howitzer (obus), ainda que Bush e vários especialistas militares tenham questionando a utilidade do canhão gigantesco.

Os US$ 472,3 milhões (R$ 1,16 bilhão) para o sistema Crusader incluídos no orçamento do Pentágono, divulgado na semana passada, praticamente garantem que o exército fabricará o armamento. Um outro sinal de que o Crusader recebeu carta branca é o fato de o exército ter feito na semana passada um pagamento adiantado de US$ 78 milhões (R$ 191,8 milhões) para o financiamento da construção de protótipo pela fábrica United Defense Industries Incorporation, de Arlington, Virginia.

A resistência do Crusader aos cortes orçamentários ilustra como um grande projeto bélico pode adquirir vida própria, apesar das dúvidas quanto à sua utilidade e preço, em uma época na qual a ameaça a que ele originalmente se destinava fazer frente não mais existe.

Durante a campanha pela presidência em 2000, o candidato Bush criticou a administração Clinton por permitir que as forças armadas construíssem sistemas colossais de armamentos, projetados basicamente com vistas a ameaças antigas. Segundo o então candidato Bush, "as forças armadas estavam organizadas para operações da era industrial, e não para as atuais batalhas da era da informação".

Durante um debate com outros pré-candidatos do Partido Republicano, em 26 de janeiro de 2000, Bush se comprometeu a acabar com o projeto do Crusader. "Esse howitzer parece ser muito pesado. Ele não é suficientemente letal. Há muitos programas que não vão se ajustar ao plano estratégico para uma mudança de longo prazo das nossas forças armadas", disse o pré-candidato Bush.

Bush assumiu a presidência procurando alterar a maneira como os serviços militares se preparam e treinam para a guerra, tendo dito ao secretário Donald Rumsfeld "para enfrentar o status quo e elaborar uma nova arquitetura para a defesa norte-americana nas próximas décadas".

Mas o presidente não ponderou o poder da indústria de armamentos, do Congresso e das forças armadas, uma combinação que John Hillen, conselheiro de defesa do candidato Bush, denominou de "o triângulo de ferro".

"O velho triângulo de ferro voltou a emergir e defendeu o Crusader com sucesso", disse Hillen.

Jacques Gansler, o ex-assessor de compra de armamentos da administração Clinton, que tentou acabar com o projeto do novo canhão, fez um comentário mordaz sobre a aprovação do Crusader: "Essa é a Terceira Vinda do Cruzado", afirmou, fazendo uma analogia satírica com uma imagem religiosa cristã.

O Crusader foi proposto ao governo pela primeira vez em 1992, quando o setor de defesa dos Estados Unidos estava ainda concentrado em se defender de inimigos dotados de unidades de tanques e veículos blindados.

Agora, quando essa ameaça fora de moda não pode mais ser avistada no horizonte e a nação está concentrada no combate ao terrorismo, os dirigentes da United Defense Industries lutam para apresentar uma razão que demonstre que a arma ainda é relevante.

Doug Coffey, porta-voz da United Limited, argumenta que o Crusader poderia ter sido usado para sufocar a mortífera rebelião na prisão de Mazar-e-Sharif em novembro do ano passado. Além disso, argumenta Coffey, o canhão poderia ter sido utilizado para atacar os locais suspeitos de abrigar terroristas nas montanhas do Afeganistão. Gansler, no entanto, diz que esses argumentos são falaciosos. "Eu não utilizaria um Crusader para tentar expulsar indivíduos escondidos em cavernas. Pode haver cenários em que esse canhão fosse útil, mas esse, em especial, não estaria na minha lista de prioridades", afirma.

De acordo com Michael Vickers, analista do Centro de Avaliação Estratégica e Orçamentária, uma organização apartidária, o Crusader seria valioso em uma guerra terrestre de larga escala, mas inútil na conjuntura atual.

A última guerra terrestre de grandes dimensões foi em 1991, contra o Iraque, há mais de uma década.

"Trata-se de um bom sistema de artilharia, projetado, entretanto, para a Guerra Fria", diz Vickers. No entanto, no potencial cenário de futuras batalhas -tais como operações anti-terroristas que exigem um rápido envio de tropas e de equipamentos para o exterior, em regiões difíceis de se chegar- "esse canhão é um equipamento muito ruim".

Hillem, ex-oficial do exército que operou em divisões de tanques, define ironicamente o Crusader como "a melhor peça de artilharia que os engenheiros e estrategistas dos anos setenta poderiam ter imaginado". Hillen auxiliou na redação dos discursos do então candidato Bush, delineando uma visão de forças armadas mais ágeis, menos dependentes de pesadas divisões de exército, com os seus tanques e artilharia.

"Nós afirmávamos incansavelmente que precisávamos de um exército mais leve, que pudesse ser enviado em unidades pequenas e ágeis para um local como o Afeganistão em um tempo muito curto", diz Hillen. "Mas isso significa que precisamos de um conjunto de equipamentos diferente do Crusader, que é grande e pesado".

"Não dá para fazer com que esse sistema chegue rapidamente ao campo de batalha. E tão logo ele esteja no cenário do conflito, o canhão necessita de complexas operações de transporte logístico para que possa operar", afirma.

O Crusader consiste de dois veículos - um canhão howitzer de 155 mm, de propulsão autônoma e um veículo de apoio que leva munição e combustível. Os oficiais do exército afirmam que, quando o howitzer entrar em operação, em 2008, o canhão será o mais sofisticado e preciso do mundo, capaz de disparar por minuto 12 projéteis de 45 quilos cada um, contra alvos localizados a mais de 40 quilômetros de distância. O Pentágono planeja adquirir 480 Crusaders, ao preço de US$ 23 milhões (R$ 56,55 milhões) a unidade, para substituir os antigos howitzers de propulsão autônoma do exército, M109A6, "Paladin", que entraram em operação em 1963.

Juntos, os dois veículos do sistema Crusader pesam 80 toneladas. Seria necessária a utilização de aviões de carga C-5 ou C-17 para transporta-los até a região de conflito, mas há escassez dessas aeronaves.

Já o Paladin pesa cerca de 32 toneladas, embora também necessite de grandes aviões para ser transportado.

O Crusader esteve por várias vezes próximo de ser cancelado:

-Em 1997, um comitê independente de especialistas em defesa designado pelo Congresso, juntamente com o então secretário de Defesa Bill Cohen, recomendou que o programa fosse cancelado ou que sofresse uma redução quanto as metas de produção.

-O governo Clinton pensou em acabar com o programa porque os projetos anteriores fariam com que cada unidade pesasse 110 toneladas, o que tornaria o canhão tão pesado que não poderia ser despachado em aeronaves de transporte sem comprometer as normas de segurança aérea. O programa acabou sendo mantido, mas o volume total de vendas foi reduzido após o exército ter concordado em projetar uma versão mais leve.

-Em 2000, o Departamento Geral de Contabilidade recomendou que o exército cancelasse o programa e optasse por uma alternativa alemã, já disponível, para modernizar os Paladins, devido a "vários problemas que atrasaram o desenvolvimento do Crusader por um período de 12 a 18 meses, além da presença de certas incertezas de ordem técnica".

Assim, quando Bush assumiu a presidência e determinou que Rumsfeld projetasse uma força militar mais leve e móvel para ser transportada com rapidez para o exterior, o Crusader foi considerado um sistema bélico altamente vulnerável.

A indústria de armamentos, um dos lados do "triângulo de ferro", é representada pelo ex-secretário de Defesa Frank Carlucci, que dirige o Carlyle Group, que faz parte da United Defense. O Carlyle Group inclui outros grandes nomes, incluindo o pai do atual presidente, o ex-presidente George Bush, o ex-secretário de Estado, James Baker, e o ex-primeiro-ministro do Reino Unido, John Major.

A parte do triângulo referente ao Congresso é representada pelo senador republicano de Oklahoma, James Inhofe, e pelo deputado J.C. Watts, o quarto principal líder republicano na Câmara.

Os diretores da companhia esperam realizar a montagem final do Crusader em Oklahoma, Estado onde também fica Fort Sill, a escola de artilharia do exército. Ambos os parlamentares têm pressionado incessantemente o Pentágono pela manutenção do projeto Crusader.

Também fazem parte do lobby parlamentares de Minnesota, onde a United está desenvolvendo grande parte do sistema, e da região norte do Estado de Nova York, onde o canhão howitzer será manufaturado, no Watervliet Arsenal, próximo a Albany.

Jim Glenn, assessor do deputado Michael McNulty, democrata de Nova York, disse que o Crusader vai promover "um nível significativo" de trabalho para o arsenal.

A sobrevivência do Crusader reflete o fato de que membros do Congresso elaboraram com sucesso um lobby a favor do armamento em duas frentes, diz Glenn. Na frente econômica, o Crusader significa empregos. A arma poderá responder por até 50% da futura carga de trabalho do Watervliet Arsenal.

Já na frente de segurança nacional, de acordo com Glenn, os parlamentares argumentaram que pelo menos algum equipamento mais sofisticado de artilharia pesada será necessário para travar futuras guerras.

"Houve uma convergência de motivos. E foi isso que salvou o programa do arquivamento", diz ele.

Tradução: Danilo Fonseca Hearst Newspapers

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