Médicos tentam novas formas para tratar a insônia

Melissa Stoeltje

Imagine que você tem um problema de saúde que torna a sua vida um verdadeiro inferno. Ele afeta as suas relações pessoais, a produtividade do trabalho e o seu humor. O problema tem o potencial para o deixar doente, levá-lo à dependência do álcool ou de drogas, desencadear casos graves de depressão, ou mesmo matá-lo em um acidente de trânsito.

Imagine que esse problema afete milhões de norte-americanos -aproximadamente um indivíduo em cada 11- e seja responsável por um prejuízo anual estimado entre US$ 11 bilhões (R$ 27 bilhões) e US$ 35 bilhões (R$ 86 bilhões), relacionado aos custos de trabalho e saúde.

Agora imagine que ninguém fale realmente sobre o problema, descartando-o por achá-lo trivial. Mas, pense que há tratamentos seguros e eficientes, mas que existe uma grande probabilidade de que o seu médico não os prescreva ou que não os conheça. E mesmo se ele o fizesse, provavelmente a sua companhia de seguro-saúde não pagaria pelo tratamento.

Parece loucura?

Seja bem-vindo ao mundo exaustivo da insônia crônica, especialmente a insônia "psicofisiológica" -uma forma comum de falta de sono que, tipicamente, tem início quando um indivíduo experimenta um período de pouco sono devido ao excesso de trabalho ou ao estresse familiar. A seguir o paciente começa a se preocupar e a ficar obcecado com o sono, fazendo com que seja mais difícil adormecer, criando um círculo vicioso que só faz piorar.

A insônia significa noites passadas a se revirar na cama, olhando para o relógio, fazendo com que paciente implore para que a doce inconsciência se apodere de si. Aquilo que a maior parte das pessoas vê como um processo simples, natural e até delicioso -adormecer- acaba se tornando para o insone uma série de episódios desesperadores e frustrantes.

Muitas vezes a insônia começa de forma transitória e se torna crônica. A pessoa passa a se preocupar com a sua incapacidade de dormir, que -adquirindo um caráter de profecia que se consuma- leva realmente a uma incapacidade de dormir. Todo o ritual relativo ao sono se torna repleto de tensão.

"Os indivíduos se tornam ansiosos e deprimidos", explica Derek Loewy, psicólogo da Clínica do Sono de São Francisco, que oferece um programa amplo para combater a insônia. "Uma coisa sobre a qual estamos certos quanto ao sono é que, quanto mais você procurá-lo, mais difícil vai ser encontrá-lo".

Aqueles que sofrem desse tipo de insônia, segundo ele, logo adquirem hábitos derrotistas que só tornam as coisas piores. Eles tiram sonecas para "compensar o sono atrasado", vão para a cama muito cedo, em uma tentativa equivocada de dormir, se reviram no colchão por muito tempo, e acabam ficando agitados.

"Grande parte do nosso trabalho consiste em tentar fazer com que as pessoas desenvolvam uma nova atitude com relação ao sono", diz Loewy. "Tentamos fazer com que elas não invistam muita emoção nesse processo. É claro que é algo mais fácil de falar do que de fazer".

Na sua clínica, os pacientes se inscrevem para um programa de sete semanas, realizado em grupos, com um instrutor licenciado que utiliza uma série de técnicas, incluindo elementos cognitivos -imagem guiada, técnicas de relaxamento, e dicas para que o paciente deixe de pensar no sono de forma catastrófica- além de componentes comportamentais, como redução de estresse, estilo de vida e uma boa "higiene do sono".

Mas o programa para o tratamento da insônia se fundamenta em duas terapias principais conhecidas como "controle de estímulo" e "restrição de sono".

Na primeira delas, os pacientes são instruídos a ir para a cama somente quando sentem sono. Se não adormecerem em 15 minutos -ou se acordarem durante a noite e não voltarem a dormir- devem sair da cama, ir para um outro aposento e realizar uma atividade calma e relaxante. Eles podem retornar à cama tão logo sintam sonolência, mas, novamente, terão que levantar e se dirigir a outro aposento, caso não caiam no sono dentro de 15 minutos.

Eles têm que repetir esse processo durante toda a noite, até conseguir dormir. E isso tem que ser feito todas as noites.

Já no caso da restrição de sono, os pacientes limitam drasticamente o tempo passado na cama a fim de incrementar a sua "eficiência de sono". O objetivo é reduzir a quantidade de tempo passada na cama em estado de vigília. Por exemplo, se um paciente possui uma média de apenas quatro a cinco horas de sono por noite, o momento de ir para a cama será mais ou menos 1h. Ele ou ela terá que levantar às 7h, não importa o quanto tenha dormido. (Para permanecer acordado, o paciente deve realizar atividades calmas, tais como jogar cartas ou ler). Conforme aumente a eficiência do sono, é permitido que, gradualmente, se passe mais tempo na cama.

"Isso se chama intenção paradoxal",diz Loewy. "A pessoa se concentra em tentar dormir à noite, e você diz a ela o oposto, para ficar acordada. Assim é removida toda a pressão para que o indivíduo durma".

Segundo ele, ao mesmo tempo o débito de sono do paciente está se acumulando, o que faz com que seja mais fácil dormir e permanecer dormindo. "Grande parte da ansiedade na insônia psicofisiológica está centrada na incerteza do paciente quanto a conseguir dormir", afirma Wolhlgemuth. "Com o passar do tempo, a incerteza diminui, a confiança aumenta, e isso ajuda a aumentar a capacidade de dormir".

Tradução: Danilo Fonseca San Antonio Express-News

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