Hollywood adora histórias verdadeiras -desde que possa mudar os fatos

Clifford Pugh

No filme baseado em fatos reais "Uma Mente Brilhante", Alicia Nash coloca gentilmente sua mão sobre o coração de seu marido, John, após descobrir que ele sofre de esquizofrenia.

"Você quer saber o que é real?" ela pergunta.

Então gentilmente coloca a mão dele sobre o coração dela para indicar que o amor pode vencer quase tudo.

Na vida real, tal cena nunca aconteceu. Houve um hiato de quase 40 anos no relacionamento do casal, um fato nunca mencionado no filme. Eles se casaram em 1957 e se divorciaram em 1963, quatro anos depois de John Nash, um gênio da matemática, ter sido internado pela primeira vez em um sanatório. Eles continuaram próximos e se casaram novamente no ano passado.

Apesar do filme ter recebido elogios dos especialistas médicos por seu retrato franco da doença mental, ele gerou muitas críticas sobre a omissão ou mudança de muitos fatos da vida do vencedor do Prêmio Nobel.

"Não é totalmente verdadeiro, nem era nossa intenção que fosse", disse Akiva Goldsman, que escreveu o roteiro. "Há muitas coisas no filme que são reais. E há outras coisas, assim eu espero, que sejam verdadeiras".

Nos filmes, realidade e aparência de realidade são poderosos chamarizes de bilheteria e imãs de prêmios. Quando as indicações ao Oscar foram anunciadas na semana passada, houve um predomínio de filmes baseados na realidade.

"Uma Mente Brilhante" conseguiu oito indicações, incluindo as de melhor filme, ator (Russell Crowe) e atriz coadjuvante (Jennifer Connelly). "Falcão Negro em Perigo", um relato angustiante da ação militar americana que terminou mal na Somália em 1993, recebeu quatro indicações, incluindo a de melhor direção.

Will Smith e Judi Dench foram indicados como atores por interpretarem, respectivamente, Muhammad Ali e a escritora britânica Iris Murdoch. Jim Broadbent e Kate Winslet foram indicados por interpretarem personagens reais em "Iris", e Jon Voight foi indicado pelo seu papel como o ex-narrador esportivo Howard Cosell em "Ali".

A sede por filmes "baseados em fatos reais" cresceu nos últimos anos, juntamente com os canais de notícias 24 horas e a linha entre entretenimento e notícia se tornando nebulosa.

John Belton, professor da Universidade Rutgers e editor do livro "Movies and Mass Culture" ("filmes e cultura de massa", Rutgers University Press, US$ 20, brochura), destaca que conglomerados como AOL/Time Warner e News Corporation são donos de estúdios de cinema, editoras e redes de televisão.

"A mídia de notícias e Hollywood estão dormindo na mesma cama", disse Belton. "Se surge algo interessante no horizonte, vira notícia. Nós estamos em um estado onde esperamos que as notícias nos entretenham, e esperamos que Hollywood lide com assuntos reais".

Quase ninguém espera que os filmes sigam estritamente os fatos. O público compreende que a maioria das histórias é muito enfadonha, complicada ou enrolada para ser contada do jeito exato que aconteceu.

Mesmo assim, o público espera uma aproximação da verdade. Mas "a verdade nem sempre está ligada aos fatos", disse Richard Dubin, roteirista e professor de cinema e televisão da Universidade de Syracuse. "A função da arte é ver a verdade que está por trás, acima, abaixo ou ao redor dos fatos".

Então onde é que os cineastas traçam a linha entre fato e ficção?

Os realizadores de "Falcão Negro em Perigo", que foi elogiado por sua autenticidade, criaram personagens, inventaram diálogos e condensaram 18 horas de batalha.

Mas Mark Bowden, que escreveu o livro no qual o filme é baseado, acredita que ele apresenta um retrato realista das dificuldades e perigos enfrentados pelos soldados.

"A história de 'Falcão Negro em Perigo' é sobre a natureza do combate moderno", disse Bowden. "O desejo é torná-lo o mais autêntico possível".

O filme de US$ 90 milhões reconta o plano americano de raptar importantes tenentes do líder militar somali Muhammad Farah Aidid; a missão terminou em desastre quando dois helicópteros Blackhawk (Falcão Negro) foram abatidos. Tropas foram enviadas para salvar as tripulações. Dezoito soldados morreram, e 73 ficaram feridos. Mais de 1.000 somalis foram mortos.

A maior parte do filme consiste de cenas de batalha intensas e gráficas. Para assegurar precisão, o diretor Ridley Scott trouxe três consultores militares, sendo que dois dos quais participaram da batalha.

Quando os roteiristas criaram uma cena na qual um capitão bate em um sargento ferido, os consultores protestaram que um oficial nunca bateria em um homem ferido. O roteiro foi alterado.

No filme, assim como na vida real, alguns soldados escreveram seus tipos de sangue em pedaços de fita adesiva e colaram em suas botas para auxiliar os médicos em caso de serem feridos. Mas no filme eles também marcaram seus nomes em fitas adesivas em seus capacetes, algo que soldados não fazem, disse Bowden.

Os consultores militares protestaram, mas Scott disse, "pois é o que vamos fazer", porque, caso contrário, o público não conseguirá identificar os personagens durante as cenas chaves de combate, contou Bowden.

O personagem principal do filme, feito por Josh Hartnett, é uma composição de dois soldados: Matt Eversmann, um sargento ranger de 26 anos envolvido em sua primeira missão de combate, e o tenente ranger Tom DiTomasso.

A narrativa exigia que um soldado fosse acompanhado do início até o fim da missão. Na vida real, Eversmann foi chamado de volta à base antes do final, assim o filme combinou as experiências dele e de DiTomasso.

Uma cena no começo do filme, na qual o general-de-divisão William Garrison (Sam Shepard) confronta o homem do dinheiro de Aidid, Osman Atto (George Harris), foi inventada para dar aos espectadores alguma informação sobre a situação na Somália, disse Bowden.

Entre as maiores críticas ao filme está a de que ele faz pouco para explicar a guerra civil na Somália e a intervenção americana. Bowden incluiu vários capítulos sobre a situação em seu livro, mas ele defendeu a decisão de Ridley Scott de excluir as questões mais políticas e se concentrar quase que exclusivamente no realismo da batalha.

"Eu adoro o fato dos soldados sempre tropeçarem e caírem, porque eles carregam muito equipamento, e isto é o que acontece", disse Bowden. "É muito, muito realista".

Na realização de "Uma Mente Brilhante", o diretor Ron Howard e o roteirista Akiva Goldsman tomaram desde o princípio a decisão de se concentrarem quase que exclusivamente na luta de Nash contra a esquizofrenia paranóide.

"Eu me senti atraído em fazê-lo devido a vida de John ser espantosa. Ele foi da genialidade à loucura ao Prêmio Nobel", explicou Goldsman. "Eu tentei expor a verdade surpreendente da jornada de John -a razão dele ter conseguido se curar disto enquanto tantos outros não. Tudo mais ficou de lado".

O filme, baseado na biografia exaustivamente pesquisada de Sylvia Nasar, se concentra no trabalho inovador de Nash na matemática e seu mergulho na doença mental. Com a ajuda de sua esposa e amigos, ele superou a doença. Ele recebeu o Prêmio Nobel em 1994 por um trabalho em economia que fez como estudante de doutorado na Universidade de Princeton.

Várias partes controversas da vida de Nash não são mencionadas no filme, incluindo seu divórcio. Mas Nasar acredita que o filme na verdade minimiza a dedicação de Alicia Nash ao seu marido.

"Eles se divorciaram porque ele estava esquizofrênico. Ele a culpava por hospitalizá-lo. Mas eles nunca perderam o contato. Ele nunca quis se separar dela, e ela nunca o abandonou", disse Nasar.

"A mulher o suportou por 25 anos e lhe forneceu o tipo de ambiente -com segurança e sem estresse, muito calmo e tranqüilo- que pessoas com tal doença necessitam".

Entre os outros elementos conflituosos da história de Nash omitidos no filme está o fato de que ele teve um filho com outra mulher e os abandonou. Em uma ocasião ele foi preso por solicitar sexo no banheiro masculino, o que fez com que ele perdesse sua autorização de segurança e seu emprego na Rand Corporation.

Alguns críticos e ativistas gays reprovaram o filme por ignorar a prisão, que Nasar descreve em sua biografia como "o momento da virada" na vida de Nash.

Mas Nasar defendeu a decisão dos realizadores do filme de excluírem o incidente, acrescentando que não há prova de que Nash seja gay.

"Isto é relevante para a história principal, que é sobre genialidade e loucura? Não", disse ela. "Já o papel de Alicia e de seus amigos na sua sobrevivência, isto sim é pertinente".

Akiva Goldsman inventou um discurso emotivo de Nash na cerimônia do Prêmio Nobel. Ele também inventou as cenas em Princeton nas quais os professores com feitos extraordinários recebem canetas de outros membros do corpo docente.

Desde que o filme foi lançado, diretores de Princeton têm recebido um enorme número de cartas e telefonemas de ex-alunos, que perguntam sobre a cerimônia das canetas e por que nunca foram informados sobre ela.

Nash, atualmente com 73 anos, não comentou publicamente o filme, mas ele e sua esposa "deixaram claro para todos que os conhecem que estão felizes com o filme e com a resposta do público", disse Allen Mayer, consultor de mídia contratado pela Universal.

Nos últimos anos, os estúdios têm contratado diretores de administração de crise para ajudar a mitigar discordâncias e lidar com questões sobre autenticidade e precisão dos filmes baseados em figuras da vida real.

"Apenas nos últimos anos é que a imprensa tem prestado atenção. Às vezes eu me pergunto o que aconteceria se lançassem hoje 'A Noviça Rebelde'", disse Mayer rindo. "A imprensa cairia de pau em cima do filme, dizendo que a Alemanha e Áustria pré-guerra não eram daquela forma".

No caso de "Uma Mente Brilhante", disse Mayer, os cineastas claramente rotularam o filme como "inspirado" na vida de Nash, e não que era uma cinebiografia.

A única falha que Nash encontrou no filme foi o fato de suas alucinações serem retratadas como visuais. Na verdade, ele ouvia vozes ao invés de ver figuras, disse Mayer.

"O que eles ficcionalizaram foi a natureza de suas ilusões. Eu perguntei para o John, 'Era dessa forma?' E ele disse que eles capturaram o espírito de com era, e isto é o que importava".

No filme, as alucinações de Nash começam na faculdade. Na verdade, elas começaram quando ele tinha 30 anos, após ele ter concluído seu trabalho inovador.

Apesar de Nash ter ficado satisfeito com a forma como foi retratado na tela grande, cada vez mais figuras da vida real e suas famílias não ficam.

A viúva e filhas de Frank "Billy" Tyne Jr., o capitão do pesqueiro que afundou em 1991 na costa de Massachusetts, estão processando os realizadores de "Mar em Fúria". George Clooney interpretou Tyne no filme, que arrecadou mais de US$ 177 milhões desde seu lançamento dois anos atrás.

Nos autos do processo, Jodi Tyne argumenta que o filme retrata falsamente o marido dela como "emocionalmente arredio, imprudente, disposto a correr riscos excessivos", e que o faz parecer um marinheiro "sem condições de navegar", cuja teimosia causou sua morte e a de sua tripulação.

Como a Justiça determina que uma pessoa morta não pode processar, o processo da família se baseia em um estatuto comercial da Flórida que protege o nome e a imagem da pessoa de ser usado comercialmente sem permissão.

"Os cineastas querem contar uma história melhor, para que mais pessoas comprem mais ingressos para vê-lo", disse o advogado Stephen Calvacca, que está representando a família Tyne. "Eles querem mudar as coisas para ganhar dinheiro. Assim o propósito é realmente comercial".

Os advogados da Warner Brothers argumentam que o estatuto só se aplica a pessoas cuja reputação também é um ativo comercial. Eles argumentam que o nome de Tyne não teve nenhum valor comercial durante sua vida. O julgamento está marcado para junho em Orlando.

O caso segue processos relacionados a dois filmes famosos, impetrados por pessoas que alegam terem sido mal representadas.

"Meninos Não Choram" conta a história do estupro e assassinato de uma mulher que viveu como um homem em uma pequena cidade do estado de Nebraska. Hilary Swank ganhou o Oscar de melhor atriz dois anos atrás por sua interpretação da personagem principal, Brandon Teena. Lana Tisdel, que namorava Teena e foi interpretada por Chloe Sevigny, processou baseada no filme a ter retratado como "uma preguiçosa lixo branco". O estúdio acertou um acordo fora do tribunal.

O ex-boxeador Joey Giardello conseguiu o mesmo quando processou os realizadores de "Hurricane -O Furacão", de 1999, que contava a história de Ruben "Hurricane" Carter. No filme, juizes racistas dão a vitória a Giardello apesar deste ter sido impiedosamente surrado por Carter. Na verdade, Giardello sofreu apenas um pequeno corte e pareceu ter vencido a luta honestamente.

Os realizadores de "Titanic" enviaram um cheque de US$ 5 mil para a pequena cidade de Dalbeattie, Escócia, para um fundo de bolsa de estudos em homenagem a William Murdoch, após seus herdeiros terem reclamado sobre a forma como ele foi retratado no filme. O oficial escocês foi mostrado atirando em passageiros que tentavam subir em um barco salva-vidas, e em seguida tirando a própria vida. Na verdade, ele morreu como herói, ao dar seu colete salva-vidas para um passageiro pouco antes de cair no mar.

Por outro lado, Erin Brockovich, a secretária de um escritório de advocacia cuja cruzada legal levou ao maior acordo já obtido em um processo ambiental, ficou empolgada com a forma como foi retratada no filme que leva seu nome, apesar de ter dito aos repórteres que foi ainda mais impetuosa na vida real. Julia Roberts conquistou o Oscar de melhor atriz no ano passado por sua interpretação de Brockovich.

O filme tomou algumas pequenas liberdades com a vida de Brockovich. Ela participou de concursos de beleza, mas nunca foi miss Wichita -ela foi miss Costa do Pacífico. E o acidente de carro, que a colocou em contato com o advogado Ed Masry, aconteceu em Reno, Nevada, não em Los Angeles.

Em todo filme baseado em uma história real há "necessidade de tomar decisões baseadas em julgamentos", disse Akiva Goldsman. No caso de "Uma Mente Brilhante", ele não se arrepende das escolhas que fez.

"Para mim, a pergunta é, nós contamos a história da forma mais verdadeira que pudemos? Eu estou incrivelmente orgulhoso dele, mais do que qualquer outra coisa que já fiz. As pessoas parecem amar o filme. Isto é tudo o que se pode pedir".

Tradução: George El Khouri Andolfato Houston Chronicle

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