Preocupações com segurança modificam tradição da cerimônia do Oscar

Fred Shuster

O estrelismo vai ser suplantado pela segurança na noite da 74ª cerimônia de entrega do Oscar, que retorna a Hollywood. É possível que a limusine de Russell Crowe seja revistada, e que as estrelas de cinema -- não importa o quão reveladores sejam os seus vestidos -- tenham de passar pelo detector de metais antes de entrar no Teatro Kodak.

Ninguém está confirmando a adoção de medidas extremas, mas os diretores da Academia e os oficiais do Departamento de Polícia de Los Angeles (LAPD) não estão revelando nenhum detalhe sobre as precauções que estão sendo tomadas quanto à segurança, embora se saiba de alguns fatos. A rua em frente ao complexo foi fechada no início da semana. Pelo menos 15 quarteirões em torno do local tiveram o acesso restrito desde quinta-feira à noite. Pesquisas de antecedentes de todos que possuem a mais remota conexão com o evento têm sido realizadas há meses, e isso inclui a platéia de 400 fãs que terão acesso ao teatro a partir das 6h de domingo.

Ao trazer o show de volta para Hollywood pela primeira vez desde 1960, a Motion Picture Academy está tentando se adaptar à conjuntura -- conjugando o valor do evento como comemoração e como iniciativa de relações públicas com a necessidade de segurança, após os ataques terroristas de setembro, enquanto se impõe no centro de uma parte vibrante da cidade.

"Estamos trabalhando há um ano com o LAPD, o Caltrans e o Departamento de Transportes a fim de garantir que a chegada dos convidados se dê da forma mais tranqüila possível", afirma Laura Ziskin, a produtora de telecast para o Oscar. "Mas, infelizmente, não há nenhuma garantia, e só no dia da comemoração saberemos se os nossos cuidadosos planos vão realmente funcionar sem nenhum problema".

Na verdade, ao invés das duas semanas de que dispunha a Academia para preparar a área de tapete vermelho, quando o show se passava no Shrine Auditorium, a instituição dispõe agora de apenas uma semana. Para complicar as coisas, o Kodak, um complexo de 3.300 lugares especialmente projetado para o evento, está incrustado no centro do Hollywood & Highland, um movimentado complexo comercial de 28.300 metros quadrados que é uma área chave para a revitalização de Hollywood. O shopping tem mais de 70 lojas, um hotel de 640 quartos, um cinema multiplex, um estacionamento de seis andares e uma estação de metrô, que ficará fechada durante a cerimônia. Os trens passarão pela estação, sem no entanto parar.

O local foi construído para encorajar o fluxo contínuo de pedestres, e é aí que jaz o maior de todos os desafios.

"E grande diferença este ano está na própria instalação", explica o porta-voz da Academia, John Pavlik. "O Shrine é um grande prédio erguido no meio de um estacionamento. Tudo o que tínhamos que fazer era construir uma cerca em volta dele. Mas, em Hollywood, teremos que lidar com problemas de tráfego, levar em conta uma calçada pública que precisará ficar aberta e pensar em outros problemas que fazem com que este seja um ambiente bastante complexo".

Foi por isso que a Motion Picture Academy assumiu o controle sobre todo o complexo Hollywood & Highland, bem como sobre a vizinhança adjacente, além de ter requisitado que o espaço aéreo da região fosse altamente restrito".

"Estamos em meio a uma comunidade ativa e vibrante", afirma o chefe da LAPD, David Kalish, oficial comandante de operações do West Bureau, que inclui Hollywood. "E isso torna tudo ainda mais difícil. Obviamente, a tarefa de se fornecer cobertura é um trabalho de equipe. E cada unidade possui um papel crítico e único a ser desempenhado".

Kalish diz que "não houve ameaças específicas ao evento, mas não vamos dar chance ao azar. Trata-se de um evento ao vivo, visto por mais de um bilhão de pessoas, e estamos dispostos a garantir o seu sucesso".

Realmente, parece que todos os recursos, com a possível exceção de espadas luminosas jedi, foram fornecidos às autoridades, a fim de garantir a estratégia de segurança mais perfeita já imaginada. Câmeras de vídeo ocultas, detectores de metal, artefatos para revistar limusines e um contingente não revelado de membros uniformizados e à paisana de um grande número de agências policiais, incluindo o FBI, o Departamento de Bombeiros de Los Angeles e outras, são uma amostra do tamanho da operação de segurança. Espera-se que haja atiradores de elite posicionados nos telhados dos prédios, da mesma forma que durante a cerimônia do Emmy.

Assentos para a festa do Oscar tradicionalmente estão disponíveis para os fãs que chegam primeiro.

Mas, este ano, os fãs tiveram que se inscrever por e-mail, e passar por uma série de investigações de antecedentes a fim de serem considerados aptos para obter um dos 400 assentos a eles reservados. Nos anos anteriores, os assentos reservados aos fãs eram mil.

"Estamos tentando realizar o show em um shopping center que vai estar aberto até às vésperas do evento", diz Pavlik. "Temos que repensar todos os nossos procedimentos de segurança a fim de acomodar os compradores e turistas. O trabalho tem sido muito intenso, já que há muitos locais por onde as pessoas podem transitar".

Além do fechamento das ruas, cerca de 800 guardas privados de segurança, contratados pela Academia, têm patrulhado o complexo Hollywood & Highland, onde se localiza o Kodak, durante os vários dias que antecedem ao show, que deve começar às 17h30 de domingo.

Adicione a isso os cerca de 400 policiais de Los Angeles responsáveis pelo controle do acesso à área, e o resultado é um dos locais mais seguros -- ou pelo menos mais vigiados -- do planeta na noite de domingo.

As restrições ao tráfego são igualmente notáveis. A Hollywood Boulevard, por exemplo, estará fechada do extremo sul da Orange Drive até a Highland Avenue. As calçadas da área também estarão fechadas, com exceção de um acesso para pedestres de 2,5 metros de largura.

O Renaissance Hollywood Hotel, de 640 quartos, localizado no complexo Hollywood & Highland, a apenas alguns passos do teatro, continuará operando durante o evento. A Academia não divulga quantos quartos estão ocupados por indivíduos envolvidos com a produção da festa do Oscar.

No hotel, haverá detectores de metal e guardas de segurança na área de imprensa, o local onde a mídia de todo o mundo se aglomera para apontar seus microfones e câmeras para os ganhadores do Oscar. Os hóspedes não relacionados ao Oscar -- que serão responsáveis por apenas 20% da ocupação neste final de semana -- terão o seu costumeiro acesso sem restrições às dependências do hotel. Uma festa particular na suíte da cobertura do hotel ficará limitada àquelas pessoas que tiverem acesso especial. Nenhum hóspede poderá fazer o check-in no hotel após o sábado, segundo o diretor de marketing, Tom Santora. E se alguém por acaso estiver no Hollywood & Highland no domingo, e necessitar de ir ao banheiro ou outras dependências, é melhor procurar um outro lugar. No domingo do Oscar, somente os hóspedes do hotel, os convidados e a imprensa credenciada poderão transitar pelas dependências do hotel.

"O 11 de setembro fez com que nos sentássemos e tomássemos nota", afirma Pavlik. "De qualquer forma, temos sido paranóicos com a segurança por anos a fio, de maneira que estamos à frente dos problemas. Mas, mesmo assim, estamos tomando todas as precauções e trabalhando em conjunto com todas as agências para garantir que estaremos seguros. Você pode mencionar qualquer organização de segurança, e eu garanto que já estivemos em contato com ela".

Pavlik afirma que a Academia queria acomodar turistas enquanto a área estava sendo preparada para o Oscar. "Esse é um dos pontos positivos do local -- ele é aberto ao público. Não queremos desencorajá-los ou ofendê-los. Tudo o que queremos é fazer o nosso trabalho".

Mas se você não é um dos sortudos que conseguiu uma cadeira para ver o show, o conselho é que fique em casa e assista a tudo pela televisão, algo que um número maior de membros da Academia estará fazendo este ano.

Apesar do fato de ter sido projetado com o pensamento voltado para a teledifusão mundial, o Teatro Kodak é menor do que o Shrine, que tem 5.600 assentos e raramente fica lotado. Como resultado da medida, mais de 250 membros da Academia que queriam assistir a essa cerimônia -- próxima ao reformado Grauman's Chinese Theatre -- não puderam fazê-lo.

Há quem acredite que a corrida desenfreada aos assentos se deve ao fato de que faz 40 anos desde a última vez em que a premiação do Oscar ocorreu em Hollywood. Mas, considerando-se que a Academia tem um contrato de 20 anos com o Kodak, é provável que cada um dos votantes que deseje uma entrada acabe conseguindo obtê-la em um evento futuro.

Mas, mesmo para quem tem uma entrada, chegar até o assento não será tarefa fácil.

"Com relação aos convidados que estão vindo para o show, apenas esperamos que eles tenham o cuidado de limpar o porta-malas dos seus carros, já que todos serão abertos e examinados", adverte Pavlik.

A seguir, os "convidados" entrarão em um salão de segurança -- fora do alcance dos fãs e da mídia -- onde terão que exibir carteiras de identidade e serão sujeitos a revistas de segurança.

Ziskin tem um conselho para os três mil sortudos: "Chegue cedo... Acreditem se quiser, entre 15h30 e 16h, mas não depois das 16h".

E as celebridades que assim procederem farão os fãs vibrarem, já que tudo o que esses entusiastas terão visto até o momento terá sido cães farejadores de bombas e agentes de segurança extremamente atentos.

"A Academia oferecerá quitutes e drinks no lobby", diz Ziskin. "Posso garantir que será uma grande festa, do início ao fim".

"Mas tomara que não chova. Se isso acontecer, será melhor chegar na hora do almoço".

Tradução: Danilo Fonseca Los Angeles Daily News

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