Billy Wilder: O crepúsculo de um deus do cinema

Gayden Wren

No princípio era o verbo, e o que mais importava para Billy Wilder era justamente o verbo.

Embora fosse um diretor de sensibilidade visual apurada -- foi ele quem nos deu a saia de Marilyn Monroe ao vento e a mansão cavernosa de Norma Desmond --, Wilder iniciou sua carreira como roteirista e jamais esqueceu da importância do roteiro. Participou da redação de todos seus filmes, e um dos elementos que unifica seus 41 anos de trabalho como diretor é o diálogo esmerado, cristalino e executado com precisão.

Wilder, que morreu de pneumonia aos 95 anos, nunca desfrutou da fama de contemporâneos seus como John Ford, Frank Capra ou Alfred Hitchcock. Enquanto estes diretores possuíam cada um o gênero que os distinguia -- o faroeste de Ford, o drama populista de Capra e o suspense de Hitchcock -- os filmes de Wilder transitavam por um vasto espectro que abrangia desde a comédia sensual até a história de guerra, do drama mórbido até os romances, de histórias de tribunais até a sátira social.

Se o nome de Hitchcock era a garantia de um suspense de alta qualidade, o nome de Wilder era somente a garantia de alta qualidade, e o fato de não ter se prendido a um gênero lhe valeu, de modo paradoxal, mais respeito por parte de seus colegas do que por parte do grande público.

Nascido no dia 22 de junho de 1906 em Viena, Samuel Wilder trabalhou como repórter, inicialmente em Viena e depois em Berlim. Entretanto, era fascinado por filmes, especialmente os de Ernst Lubitsch, o diretor alemão que alcançou a fama mundial em Hollywood.

Wilder assinou seu primeiro roteiro em 1929, e logo tornou-se um prolífico roteirista que não encontrou dificuldades em transpor a barreira do cinema mudo para o falado. A ascensão de Hitler obrigou o jovem judeu a sair da Alemanha, e após paradas em Paris e no México, ele acompanhou Lubitsch até Hollywood.

Lubitsch, no entanto, chegara aos Estados Unidos na era do cinema mudo, e como diretor. Para ganhar dinheiro era necessário dominar o inglês. Wilder chegou em 1934 como roteirista de filmes falados, e levou anos até encontrar um trabalho fixo em Hollywood.

Até que, em 1937, Wilder vendeu uma estória para a Paramount, e logo em seguida ele e seu parceiro Charles Brackett começaram a trabalhar ao lado de Lubitsch na comédia "A oitava esposa do Barba Azul" (1938), estrelada por Gary Cooper e Claudette Colbert.

O sucesso do filme consagrou a dupla Wilder e Brackett, que nos anos seguintes emplacou uma série de grandes sucessos -- entre eles o maior triunfo de Lubitsch, Ninotchka, protagonizado por Greta Garbo em 1939.

Wilder, no entanto, já ambicionava a carreira de diretor. Inspirado por Preston Sturges, o roteirista que havia se tornado diretor da Paramount, ele finalmente obteve um cargo de direção. Ele e Brackett escreveram o roteiro, sendo que Brackett produziu e Wilder dirigiu o filme. O resultado foi a comédia romântica A Incrível Suzana (1942), estrelada por Ginger Rogers e Ray Miland.

O filme foi um grande sucesso, tal como o drama de guerra (surpreendentemente cômico) Cinco Covas no Egito (1943). Mas por ter se consagrado com as comédias, Wilder agora voltava seus olhos para o drama. Pacto de Sangue (1944) era a história pungente de assassinato e fraudes que lhe valeu inúmeras indicações para o Oscar, entre elas a primeira de Wilder para os prêmios de melhor diretor e melhor roteirista.

Ambos as premiações viriam no ano seguinte por Farrapo Humano (1945). Premiado também como melhor filme, a história sombria de alcoolismo trazia alguma das imagens mais barrocas da carreira de Wilder, bem como um emprego inovador de uma câmera oculta para filmar o ator Ray Milland na vida real, andando pelas ruas de Nova York.

O Crepúsculo dos Deuses (1950) marcou o fim da colaboração entre Wilder e Brackett e lhes valeu -- bem como ao colaborador D.M. Marshman Jr. -- mais um Oscar. A revelação dos bastidores da vida de estrelas decadentes, roteiristas mercenários e do desespero por trás da tênue superfície da magia cinematográfica revoltou a muitos em Hollywood. Mesmo assim, este acabou por tornar-se um dos filmes mais reverenciados de Wilder.

Brackett tornou-se um diretor-produtor solo, e nos sete anos seguintes Wilder emplacou uma série de sucessos com vários outros parceiros. Em 1957, ele descobriu seu segundo maior colaborador: o imigrante romeno I.A.L. Diamond juntou-se a ele para filmar a comédia romântica Amor na Tarde, uma homenagem a Lubitsch encenada em Paris por Gary Cooper e Audrey Hepburn.

Na década seguinte, Wilder e Diamond escreveram preciosidades como O pecado mora ao lado (1959) e Se meu apartamento falasse (1960), que repetiram a tríade de Farrapo Humano no Oscar: as estatuetas para melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro.

Na década de 60, Wilder teve altos e baixos, com sucessos como a comédia Um, dois, três (1960) com James Cagney e Uma loura por um milhão, com Jack Lemmon e Walter Matthau, e outros fracassos como Beije-me, idiota!(1964) e A vida privada de Sherlock Holmes (1970).

À medida que Wilder envelhecia e a Hollywood que ele conhecera ia desaparecendo, ele passou a encontrar dificuldades cada vez maiores para lançar seus filmes. Após o fracasso de Amigos, Amigos, Negócios à Parte, com a dupla Lemmon-Matthau, o diretor resolveu se aposentar.

Wilder ainda manteve contato com uma nova geração de diretores, a quem dava dicas e conselhos. Cameron Crowe, roteirista e diretor de "Jerry Maguire" (1996), fez amizade com Wilder e posteriormente veio a publicar um livro com a conversas entre os dois a respeito dos filmes do diretor vienense.

Acima de tudo, porém, Wilder continuava a ser, do alto de seus mais de 90 anos de idade, um elo entre o presente e os dias de glória de Hollywood -- um tempo em que o cinema era jovem, ágil e promissor, tal como este jornalista vienense que se transformou em roteirista, diretor e produtor.

Embora tenha preservado até o final da vida seu sotaque alemão, ninguém falou tão fluentemente na tela como Billy Wilder.

Tradução: André Medina Carone

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