Análise: Ex-assessor de Clinton espera que, depois do golpe, Chavez governe com mais calma a Venezuela

Thomas F. McLarty III
San Francisco Chronicle

Segundo a crença convencional, "A vida não repete os seus episódios". Mas esse ditado parece não ter prevalecido quando o presidente venezuelano, Hugo Chavez, foi retirado do poder por uma rebelião, sendo reconduzido ao poder 48 horas depois, quando o governo interino da nação demonstrou ser menos democrático do que aquele que tinha substituído.

No processo, eu e muitos outros analistas da América Latina fomos pegos de surpresa, ficando ao mesmo tempo esperançosos de que houvesse um novo começo para a Venezuela, e desconfortáveis quanto à forma como os fatos se desenrolaram. Tiragens dos grandes jornais foram impressas na noite de 13 de abril, expressando incerteza quanto ao rumo dos eventos ­ alguns deles trazendo lado a lado artigos que analisavam a Venezuela pós-Chavez e outros que falavam sobre o retorno ao poder do presidente deposto ­ e eu escrevi um artigo em uma coluna de opinião que falava sobre o renascimento de um país após a saída de Chavez.

No final das contas, a situação na Venezuela desde então tem sido fluida, confusa e carregada de ansiedade. Mas uma idéia fundamental persiste: embora não seja exatamente uma democracia em sua natureza, os eventos foram um exercício de vontade da sociedade civil e um lembrete de que líderes eleitos precisam responder por suas nações.

"O Furacão Hugo", como Chavez é conhecido no continente americano, tomou uma grande sacudidela. As políticas que o seu governo aplicava ­ se aproximar de chefes de Estado do estilo de um Fidel Castro e de um Saddam Hussein, politizar as forças armadas venezuelanas e a indústria petrolífera, auxiliar em silêncio os narco-rebeldes da porta ao lado, na Colômbia, e ameaçar a imprensa livre e independente do país ­ foram medidas totalmente contrária àquilo que esperavam os venezuelanos. E, à medida em que as pessoas se preocupavam com a possibilidade de que a chance de um referendo sobre a liderança de Chavez pudesse não chegar jamais, com o presidente parecendo mover o país para cada vez mais longe das urnas eleitorais, o palco para a violência foi montado.

Mas os eventos ocorridos desde a deposição de Chavez dão motivos para esperança. O governo interino que chefiou o país durante parte do final de semana de 13 a 14 de abril cometeu o erro crítico de suspender a constituição nacional, de dissolver o Congresso e o Supremo Tribunal venezuelanos, de demitir o juiz do
Supremo Tribunal e de excluir figuras importantes do processo de tomada de decisões. Os golpistas se distanciaram da democracia e essencialmente traíram o povo que foi às ruas em nome de um governo responsável.

E Chavez retornou demonstrando, de forma apropriada, arrependimento e humildade ­ prometendo a reconciliação com oponentes políticos, um gerenciamento melhor da companhia estatal de petróleo, Petroleos de Venezuela, responsável por um terço da economia da nação, e afirmando que vai assumir um compromisso para com a lei e respeitar a vontade de todos os venezuelanos.

A Venezuela, dona das maiores reservas de petróleo conhecidas fora do volátil Oriente Médio, uma voz do Ocidente na Organização dos Países Exportadores de Petróleo e fornecedor de petróleo para os Estados Unidos, continua sendo um dos países mais significantes da região, e, de certa forma, um dos que mais influi na direção futura da América Latina.

Com a Colômbia travando uma guerra contra terroristas rebeldes ligados aos cartéis de drogas, a Argentina lutando com uma economia destroçada, o Brasil se aproximando de eleições presidenciais que vão decidir o seu papel como suporte para os Estados Unidos para a integração econômica e comercial, e a América Latina em geral avaliando a viabilidade e a conveniência da Área de Livre Comércio das Américas, a Venezuela tem chance de interagir com os seus vizinhos para colocar a região no caminho do desenvolvimento e da prosperidade, aumentando o padrão de vida. Mas isso somente como uma democracia funcional e com credibilidade.

Essa, essencialmente, é a mensagem enviada por líderes e elaboradores de políticas em toda a América.

Embora preocupados com a forma como Chavez foi retirado do poder, quase não se falou do certo grau de satisfação de alguns líderes quanto ao fato de a anti-democracia na Venezuela ter sido minada. A Organização dos Estados Americanos tem em Caracas a missão de observar a retomada da democracia na Venezuela, enquanto os governos em todo o mundo reafirmam a necessidade de que se restaure a constitucionalidade.

Embora intelectuais de extrema-esquerda e analistas conspiratórios estejam certos de que os Estados Unidos instigaram o golpe, a verdade é que os aliados de Chavez empurraram o país para um rumo que traiu o desejo do povo, e agora os venezuelanos precisam resistir a qualquer tentativa para que se subverta a sua democracia.

Olhando para o futuro, Chavez avalia os eventos da semana passada e os transforma em um catalisador de um governo mais acessível e vibrante, que inclua uma democracia que, embora tristemente violenta, é melhor do que os dias de rebelião. Se ele retornar a um comportamento que seja contra o espírito da sociedade civil venezuelana e sacrificar o padrão de vida e o crescimento econômico financiado pelo petróleo, por razões ideológicas, então, os Estados Unidos e nossos vizinhos latino-americanos terão motivos para olhar para o país com preocupação e desconforto, à medida em que a pressão política se acumular.

Se o presidente Chavez for sincero e se preocupar mais em restaurar a credibilidade e a justiça do que em se vingar e consolidar o poder, então a Venezuela vai olhar para esses dias de renascimento com humildade e orgulho.

Para os Estados Unidos e o mundo, estes são os dias para se repetir os mantras da democracia e da responsabilidade, das eleições limpas e do império da lei, da oportunidade e responsabilidade para todos ­ e para a Venezuela e Hugo Chavez para se lembrar que a democracia é maior do que um homem, e que o desejo da sociedade civil não pode ficar subordinado a ninguém.

Estes ainda podem ser bons tempos para a democracia, ainda que não exatamente de uma forma ideal de democracia.

(Thomas F. McLarty III foi chefe de assessoria e enviado especial para a América durante o governo do presidente Bill Clinton. Atualmente, ele é vice-presidente da Kissinger McLarty Associates, uma empresa de consultoria estratégica, com sede em Washington e Nova York)


Tradução: Danilo Fonseca San Francisco Chronicle

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