População palestina deve ultrapassar a dos israelenses

Dudley Althaus
Houston Chronicle
Em Jerusalém

Em um campo de refugiados a leste de Jerusalém, Shaher Hassan segura o que muitos consideram a maior arma palestina contra Israel -o menino de um ano pula no colo de Hassan e sorri com alegria para seus sete irmãos e irmãs a sua volta.

"Gosto de crianças", diz Hassan, 33, que teve 12 irmãos. "Quero ver crianças a minha volta".

O prazer de Hassan, porém, poderá se provar uma ameaça a Israel, como esperam muitos palestinos e temem os israelenses.

Famílias extensas, como a de Hassan, apontam para um crescimento da população palestina que, nas próximas décadas, deverá ultrapassar em muito o dos israelenses, nas terras entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo, que incluem Israel assim como as faixas ocupadas de Gaza e Cisjordânia.

O futuro desse trecho de terra, pelo qual há muito se luta, poderá ser decidido por bebês, ao invés de projéteis, argumentam alguns em ambos os lados do conflito.

Segundo essa lógica, vencidos pelos números, se não pelas armas, os israelenses terão que tomar firmes decisões.

Se Israel tentar manter o controle dos territórios ocupados, sua população judia será sobrepujada por um número muito maior de palestinos, dizem, justificando a criação de um estado palestino independente.

Se Israel anexar formalmente a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, como exigem alguns israelenses, o país só continuará sendo um estado judeu se negar direito de voto e outros direitos aos seus habitantes palestinos.

A não ser que seja criada uma Palestina independente, advertem, Israel poderia perder sua maioria judia, sua democracia, ou ambos, destruindo os pilares sobre os quais o país foi fundado, em 1948.

"Esta é a crise que o Estado de Israel enfrenta", diz Mahdi Abdul-Hadi, diretor da Passia, grupo de estudo palestino no leste de Jerusalém. "Escolherão um sistema de apartheid, com a minoria judia governando uma maioria não-judia?"

Cada vez mais, entre o Rio Jordão e o Mediterrâneo, cai a diferença entre o número de judeus israelenses e o número de palestinos árabes de maioria muçulmana. Com sua população crescendo em até 6% ao ano, parece certo que os palestinos superarão em números os judeus, que crescem em uma taxa próxima de 1% ao ano.

Dentro de 18 anos, de acordo com o demógrafo israelense Arnon Soffer, os judeus serão pouco mais de 42% dos 15,5 milhões de pessoas que habitam a região.

Hoje, 450 mil judeus israelenses moram nos assentamentos no interior da Cisjordânia e Gaza, ou em bairros de maioria árabe no leste de Jerusalém, e são somente cerca de 13% da população nessas áreas, ocupadas por Israel depois da Guerra dos Seis dias, de 1967.

Cerca de metade dos 3 milhões de palestinos que moram nesses territórios tem menos de 15 anos.

Dentro dos limites de Israel propriamente ditos, os árabes -hoje cerca de 15% dos 5,8 milhões de habitantes do país- serão quase um quinto da população em 2020, de acordo com as projeções feitas pelo Escritório Central de Estatísticas de Israel.

Em seu estudo demográfico divulgado no ano passado, Soffer advertiu que a população palestina crescente, se abandonada à pobreza e relegada a uma situação de segunda classe, poderia se provar uma ameaça à segurança israelense.

"Uma população amargurada é um perigo. É razoável pensar que se voltará para medidas extremistas, do terror à guerra santa", escreveu Soffer.

Advertindo sobre a bomba populacional palestina, Soffer também viu ameaças à prosperidade econômica de Israel e seu frágil meio-ambiente.

"As tendências e indicadores apontam para uma catástrofe econômica e ecológica e um presságio da morte do sonho ideológico de um estado judeu", disse Soffer ao jornal conservador em inglês Jerusalém Post, no verão passado.

Esse tipo de raciocínio levou alguns israelenses a procurarem soluções radicais.

Muitos da esquerda política defendem uma "separação unilateral": Deixar a Cisjordânia e Gaza, permitir a criação de um estado palestino na região e construir uma sólida cerca para controlar o acesso palestino a Israel.

"Acreditamos que a divisão em dois estados, depois da retirada de Israel para as fronteiras de 1967, é uma questão de sobrevivência israelense e do estado democrático judeu e não somente da satisfação de direitos nacionais palestinos legítimos", diz Didi Remez, porta-voz do grupo pacifista de esquerda Paz Agora.

Para Remez, "as únicas soluções racionais (para Israel) são a volta às fronteiras de 1967 ou limpeza étnica".

Alguns conservadores israelenses defendem a "transferência" de palestinos para o outro lado do Rio Jordão. Outros defendem a presença de palestinos nos territórios ocupados, mas negando-lhes o direito de votar, de forma a manter o poder político nas mãos dos judeus israelenses.

Muitos fatores alimentam a explosão demográfica palestina. Como em muitas sociedades tradicionais, os filhos, especialmente do sexo masculino, são valorizados como fonte de orgulho e de ascensão econômica.

Há anos entretanto, que a procriação também tem motivações políticas. Segundo alguns, especialmente durante os últimos 18 meses de conflito sangrento com Israel. Se os palestinos não conseguiram derrotar os israelenses militarmente, eles poderão derrotá-los com números, segundo essa teoria.

"É uma bomba relógio", diz Khaled Nabris, economista palestino que trabalha com projetos de desenvolvimento. "As pessoas se recusaram a praticar controle de natalidade por causa de um sentimento nacionalista".

Talvez em nenhuma outra parte a crença na concepção como instrumento político seja mais profunda do que nos populosos campos de refugiados, como Shufat, a leste de Jerusalém, onde Hassan e cerca de 20 mil pessoas moram. Quase todos ali nutrem o sonho de, um dia, recuperar as terras e casas perdidas em Israel.

"Cem anos atrás, quando uma doença chegou à aldeia, metade das pessoas morreram", disse Mohammed Nofal, 55, pai de sete.

"Agora, nossa doença é Israel", diz ele. "Se matar metade da população, ainda teremos a outra metade e nossa liberdade".

Essa mensagem há muito é transmitida, mesmo que não oficialmente, por líderes palestinos políticos e religiosos, dizem alguns.

Ativistas dos direitos das mulheres lembram-se, revoltados, de uma visita que o líder palestino Yasser Arafat fez ao campo de refugiados Deheisheh, de Belém, em 1996. "Tenham 12 filhos, dois para vocês, e 10 para a causa palestina", teria dito Arafat aos moradores do campo superlotado.

Hoje, a taxa de nascimento nos campos está entre as mais altas dos palestinos. As famílias, em geral, têm cerca de sete filhos, mas é comum terem 12 ou mais, de acordo com o censo.

Por um lado, as famílias de refugiados "querem compensar pelos mártires perdidos", diz a socióloga palestina Norma Hazboun, referindo-se aos jovens rapazes que morreram no conflito com Israel. "E, por outro, querem continuar a luta".

Uma pesquisa sobre o comportamento das mulheres, conduzida por Hazboun há vários anos, revelou que 63% das mães nos campos de refugiados palestinos viam a concepção como um ato político. Referências às palestinas como "mães de mártires" fortaleceram essa convicção, disse Hazboun.

Mesmo assim, a perda de emprego e outras dificuldades econômicas, trazidas pela atual crise política, levaram alguns casais a optarem por menos filhos, dizem funcionários da saúde palestinos.

"A vida é cara", diz Najla Shweiki, conselheira de planejamento familiar de uma clínica da Organização das Nações Unidas, no campo de Shufat.

Apesar do aborto ser impensável para muitos palestinos muçulmanos ou cristãos, a contracepção e outras formas de planejamento familiar não são, dizem os especialistas.

Mesmo assim, como as pessoas estão vivendo mais do que no passado, o crescimento populacional não decresceu.

Bairros palestinos, especialmente nos campos de refugiados, que contam com 40% da população na Cisjordânia e Gaza, estão vibrando com vida jovem. Crianças em idade pré-escolar ocupam as vielas estreitas; adolescentes se agrupam nas esquinas.

A população árabe do leste de Jerusalém está crescendo a quase 4% ao ano. Já a taxa de crescimento da população judia está apenas um pouco acima de 1%, de acordo com Passia, o centro de estudos palestinos dirigido por Abdul-Hadi.

Apesar do aperto em que vivem, Shaer Hassan e muitos outros refugiados continuam firmes em suas convicções. Haverá espaço suficiente, dizem, quando voltarem à terra de suas famílias, perdida para Israel há 54 anos.

"Quando morávamos na terra, tínhamos muitos filhos para ajudar no trabalho", disse Nofal, pai de sete, amigo de Hassan."Hoje a terra se foi. Tenho seis meninos -dois para mim e quatro para a luta. Quero tomar a terra de volta".


Tradução: Deborah Weinberg Houston Chronicle

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