Análise: Invasão do Iraque trairia tradição americana

Michael T. Klare
San Francisco Chronicle
Em Amherst, Massachusetts

O presidente Bush gostaria de invadir o Iraque e derrubar seu odioso líder Saddam Hussein. Em sua busca por estes objetivos, Bush conta com o apoio de vários oficiais, congressistas e outros que condenam o regime ditatorial de Hussein e seu empenho para a obtenção de armas nucleares, químicas e biológicas.

Mais ainda que existam boas razões para que se deseje a queda de Hussein, mesmo assim existem boas razões para que se questione o anseio por uma invasão americana.

A lógica de uma invasão desta espécie foi esboçada inicialmente no discurso do Estado da União, proferido por Bush em 29 de janeiro. "Ao buscar armas de destruição em massa", países como o Iraque "criam um problema grave e crescente".

Sob tais circunstâncias, "eu não permanecerei imóvel, enquanto o perigo se torna iminente... Os Estados Unidos da América não irão permitir que os regimes mais perigosos de todo o mundo nos ameacem com os armamentos mais destrutivos de todo o planeta".

Bush evidentemente não afirmou abertamente que a forma mais segura para assegurar este objetivo seria uma vasta invasão do Iraque. Esta medida surpreenderia os aliados americanos, e possivelmente decepcionaria os americanos, para quem o combate à Al Qaeda e a captura dos responsáveis pelos ataques de 11 de setembro contra Nova York e Washington seria a principal prioridade.

Mesmo assim, não restam dúvidas de que Bush teria em mente uma invasão: de acordo com notícias publicadas na imprensa, o Pentágono trabalha ativamente no planejamento de uma operação semelhante à operação "Tempestade no Deserto", e que envolveria centenas de milhares de militares americanos.

Caso conte com uma vasta presença da força americana de combate, uma operação como esta certamente debilitaria as defesas iraquianas e resultaria em uma ocupação de Bagdá.

Hussein presumivelmente seria capturado ou morto e seus laboratórios nucleares, químicos e biológicos seriam destruídos. Seria instaurado um novo governo sob a tutela americana, o que permitiria a suspensão das onerosas sanções comerciais impostas pela ONU ao Iraque.

Esta parece ser uma situação ideal -- mas então por que questionar o anseio por uma invasão americana? A resposta reside nas implicações inevitáveis das duas palavras centrais : "americana" e "invasão".

Vejamos em primeiro lugar o problema de "americana". Não resta dúvida de que Bush preferiria que uma invasão do Iraque contasse com o apoio de uma coalizão de poderes mais próximos (tal como ocorreu durante a invasão do Kuait em 1991) e fosse antecedida por um "levante" interno de forças que se opõem a Saddam Hussein (algo similar aos ataques da Aliança do Norte contra o Taleban no Afeganistão). Nenhum destes cenários provavelmente virá a ser real. Nenhum de nosso aliados -- talvez com exceção da Inglaterra -- provavelmente viria a apoiar uma decisão como esta.

Além disso, as forças que se opõem ao governo iraquiano são muito fracas para resistirem aos exércitos de Hussein, e as forças de oposição fora do país (como o Congresso Nacional Iraquiano em Londres, por exemplo) possuem apoio interno restrito para que pudessem liderar um verdadeiro levante.

Desta maneira, a invasão seria quase inteiramente uma decisão americana. E isso não é bom.

Vejamos os problemas com a palavra "invasão". Em praticamente todos os empregos anteriores de forças militares pelos Estados Unidos no exterior, a intervenção americana foi ocasionada por um ataque direto contra nosso país ou por uma agressão incontestável contra algum aliado.

No caso atual, não houve provocação de nenhum dos dois gêneros. Estamos falando portanto de uma invasão americana sem motivação, que antecipa um hipotético ataque iraquiano.

Muitos em Washington parecem não se incomodar com este gesto. Uma ação preventiva se justifica, eles alegam, pela agressão iraquiana no passado e pela suposição -- que não possui base em qualquer evidência -- de que Bagdá planeja alguma nova atrocidade.

A opinião pública americana sempre exigiu algo além disto. Temos relutado em arriscar o sangue de nossos soldados a não ser que sejamos atacados ou que nos tenham convencido, após um amplo debate nacional, de que todas as outras formas de reação foram esgotadas.

Ainda não iniciamos este debate. Os defensores da invasão não produziram provas de que o Iraque esteja fabricando armas de destruição em massa, ou que um ataque direto seja a única atitude que garantiria a segurança dos Estados Unidos. O que há de errado com o atual sistema de patrulhas aéreas e vigilância do espaço aéreo, que garantem que o Iraque não seria capaz de construir alguma grande fábrica de armamentos que não pudesse ser detectada e destruída?

Antes que Bush possa responder a estas perguntas -- caso ele possa realmente respondê-las -- uma invasão americana direta do Iraque representaria uma violação dos direitos americanos elementares e colocaria em risco o vigor de nossa democracia.

Michael T. Klare é professor de estudos de segurança e paz mundial no Hampshire College em Amherst, Massachusetts, e autor de "Guerra de recursos: a nova paisagem do conflito global".

Tradução: André Medina Carone San Francisco Chronicle

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