Acordo nuclear de Bush é apenas uma fachada

Peter Ferenbach
San Francisco Chronicle
Em San Francisco (EUA)

Ao chegar a Moscou nesta quinta-feira, o presidente Bush irá anunciar uma nova era de falsos controles de armamentos. De modo geral, os países assinam acordos para controles de armas na intenção de elevar a segurança das nações signatárias. Infelizmente, a recente proposta não passa de um cínico jogo de aparências, destinado a encobrir a arriscada e agressiva nova postura nuclear do governo Bush; ela abre um novo e perturbador precedente para o futuro, e poderá ainda anular décadas de avanços no desarmamento nuclear.

O governo Bush almeja uma estratégia nuclear detalhada no escrito "Revisão da Postura Nuclear", que vazou para a imprensa no mês de abril. Em essência, a estratégia focaliza nações que supostamente possuiriam capacidade para o desenvolvimento de armas de destruição em massa. Parte-se do pressuposto de que a ameaça de um ataque preventivo dos Estados Unidos intimidaria nações que quisessem desenvolver uma capacidade nuclear.

Em um rompimento dramático em relação à estratégia do passado, esta revisão deixa claro que os Estados Unidos irão considerar a hipótese do emprego de armas nucleares contra adversários que não as possuem, e chega até a elencar nove nações que seriam alvos iniciais.

Esta estratégia demanda a criação de novas instalações nucleares e a preservação de outras.

O primeiro desafio, conforme a visão do Pentágono, serie encontrar um caminho para destruir instalações "inimigas" subterrâneas. A solução seria a criação de uma "superogiva", conhecida como "penetrador potente de terras" ("robust earth penetrator"), cuja função seria escavar o solo antes que houvesse uma detonação.

O segundo desafio seria superar o estigma do primeiro ataque nuclear. A solução do governo Bush para o problema consiste em tentar criar armas nucleares de baixo alcance, com menor poder explosivo do que o poder aterrador -- capaz de destruir cidades -- das armas nucleares do passado.

No início deste mês, o governo Bush tentou obter junto ao Congresso a liberação de verbas para ambos os projetos. Embora o Congresso tenha resistido ao financiamento da construção destas novas armas, os deputados concordaram em financiar pesquisas para a sua elaboração.

Para fabricar estas futuras ogivas com poder de penetração no solo e de baixo potencial, os Estados Unidos deverão preservar os armamentos mais eficazes atualmente disponíveis. E o mais eficaz existente é o míssil Trident.

Os mísseis Trident ficarão completamente protegidos pelo acordo Bush/Putin.

Este novo acordo determina que os Estados Unidos irão desativar um grande número de armamentos menos eficazes e estrategicamente irrelevantes e ao mesmo tempo irão buscar uma nova geração de armas nucleares com alto poder de desestabilização. Ou, na singela formulação do governo Bush: "Aquilo que aceitamos realizar, de acordo com o tratado, é o que faríamos de qualquer maneira".

Caso os armamentos que fossem desativados também fossem destruídos, haveria algo a ser comemorado. Mas o acordo que será assinado por Bush e pelo presidente russo Vladimir Putin também concederá a ambas as parte a oportunidade de notificar a outra parte de seu abandono com três meses de antecedência. Este curto prazo, associado à idéia do armazenamento de armas, certamente irá entusiasmar os militares russos.

Pela perspectiva russa, seria mais interessante estocar os armamentos, caso os Estados Unidos venham a anunciar que abandonarão o tratado. Isto significaria, por outro lado, o pior de todos os cenários -- mais armas nucleares russas estocadas ao invés de destruídas. O roubo de apenas uma destas armas representa provavelmente a única maior ameaça à nossa segurança.

Para finalizar, a data escolhida para esta viagem a Moscou é um flagrante exercício do "gerenciamento de calendário". O próximo domingo marcará o trigésimo aniversário da assinatura do Tratado Balístico Anti-Mísseis -- o histórico tratado de desarmamento que Bush abandonou de forma unilateral.

Entre o dia de hoje e nosso abandono formal do tratado, que ocorrerá no dia 13 de junho, teremos razões para crer que o governo Bush está genuinamente comprometido com o desarmamento, embora suas ações claramente indiquem que ele não está.

O caminho para uma maior segurança é muito mais direto do que este intrincado jogo de aparências: a segurança duradoura apenas será conquistada quando os Estados Unidos assumirem o compromisso de não mais desenvolver novas armas nucleares e destruir gradualmente o arsenal existente.

Peter Ferenbach é o diretor-executivo da California Peace Action.

Tradução: André Medina Carone San Francisco Chronicle

UOL Cursos Online

Todos os cursos